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A ETERNA E MUTANTE VANILDA PAIVA

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Em 1982 eu cheguei à Pontifícia Universidade Católica - PUC de São Paulo como aluno do Mestrado em Filosofia e História da Educação. À época, oferecendo os cursos de Mestrado e Doutorado, a PUCSP mantinha o mais importante programa de pós-graduação em Educação do país. Àquela altura eu tinha clareza de que a formação jurídica que recebi na Universidade Federal de Sergipe fora extremamente importante para que eu pudesse compreender o mundo. Todavia, a minha consciência já havia demonstrado que eu jamais seria um quadro competente se resolvesse exercer a advocacia ou qualquer outra das práticas profissionais próprias aos operadores do Direito. As principais estrelas em ascensão na Educação brasileira atuavam como professores e pesquisadores no curso de Mestrado em Filosofia e História da Educação da PUC. O programa era liderado por Dermeval Saviani, recém-chegado da Itália, onde se aprofundara nos estudos sobre...

A PERERECA

     Jorge Carvalho do Nascimento*     Os 114 degraus revestidos com cimento crespo da igreja de Monte Santo eram uma espécie de “Disneylândia” dos romeiros devotos do beato Antônio Conselheiro. Nos sábados e domingos lá estavam beatos, beatas, mocinhas casadoiras, viúvas esperançosas, enfim todo um sortido de exemplares da fauna humana que chegava de longe e de perto, uns tantos para fazer pedidos e promessas e outros para depositar ex-votos. O padre Barata coçava a cabeça a cada novo ex-voto, principalmente os de maior volume. Reproduções de perna inteira em tamanho real, de troncos e colunas vertebrais de pessoas curadas pela graça do beato. Não havia mais espaço na pequena capela para guardar tanta coisa. Sábado e domingo não cabia tanta gente na Igrejinha. Os romeiros se ajoelhavam no primeiro degrau e subiam a longa escadaria contando um a um os obstáculos que esfolavam lentamente os joelhos dos que se dispunham a subir. Alguns intensificavam...

CÉU DE BRIGADEIRO

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Marcos Antônio de Melo foi prodígio desde sempre. Aos 25 anos de idade, em 1970 era secretário de Estado da Administração em Sergipe. Dois anos antes, em 1968, havia colado grau em Ciências Econômicas pela Universidade Federal sergipana. O economista propriaense havia iniciado o ensino médio em Maceió, no prestigiado Colégio Batista Alagoano, quando era corrente o ano de 1961, e concluiu tal ciclo de estudos em 1963, no Colégio Estadual de Sergipe, o velho Atheneu. Depois que ascendeu ao primeiro time da administração pública de Sergipe, Marcos não parou mais. Nem como gestor e muito menos como intelectual insaciável na busca por novos conhecimentos. Já muito experiente na gestão, obteve o título de mestre em administração pública pela Fundação Getúlio Vargas, do Rio de Janeiro, defendendo sua dissertação em 1982. Marcos desejou ampliar os seus saberes para além do campo da Economia. Prestou concurso vestibul...

O TIRO

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Baleadeira, atiradeira, baladeira, funda, badogue, badoque, bodoque, estilingue. Eram vários os nomes, mas o objetivo era somente o de atirar pedras em passarinhos, lagartixas, sapos ou acertar alvos os mais diversos. Matar e maltratar animais era brincadeira de criança. Na transição da infância para a adolescência os amigos invejavam a minha coleção da baleadeiras, todas construídas artesanalmente por mim. A munição: pedras, bolas de gude, caroços de frutas, mamonas. Tudo que pudesse atingir um alvo e ferir os animais. E algumas vezes também as pessoas, principalmente nas emocionantes batalhas das guerras de mamona que os meninos protagonizavam e que marcavam o corpo dos menos hábeis. A violência era parte significativa das brincadeiras, das práticas dos meninos. Às meninas, as bonecas. Aos meninos, os jogos de pelada nos quais todos, de pés descalços se estropiavam chutando a bola e junto com ela as pedras,...

O MOVIMENTO DE BOULANGER

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Desde que, em 2008, publiquei o livro A ESCOLA DE BADEN-POWELL, fui convidado, aceitei e passei a integrar a Patrulha Jaguatirica, um grupo de escoteiros que se dedicam a estudar a história do escotismo, especialmente no Brasil. Tenho muito orgulho de ser membro do grupo. Nos últimos tempos assumi a responsabilidade de governar o Distrito 4391 (Bahia, Sergipe e Alagoas) do Rotary International, no Ano Rotário 2024-2025. Tal compromisso tem me consumido muito tempo no processo de preparação e planejamento e me transformado em um Jaguatirica que é apenas espectador das atividades dos irmãos escoteiros que cotidianamente colocam a mão na massa com as atividades da Patrulha. Nesta última semana, necessitei fazer alguns exames de saúde. Não há nada melhor para salas de espera de consultórios médicos, laboratórios e clínicas que uma boa leitura. Apesar de já ter feito duas boas leituras do livro que aqui referencio...

