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A MÃE DA MÉDICA



 

 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

Faltavam 13 dias para terminar o verão. Aquela quarta-feira fora de muito sol e calor, como sempre acontecia nas últimas semanas do outono na cidade do Recife. Naquele oito de dezembro de 1973, Sônia estava elegantérrima. Era a própria expressão da elegância tropical.

A mãe da formanda expressava a moda da época, misturando a sobriedade exigida pelo ambiente histórico do Teatro Santa Isabel com a liberdade estética que as mulheres da segunda metade do século XX haviam conquistado.

O seu vestido em chiffon de seda azul escuro com comprimento midi, logo abaixo dos joelhos, respeitava o ´protocolo da festa e era confortável sob o calor úmido do litoral das cidades do nordeste do Brasil, evitando a transpiração.

Enquanto Sônia subia elegantemente as escadarias de mármore do teatro, era possível sob o contra luz observar a sua silhueta discreta de mulher bem torneada, valorizada pelo corte em evasê que se abria a partir da cintura, bem marcada por um cinto fino confeccionado com o mesmo tecido do vestido.

O decote sofisticado em estilo canoa insinuava sem mostrar. Logo, os olhos de quem admirava a cena eram atraídos pelas mangas bufantes transparentes presas aos punhos por botões de madrepérola, moda nos anos 70. Pequenos bordados em Richelieu, expressão do artesanato pernambucano, adornavam a barra da saia.

Os cabelos de Sônia foram penteados em forma de coque baixo com alguns fios soltos e pontas para fora. Os olhos levemente marcados com delineador e batom em tom pêssego. No pescoço, um colar de pérolas em volta única e brincos de ouro nas orelhas. Nas mãos, uma pequena clutch de cetim. Sapatos de salto médio em estilo scarpin de bico fino, na cor creme.

A elegância de uma mulher da elite pernambucana. A empresária que venceu na vida. Ali sentada na primeira fila da ala de cadeiras reservadas aos familiares dos formandos. Seu pensamento voava enquanto seus olhos estavam fixados no lustre central de cristal brilhando preso ao teto do pomposo Teatro, sentindo o aroma de perfume francês que inundava o salão na noite quente. Ao seu lado, as suas filhas, Carmen e Constância, também finamente vestidas. Era um momento de júbilo da sagrada família. Sônia fez questão de levar as meninas para assistir a colação de grau da irmã.

Carla foi a oradora da turma. Quando subiu à tribuna, sua mãe retirou da bolsa um lenço em linho branco e enxugou duas lágrimas que insistiam em borrar a sua maquiagem. A filha de Sônia fora a primeira mulher a ocupar aquela posição.

Começou sua oração homenageando a mãe e falando do sacrifício e da dignidade de Sônia para se transformar em empresária de sucesso no Estado da Paraíba, tendo nascido em uma família humilde nos sertões da Borborema. Enalteceu os esforços da mãe para educar as filhas e criar as condições a fim de que ela, Carla, se graduasse em Medicina.

Homenageou as cinco colegas que receberam o diploma de médicas naquela oportunidade, juntamente com ela, ao lado de 15 novos médicos do sexo masculino. Reconheceu e agradeceu o trabalho dos esculápios que eram mestres naquela prestigiada escola.

 

- Enfatizo a nobreza e a responsabilidade da nossa nova missão no momento em que passamos a tomar assento como pares daqueles que nos formaram para o exercício de uma ciência que é também arte, a arte de minorar o sofrimento dos nossos pacientes. Tudo isto num país que deve muito em melhores condições sociais à sua população que vive padecendo com verminoses, desnutrição, doenças contagiosas como a tuberculose. O médico e a médica não necessitam apenas saber que a desnutrição existe. É importante perguntar: por que a desnutrição existe?

 

Por último, Carla predicou sobre os desafios que os novos médicos iriam enfrentar. O seu discurso foi muito aplaudido, certamente por misturar a celebração pessoal e dos seus colegas com a responsabilidade social do médico e a humanidade da profissão.

Concluída a solenidade de colação de grau, todos se dirigiram ao Baile de Gala dos formandos no requintado Caxangá Golf & Country Club, o mais exclusivo e elitista do Recife, onde a única prática esportiva admitida era o golfe, esporte sempre associado aos hábitos da alta elite econômica.

 

- Minha mãe, você não é capaz de avaliar o quanto eu e as minhas irmãs nos orgulhamos da sua sabedoria, do seu nome honrado de viúva e empresária que cresceu nos seus negócios pela capacidade que tem de fazer bons investimentos, os investimentos certos. Sentimos orgulho por ter uma mãe que é uma mulher dedicada à sua família, a suas empresas, a fé, as boas causas da Igreja, a ajuda aos mais pobres. Educou suas filhas com muito rigor moral. Nós três tivemos as mesmas oportunidades como filhas. Eu sou muito feliz por ter aproveitado a chance que você deu e tudo que gastou para que eu vivesse no melhor internato do Recife, juntamente com as famílias de maior reputação moral e de mais sólido poder aquisitivo do Nordeste. Você deveria nos falar mais sobre a sua história de vida, sobre nossos avós que ficaram no sertão, sobre a sua luta para vencer na vida - concluiu Carla com a voz tomada pela emoção e os olhos marejando.

