Pular para o conteúdo principal

A GRAMÁTICA, O MAL E O MAU


 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

Ao menos três razões mais visíveis fazem com que muitas pessoas confundam o uso das palavras MAL com L e MAU com U. É muito comum na Língua Portuguesa esse tipo de confusão, até mesmo entre pessoas que escrevem habitualmente.

A homofonia, a pronúncia idêntica das duas palavras, faz com que algumas pessoas descuidadas façam tal confusão habitualmente. O fato de as duas palavras possuírem o mesmo som no sotaque da maior parte das regiões do Brasil pode provocar tal confusão.

Quase sempre na palavra MAL o L soa como U. Bons exemplos são as palavras SAL e BRASIL. Em tais casos, falando é praticamente impossível distinguir qual é a grafia correta. Por isto, muitos são tomados pela incerteza no momento em que precisam escrever corretamente.

Uma boa exceção é o português falado no estado do Rio Grande do Sul e em alguns municípios dos estados de Santa Catarina e do Paraná, onde o L é pronunciado com a língua colada ao palato, o conhecido céu da boca. Naquelas regiões, a forte colonização alemã e de outras regiões europeias possibilitou usos diferenciados da fonética da Língua Portuguesa.

Outra razão que leva as pessoas ao uso inadequado das palavras MAL e MAU é o fato de elas desconhecerem que ambas se referem a classes gramaticais distintas e por isto cumprem funções diferenciadas em uma frase, mesmo ambas se referindo a algo negativo ou ruim.

Pelo desconhecimento das categorias gramaticais das duas palavras as pessoas fazem delas um uso inadequado sem se dar conta de serem opostas as funções sintáticas de cada uma delas. Conhecer as categorias gramaticais possibilita a quem escrever saber a que se destina cada palavra.

A palavra MAL escrita com a letra L pode ser um advérbio, um substantivo ou uma conjunção. Já quando escrita com a letra U, a palavra MAU é exclusivamente adjetivo.

Advérbio é a classe mais comum da palavra MAL quando grafada com L. Em tal situação, MAL é o antônimo de BEM. Os advérbios, como sabemos, modificam um verbo, um adjetivo ou outro advérbio, indicando modo, estado ou, algumas vezes, tempo.

Quando você tiver dúvida, substitua a palavra MAL grafada com L pelo seu antônimo, a palavra BEM, na frase que construir. Exemplifico verificando qual é a frase correta: “Ele se sentiu MAL depois da notícia” ou “Ele se sentiu MAU depois da notícia”?

Para dirimir tal dúvida substitua a palavra MAL ou a palavra MAU pelo seu antônimo. “Ele se sentiu BEM após a notícia”. A frase ficou perfeita, indicando que no caso você deve grafar MAL com L. O antônimo da palavra MAU com U é a palavra BOM. “Ele se sentiu BOM após a notícia”. A palavra BOM não é adequada à frase.

Como substantivo, a palavra vem quase sempre acompanhada de um artigo: O MAL. Em tal caso, nomeia algo negativo como uma doença, um infortúnio, uma maldade ou o lado ruim de alguma coisa. Eu posso escrever: “O MAL da sociedade é a violência”. Para verificar se estou acertando, eu posso buscar o antônimo: “O BEM da sociedade é a solidariedade”. Em outro exemplo, posso me referir a uma doença, uma moléstia: “Ele sofreu de um MAL incurável”.

Como conjunção temporal, eu posso lançar mão da palavra atribuindo-lhe o sentido de “assim que”, “logo que” ou “quando”. Utilizada como conjunção temporal, a palavra MAL liga orações, indicando que uma ação ocorre imediatamente após a outra. Exemplo: “MAL ele chegou, a reunião começou”.

É importante ter sempre claro e evitar confusões entre os usos possíveis das palavras MAL e MAU. Na frase “O GPS está MAL soldado”, a palavra MAL é classificada como advérbio.  No caso concreto, o advérbio MAL está modificando o particípio verbal “soldado” que funciona nesta frase como um adjetivo para o verbo de ligação “estar”. Ele indica o modo ou a qualidade da soldagem.

Você pode confirmar a correção da frase trocando a palavra MAL pelo seu antônimo: “O GPS está bem soldado”. A substituição funciona perfeitamente porque em Português, o advérbio (MAL/BEM) é usado para modificar um verbo, um adjetivo ou outro advérbio.

Já o adjetivo MAU grafado com U tem como antônimo a palavra BOM e é usado para modificar um substantivo, como na frase que explicaria quem fez a soldagem do GPS anteriormente referida: “A soldagem foi feita por um MAU soldado”.

 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A MORTE E A MORTE DO MONSENHOR CARVALHO

  Jorge Carvalho do Nascimento     Os humanos costumam fugir da única certeza que a vida nos possibilita: a morte. É ela que efetivamente realiza a lógica da vida. Vivemos para morrer. O problema que se põe para todos nós diz respeito a como morrer. A minha vida, a das pessoas que eu amo, a daqueles que não gostam de mim e dos que eu não aprecio vai acabar. Morreremos. Podemos mitologizar a morte, encontrar uma vida eterna no Hades. Pouco importa se a vida espiritual nos reserva o paraíso ou o inferno. Passaremos pela putrefação da carne ou pelo processo de cremação. O resultado será o mesmo - retornar ao pó. O maior de todos os problemas é o do desembarque. Transformamo-nos em pessoas que interagem menos e gradualmente perdemos a sensibilidade dos afetos. A decadência é dolorosa para os amigos que ficam, do mesmo modo que para os velhos quando são deixados sozinhos. Isolar precocemente os velhos e enfermos é fato recorrente, próprio da fragilidade e das mazelas da socied...

O EVERALDO QUE EU CONHECI

                                                                Everaldo Aragão     Jorge Carvalho do Nascimento     Em agosto de 1975 fui procurado pelo meu inesquecível amigo Luiz Antônio Barreto para uma conversa. À época, Luiz exercia o cargo de chefe da Assessoria para Assuntos Culturais da Secretaria da Educação e Cultura do Estado de Sergipe e eu trabalhava como redator de noticiários da TV Atalaia, o recém inaugurado Canal 8. Luiz me fez um convite para uma visita ao Secretário da Educação e Cultura do Estado de Sergipe, Everaldo Aragão Prado. Eu não o conhecia pessoalmente. Como jornalista, eu sabia dele na condição de personalidade pública. A sua fama era de homem carrancudo, muito sisudo e rigoroso. Fiquei surpreso com o convite. Não entendi porque poderia haver da parte de Everaldo interesse em faz...

MIGUEL DE UNAMUNO E A PROVA DA UFS

                                                            Miguel de Unamuno       Jorge Carvalho do Nascimento     História é ciência dedicada a estudar aquilo que aconteceu, o que efetivamente foi vivido pelos humanos. Nunca é demais lembrar que é com os olhos voltados para as coisas que efetivamente aconteceram que somos capazes de explicar e dar sentido à vida. O porvir ainda não aconteceu e não sabemos se irá acontecer, posto que a incerteza da morte nos está posta desde o momento no qual abrimos os olhos para a vida. O que denominamos de presente é um átimo que se torna passado a cada momento vivido. O entendimento de todas as dimensões da vida, da condição humana, da economia, dos afetos, das práticas culturais, das relações familiares, da organização da sociedade, da política, tudo isto é dado pela fantást...