O GRITO DAS CATEDRAIS DE JUSTINO

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Em 1978 eu trabalhava na Assessoria para Assuntos Culturais da Secretaria da Educação e Cultura do Estado de Sergipe. Compunha a equipe de trabalho coordenada por Luiz Antônio Barreto e na condição de representante daquele grupo participei do II Encontro Nacional do Ensino de Cinema nas Escolas de 1º e 2º Graus. Coordenado por Djaldino Mota Moreno, então presidente do Clube de Cinema de Sergipe, o evento reuniu intelectuais ligados ao esforço que buscava os caminhos capazes de perenizar o ensino de cinema nas escolas de 1º e 2º graus. Integrei o grupo que redigiu o documento final do Encontro. Participando ativamente de todos os debates e integrando comigo e com outros participantes a equipe que redigiu o documento, tive a oportunidade de conhecer um professor de Educação Artística do Atheneu Sergipense, especializado em cinema, que me chamou a atenção por vários fatores. O brilho da inteligência daquele pr...

LÁGRIMAS DE CHUVA

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Toda vez que tenho em mãos livros de autores que eu conheço e admiro procuro fazer imediatamente a leitura. Não sei dizer as razões pelas quais desde o mês de outubro de 2022 deixei sobre a minha mesa, sem ler, a novela CHUVA SUAVE, último livro publicado pelo médico José Vasconcelos dos Anjos, o escritor Zeza Vasconcelos. Conheço o trabalho intelectual de Zeza e admiro a sua obra. Gosto muito do seu romance A SUÍTE DOS VIVENTES e, também do seu livro de contos O HERBANÁRIO DE TIA FINHA E OUTRAS CURTAS ESTÓRIAS. A narrativa de Zeza é envolvente, o conteúdo dos seus trabalhos diz muito das fragilidades e do desconforto da condição humana. O texto de Zeza sabe tocar as feridas da vida indizível de cada um de nós. Ler qualquer um dos seus trabalhos é inquietar-se com os próprios pecados, com as pequenas vilanias, com tudo aquilo que a gente pratica e não é capaz de confessar nem mesmo ao próprio travesseiro. Ist...

SÃO JORGE DOS ESCOTEIROS

      Jorge Carvalho do Nascimento*     Robert Baden-Powell, o inglês que fundou o Escotismo em 1907, extraiu do protestantismo uma forma de conduta, um modo de vida, uma atitude mental que, sob a sua ótica, produziria a felicidade para os homens. “Faça os outros felizes e você se sentirá feliz. Reconheça o lado bom naquilo que tiver conseguido, o lado divertido da vida, as glórias, maravilhas e belezas da Natureza. Afogue a ambição pessoal” – ensinou Baden-Powell em seu livro Caminho Para o Sucesso: Um Livro Sobre o Esporte da Vida Escrito Para Rapazes. (Porto Alegre, União dos Escoteiros do Brasil, 2000. p. 254). No Escotismo, Deus e o homem sempre estiveram interligados. A vida só teria sentido quando estivesse sujeita à Deus e à sua lei. De princípios religiosos fortemente arraigados no anglicanismo, Baden-Powell também transferiu para o Escotismo alguns elementos da tradição religiosa inglesa, como o culto a São Jorge, porque era, de todos os S...

A CAPELA E A CIDADE

      Jorge Carvalho do Nascimento*     A criação do encapelado de Santo Antônio do Aracaju data de outubro de 1778, quando o padre Luís de Brito Soares recebeu a sua administração. Ali se estabeleceu o povoado de Santo Antônio. O povoado é algo distinto da cidade que Inácio Barbosa fundou em 1855. Somente muitos anos após a fundação da cidade de Inácio Barbosa, o povoado Santo Antônio do Aracaju foi incorporado à malha urbana da nova capital.   Não obstante a observação com a qual dei início a este texto, é pouco crível a tese sustentada por boa parte da historiografia sergipana, que considera o espaço no qual a cidade de Aracaju foi erguida uma praia inóspita e esquecida. A nova cidade foi construída a partir do bem ocupado sítio Olaria. Eram duas Olarias: a Olaria do Aracaju e a Olaria de Cima. A primeira, a Olaria do Aracaju ou Porto dos Ferreiros, tinha sua sede na área central da cidade erguida por Inácio Barbosa, nas proximidades da atu...