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A EQUIPE DE EVERALDO E A PLURALIDADE IDEOLÓGICA

                                                Luiz Antônio Barreto


 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

As análises da política educacional implementada no Brasil durante vinte anos, a partir de 1964, necessitam renunciar a um certo maniqueísmo que prioriza apenas as denúncias das mazelas e produz o esquecimento de alterações fundamentais no sentido da expansão e qualificação dos serviços oferecidos no ensino de primeiro e segundo graus e no ensino superior, sob padrões que até então o país desconhecia.

É comum que tais análises evidenciem apenas o caráter da anomalia política do regime, das alterações na estrutura econômica e social das relações capitalistas brasileiras, além de recorrer abusivamente a pedagogismos filosóficos, viciando a interpretação.

Da mesma maneira, é necessário entender que nem todos os técnicos que atuaram como gestores do serviço público durante o período da ditadura eram pessoas que apoiavam os golpistas. Na verdade, eram profissionais de distintas áreas que, na condição de servidores públicos, buscavam criar as condições de sobrevivência com o uso da sua força de trabalho.

São muitos os exemplos de militantes de esquerda que assumiam posições relevantes. Em Sergipe, é possível citar nomes como os de Nilton Pedro e Artemízio Rezende que trabalharam no Conselho de Desenvolvimento Econômico – Condese. Ou a professora Laura Marques, notoriamente militante do Partido Comunista Brasileiro, que integrou a equipe técnica da Secretaria da Educação e Cultura durante a gestão de Everaldo Aragão Prado.

Em 1975, ao tomar posse do cargo, Everaldo Aragão Prado, mesmo sendo um homem conservador que apoiou o golpe compôs uma equipe de assessores que comportava pessoas de diferentes matizes ideológicos, alguns, inclusive, velhos conhecidos dos órgãos de segurança da ditadura e considerados por tais instituições pessoas perigosas.

Reconhecer as contradições existentes e os eventuais avanços da política educacional implementada naquele período, não implica negar o caráter ditatorial do governo que conduzia tal política. Na verdade, significa exercer com honestidade o ofício de historiador, extraindo dos documentos escritos e orais, bem como dos múltiplos indícios iconográficos, a necessária reflexão, colocando ao alcance dos mais jovens os escaninhos que a memória insiste em esquecer, muitas vezes fugindo de polêmicas presentes nas contraditórias versões.

Como toda a atividade humana, a memória a respeito do período vivido pelos brasileiros entre 1964 e 1984 é plural, pode ser apanhada sob distintas perspectivas teóricas e metodológicas, e por isto necessita distanciar-se do dogma e do autoritarismo dos militantes à direita e à esquerda, abrindo-se à contradição e ao olhar crítico.

Na equipe nomeada por Everaldo Aragão Prado, em 1975, Antônio Dantas de Oliveira era diretor do Departamento de Planejamento; Cássio José Barreto, diretor do Departamento de Administração Geral; José Silva Santos, Chefe de Gabinete; Manoel Messias da Silva Menezes, diretor do Serviço de Engenharia; Liomar de Oliveira Quaranta, diretora do Serviço de Inspeção Escolar; Gisélio Gonçalves Lima, diretor do Serviço de Administração de Praças de Esporte; Luiz Antônio Barreto, chefe da Assessoria para Assuntos Culturais; Deoclécio Vieira Filho, chefe da Assessoria Jurídica; e, Joel de Oliveira, diretor da Diretoria de Educação de Aracaju.

Nas sete Diretorias Regionais de Educação, os diretores eram os seguintes: DR 01 (Estância), Raimunda Luciola D’Ávila; DR 02 (Lagarto), Genivaldo Monteiro dos Santos; DR 03 (Itabaiana), Maria José de Oliveira; DR 04 (Japaratuba), Maria Vanira Rodrigues Pereira; DR 05 (Nossa Senhora das Dores), Antônio Aragão Feitosa; DR 06 (Propriá), Manoel Ramiro Vieira; e, DR 07 (Gararu), Aurora Maria Alves de Carvalho.

O distanciamento das posições dogmáticas é fundamental para que se compreenda a composição de uma equipe como esta. A pesquisadora Lucilia de Almeida Neves Delgado revela que mesmo a bibliografia decorrente da pesquisa acadêmica tem sido razoavelmente maniqueísta (DELGADO, 2004, 17).

Segundo a autora, as análises estruturais predominaram ao longo da década de 1970, relacionando “a deposição do presidente João Goulart por um golpe civil e militar, a problemas quase que atávicos da realidade nacional, com ênfase para o subdesenvolvimento e para o atraso na industrialização do Brasil” (Idem), apontando dentre os que podem assim ser considerados sociólogos, economistas e cientistas políticos como Otávio Ianni, Fernando Henrique Cardoso, Maria da Conceição Tavares e Francisco de Oliveira.

O distanciamento dogmático pode nos mostrar que mesmo recebendo vetos dos órgãos de segurança das forças armadas, o jornalista Luiz Antônio Barreto assessorou Everaldo Aragão Prado e o governador José Rollemberg Leite durante mais de três anos, a partir da sua posição de chefe da Assessoria para Assuntos Culturais.

É importante afirmar que, inicialmente, José Rollemberg Leite e Everaldo Aragão Prado pretendiam nomear Luiz Antônio Barreto para o cargo de diretor do Departamento de Cultura e Patrimônio Histórico – DCPH. Todavia, diante do veto que os militares fizeram ao nome de Luiz Antônio, José Leite e Everaldo buscaram uma solução razoavelmente criativa.

A justificativa ao veto do nome de Luiz Antônio dizia que por possuir restrições ideológicas, Luiz não poderia exercer cargos de dirigente de Departamento, sendo-lhe permitido somente cargos de assessoramento. A anotação indicava que Luiz Antônio teve seu nome recusado para exercer o cargo de chefe de gabinete do reitor da Universidade Federal de Sergipe, João Cardoso Nascimento Junior, em função do veto ideológico. Da mesma maneira, o prefeito de Aracaju, Cleovansóstenes Pereira de Aguiar, o nomeou para o cargo de diretor da Galeria de Arte Álvaro Santos, mas em curto espaço de tempo foi instado a demiti-lo.

José Rollemberg Leite e Everaldo Aragão Prado extinguiram o DCPH, criaram a Assessoria para Assuntos Culturais que na prática incorporou as funções que anteriormente eram do DCPH e nomearam Luiz Antônio para o cargo de chefe da Assessoria para Assuntos Culturais. Como assessor cultural, Luiz Antônio viu o seu nome ser aprovado pelos órgãos de segurança.

Seja como for, esquerdistas são ideologicamente os suspeitos de plantão na sempre golpeada democracia brasileira. Analisando o golpe de 1964, o sociólogo Florestan Fernandes e os historiadores Caio Navarro de Toledo e a própria Lucilia de Almeida Neves Delgado enfatizam a “ideia de que os militares e os civis que destituíram João Goulart da Presidência da República agiram impulsionados por uma perspectiva preventiva”, estimulada pela crença de que os movimentos populares e os programas governamentais reformistas levariam o Brasil, na pior das hipóteses, a um modelo distributivo ou, quem sabe, a um possível paraíso socialista (Ibidem, 19). Exatamente a perspectiva socialista teria sido contida através do golpe de 1964 que se apresentou como sendo preventivo.

 

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