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ALMA DE PAPEL


  

 

Jorge Carvalho do Nascimento*

 

 

Não tenho mais nenhuma dúvida. A alma dos que possuem predileção pela atividade intelectual, ao menos os da minha geração e os das gerações anteriores a minha, é feita de papel. Passamos a vida colecionando papéis. Compramos livros, revistas almanaques, jornais, toda sorte de publicações cujo suporte é feito de papel e tinta.

Certa feita adquiri um apartamento novo. Assalariado, professor da Universidade Federal de Sergipe, queimei meus navios para realizar o sonho de estabelecer aquele imóvel como a nova morada por mim escolhida, onde eu iria receber meus amigos, além de guardar meus discos e livros. E nada mais...

Vendi um carro, um terreno que eu possuía reservado para a futura construção de uma casa, fiz um financiamento de 100 meses direto com a incorporadora que empreendeu a construção do edifício. Contratei um amigo muito querido, arquiteto, para deixar o imóvel com a minha cara.

A primeira vez que ele foi visitar o outro apartamento onde eu vivia para saber quais eram os meus hábitos e como eu gostaria de organizar o novo espaço, fez uma observação de bate pronto, sob a forma de pergunta: o que você vai fazer com todos esses livros, revistas e demais papéis?

Não pestanejei e respondi na lata: eles mudarão comigo para o novo endereço. Arquitetos sabem como realizar sonhos, como racionalizar os espaços. E o meu dileto amigo encontrou os caminhos que eu buscava para realizar meu desejo. O apartamento de quatro dormitórios virou um imóvel de dois quartos.

Em compensação, como eu aspirava, ganhei uma boa sala de jantar, uma sala de estar maravilhosa, um bom escritório e uma excelente biblioteca. Tudo com ótimo acabamento e iluminação adequada. Uma amiga do peito foi me fazer uma visita. Andou pelo apartamento e sentenciou: você não fez uma casa nova. Colocou a cama na biblioteca.

Passei a vida ouvindo observações desta natureza. Na adolescência e juventude, meus pais consideravam um exagero a quantidade de livros, revistas, jornais e discos que eu comprava. Certa feita, meu avô paterno fez um questionamento que me deixou desconcertado: Jorge, porque ao invés de gastar tanto dinheiro comprando papel, porque a cada mês você não reserva a metade disto e no final de cada ano dá entrada na compra de um terreno?

À época, fiquei aborrecido. Hoje, compreendo meu avô. Continuo sem desejar os terrenos que ele me sugeriu adquirir. Ainda gasto fábulas comprando livros. Não deixei de ouvir questionamentos e observações que oscilam entre a reprovação, a ironia, o sarcasmo e o deboche.

A lógica que movia o meu avô, como a de muitos amigos queridos que eu possuo, transita por trilhas que eu não costumo nem quero frequentar. Talvez sejam caminhos que levem a lugares mais confortáveis do que aqueles que eu habitualmente visito. Todavia os caminhos que me fazem feliz são feitos de papel.

Consumo a maior parte das horas da minha vida, sentado na poltrona do escritório da minha casa, dedicado a leitura. Quando não, na cadeira defronte à mesa que instalei no mesmo cômodo, ao computador, pesquisando informações e produzindo textos que a maioria considera inúteis e que eu costumo publicar regularmente nos espaços que mantenho na rede internet.

Certa feita eu morava em São Paulo, quando era aluno do curso de Mestrado que fiz na Pontifícia Universidade Católica - PUC. Gostava de passar as manhãs na sala do meu apartamento, no bairro de Pinheiros, dedicado a leitura. Em dada ocasião, uma das minhas filhas não se conteve.

Com a inocência que é própria às crianças, a menina virou para mim e disparou: meu pai, por que você não procura um trabalho como Fernando, pai da minha amiga Bianca? Toda manhã ele vai trabalhar. Você fica em casa e não trabalha, só faz ler esse monte de livros. Por mais que eu explicasse, era difícil para ela compreender que a leitura e a escrita eram as minhas formas de trabalho.

Meu saudoso e querido amigo Luiz Antônio Barreto costumava sentenciar que nós, intelectuais, estávamos condenados a perder o corpo e a alma após a morte. Como eu, ele também entendia que a alma dos intelectuais é representada pelos livros e outros papeis que nós colecionamos ao longo da vida.

Segundo a sua interpretação, a primeira coisa que fazem as famílias dos intelectuais quando estes morrem é buscar uma alternativa para se livrar da biblioteca, vista quase sempre como culpada pelo fato destes se ausentarem do convívio familiar, além de ser espaço que atrai traças, baratas e roedores, se não for higienizado e desinfetado com muita frequência.

Logo após a morte, as prateleiras das estantes são esvaziadas e a lugubridade invade o espaço, como se estivesse à espreita ao lado da morte esperando a hora da devolução daquele lugar aos que vivem no mundo das pessoas normais e não afogados nas fantasias imaginárias da literatura.

Não duvido. A minha alma é de papel.

 

 

*Jornalista, professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação.

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