 

Sônia e sua família estavam, finalmente, vivendo sem reservas o status que a matriarca buscou de todas as formas, tendo passado por momentos extremamente humilhantes, sem falar nos riscos da sua longa estrada na prostituição que já estava no passado. Os espaços do Caxangá Golf eram amplos e requintados, afastados do centro urbano, e somente frequentado por famílias de muito alto poder aquisitivo.

 

- Filha! Você tem um longo caminho pela frente e eu vou lhe dizer que na vida todo mundo deve olhar sempre do ponto onde está para a frente. Quando muito, olhar para os lados. Olhar para trás não é bom. É melhor sempre viver com intensidade as glórias e a honradez do presente. Tenha orgulho da riqueza do presente. Por mais que a sua família tenha tradição de possuir um patrimônio sólido que se transmitiu de geração em geração, é bom não cavar muito fundo, nem procurar a origem da fortuna. Se buscar, vai chegar no ponto em que tem coisa complicada. Muita dedicação à família pode ser o desejo de apagar um passado sem família. Excesso de fé é a marca das pessoas que já pecaram muito. Sou uma mulher religiosa, gosto de estudar a história da Igreja e nunca esqueço como foi a vida de Santo Agostinho. Rigidez moral serve para apagar as manchas de um passado sem boa reputação. Minha querida Carla: nunca vou contar tudo a você e as suas irmãs. Eu acabei de fundar a família. Você, suas irmãs e as próximas gerações devem viver com muita honra, com muita dignidade, daqui pra frente – concluiu Sônia.

 

Carla foi chamada pelos colegas médicos que acabaram de se graduar para mais uma fotografia agora, no hall do salão de festas. Sônia retomou os seus pensamentos, as suas lembranças, Aqueles eram pensamentos ora doces, ora amargos. Finalmente a sua filha era médica, como ele tanto sonhou. Aquilo evocava momentos alegres e também outros muito tristes.   

Sônia lembrou do quanto as traquinagens de Carla lhe criaram muitos problemas durante os três anos nos quais a moça frequentou a Maison do Internato do Colégio das Damas da Instrução Cristã. A sua condição de mãe lhe impunha atender frequentemente as convocações feitas pelas irmãs da Maison para ouvir queixas e tentar colocar freios na filha, estudante inquieta.

Carla liderava o grupo das moças mais assanhadas que sempre tentavam escapar da vigilância das freiras da Congregação das Damas da Instrução Cristã. Sempre em busca de rapazes para namorar ou dando vazão ao fervilhar dos hormônios, de diferentes formas.

No internato, exclusivamente feminino, era comum que Carla descobrisse recantos onde ela e as suas amigas mais próximas se livrassem da blusa do uniforme, da chemise e do sutiã e em prática de top less se reunissem para fazer coletivamente a leitura dos livros considerados proibidos pelas normas da instituição escolar. Isto era o mínimo. Carla adorava exibir suas vastas tetas, principalmente diante das colegas de peitos pequenos.

Sem falar de situações nas quais ela foi flagrada por alguma das freiras enquanto se masturbava no banheiro ou no dormitório usando como estímulo uma das velas mais grossas que havia subtraído da sacristia da capela da Maison. Carla e o seu grupo se viciara no uso daquele instrumento de prazer atípico.

Nada disto, porém, impediu que Carla concluísse o terceiro ano do curso científico com muito brilho, sendo escolhida oradora da turma na festa de colação de grau. Na festa de conclusão do curso, mamãe Sônia estava orgulhosa, na primeira fila do auditório, afagando e homenageando a sua cria.

Por tais razões, não surpreendeu ninguém, no mês de fevereiro de 1968, a divulgação da lista dos candidatos aprovados para a Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Pernambuco. Carla figurava na segunda colocação dentre os 20 selecionados, dos quais apenas seis eram do sexo feminino.

No curso de Medicina, a cada ano, se destacou como a aluna mais aplicada e angariou a admiração de colegas e professores. A sua dedicação aos estudos, todavia, não diminuiu em nada o seu entusiasmo pelos homens e pela fornicação. Namorou e levou para a sua cama colegas estudantes e também professores, pouco importando se casados ou solteiros, se mais jovens ou mais velhos que ela.

Cada estágio que fez, cada lugar onde começou a trabalhar ainda na condição de estudante serviu para disseminar a sua reputação de boa médica. No último ano do curso, estava definida: colou grau em dezembro de 1973 já matriculada na Residência Médica em Cirurgia, no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo – USP.

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