Jorge
Carvalho do Nascimento
O
bairro de Higienópolis, na cidade de São Paulo, é coalhado por antigos e
suntuosos edifícios de luxo nos quais em apartamentos suntuosos vivem alguns
dos sobrenomes mais endinheirados do país. O mesmo acontece nas mansões de
bairros paulistas como o Morumbi, Jardim América e Jardim Europa.
O
Country Club carioca é espaço seleto e restrito onde se encontram as pessoas
que integram famílias reconhecidas pela solidez do patrimônio e pelo elevado
padrão de vida. O mesmo pode se dizer das mansões existentes em condomínios de
luxo de lugares como Angra dos Reis, no Rio de Janeiro, ou mesmo no litoral norte
alagoano, na famosa praia de São Miguel dos Milagres, lugar de luxo
despretensioso, onde o turismo de massas é desestimulado.
Em
todos estes locais, onde os ricos e famosos se reúnem, é possível afirmar que
não há espaço para os que não pertencem a tal mundo. Estudar o mundo dos muito
ricos do Brasil é o que faz o livro COISA DE RICO, do antropólogo Michel
Alcoforado.
Num
texto escrito com muito senso de humor, resultante de um primoroso estudo
antropológico, ele analisa o mundo dos super ricos brasileiros. A vida dos
endinheirados é o tema ao qual tem dedicado a sua carreira acadêmica esse
carioca, nascido no Rio de Janeiro em 1986. Doutor em Antropologia Social,
Alcoforado é professor universitário, palestrante, comentarista da rádio CBN e
host do podcast “É Tudo Culpa da Cultura”.
O
autor é um típico filho das camadas médias urbanas do Rio de Janeiro. “Meus
pais têm curso universitário, trabalharam por mais de quarenta anos em uma
estatal, gozaram das benesses dos bons salários e de certa estabilidade
financeira” (p. 25). Com este perfil, foi muito difícil a sua infiltração no
grupo dos super ricos para desenvolver a sua pesquisa.
O
livro COISA DE RICO foi publicado em 2025 na cidade de São Paulo, pela editora
Todavia. Em suas 235 páginas, Alcoforado demonstra que os endinheirados
brasileiros nunca se consideram ricos. Diz ele que isto dificulta o
estabelecimento de um critério absoluto para afirmar quem efetivamente é rico
no país.
Quando
se dialoga com os ricos, eles sempre argumentam que existe alguém muito mais
endinheirado, com mais pompa, mais patrimônio, mais renda, concluindo que rico
é sempre o outro. Michel Alcoforado examina diversos representantes do mundo da
elite brasileira.
Analisa
os casais emergentes que passam a viver na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro,
e os que viajam frequentemente a Miami para comprar roupas e outras peças de
grifes famosas. Estuda o estilo da filha de um banqueiro que vive discretamente
em um apartamento na Suíça.
Alcoforado
lança o seu olhar sobre as angústias de embaixadores, filhos de famílias
tradicionais de diplomatas brasileiros, que vivem se queixando do fato de haver
o Itamaraty ampliado o número de vagas da carreira diplomática, permitindo que filhos
de famílias sem tradição cheguem aos postos mais privilegiados da diplomacia.
O
texto bem humorado de Michel revela toda sua experiência como antropólogo e
justificam o fato de ser reconhecido como “antropólogo do luxo”, o que lhe
permitiu ter acesso aos círculos mais seletos da elite social e econômica do
Brasil. Ele revela que a partir de um determinado patamar de riqueza, os ricos
estão menos preocupados com o tamanho do patrimônio e da renda do interlocutor
e mais com o domínio dos códigos que fazem alguém ser reconhecido como membro
da alta roda.
Esbaldar-se
com a espalhafatosa exibição de grifes caras, ensina Michel, é coisa para
emergente e não para rico estabelecido. Os ricos tradicionais aparecem publicamente
vestidos em roupas discretas, mas sempre reconhecidas por aqueles que fazem
parte do mesmo mundo.
Michel
Alcoforado, sem ser pedante, lança mão de vasta bibliografia antropológica que
lastreia suas análises, sem esconder sua predileção por estudiosos como o
alemão Norbert Elias, principalmente no seu conhecido trabalho ESTABELECIDOS &
OUTSIDERS, fazendo um diagnóstico mordaz.
Impossível
não se encantar com a narrativa de Michel, quando ele relata o encontro com um
jovem casal novo rico brasileiro no aeroporto de Miami, tão endinheirado quando
desconhecedor da língua inglesa. No afã de comprar tudo no Estados Unidos da
América, inclusive as malas que utilizaria, o casal desembarcou com passagem de
volta e hotel reservado para 15 dias, mas sem nenhuma bagagem, o que causou a
desconfiança dos agentes da imigração.
Os
agentes fizeram revista minuciosas nos dois, mesmo tendo encontrado em suas
mochilas carteiras recheadas como nove mil dólares em espécie e seis cartões de
crédito black ilimitados. Na cabeça deles não cabia alguém viajar para uma
estada de 15 dias e não levar sequer uma escova de dentes. Eles insistiam que
até isto seria comprado em Miami, posto que os preços lá são mais convidativos.
O
mesmo casal ficou estressado na locadora de veículos porque não encontrou
disponível a Porsche na cor reservada no Brasil antes do início da viagem, com
diárias de 700 dólares. O carro fora reservado para um período de 15 dias, ao
custo total de 10.500 dólares.
O texto de Michel, sem trocadilho, é muito rico e nos ajuda a conhecer um Brasil que é inacessível aos mortais que não possuem renda mensal superior a pelo menos 100 mil reais. É um texto sensível, ilustrativo, analítico e que vale muito ser lido por aqueles que são interessados na condição humana que é, afinal, o verdadeiro objeto de estudo não declarado do autor.

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