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GRACCHO CARDOSO, ARCHIMEDES GUIMARÃES E ANÍSIO TEIXEIRA

                                                 Maurício Graccho Cardoso
 

 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

Em outubro deste ano de 2026 celebraremos os 100 anos do fim do governo de Maurício Graccho Cardoso. Até agora, a memória de Maurício Graccho Cardoso é presente entre os sergipanos. Todavia, os que se dedicam a pesquisar história ainda são devedores de estudos mais aprofundados sobre o seu governo, não obstante haver uma variedade de estudos nos quais esse político sergipano é presença forte.

Todavia, creio que pe necessário estudar questões específicas. Uma delas é a importância das instituições intelectuais que foram criadas em Sergipe entre 1922 e 1926. Especialmente é fundamental estudar a diversidade dos intelectuais que Graccho mandou buscar em outros estados para auxiliá-lo na sua gestão inovadora.

A mim, um deles, particularmente, chama a atenção. Por inúmeras razões. Afinal, quando chegou a Sergipe, Archimedes foi convidado por Graccho Cardoso a morar na residência oficial do presidente do estado, o Palácio Olympio Campos.

O professor Archimedes Pereira Guimarães nasceu na cidade de Campinas, no estado de São Paulo, e mudou para a capital quando ingressou no Ginásio Macedo Soares. Em 1912 estava matriculado como aluno do curso de engenharia da Escola Politécnica. O estudante colou grau, em 17 de dezembro de 1917.

Interessado em política, ele presidiu o grêmio da Escola Politécnica, o que lhe possibilitou ampliar a rede de contatos, incluindo líderes políticos como Washington Luiz Rodrigues Alves, Prudente de Morais, Campos Sales, Francisco de Paula Souza, Rui Barbosa, Wenceslau Braz Heitor Penteado e Júlio Prestes.

Logo depois da sua colação de grau, Archimedes conheceu o sergipano Maurício Graccho Cardoso. Ambos foram professores da Escola Agrícola de Niterói. Um ano depois Archimedes viajou para os Estados Unidos da América, onde fez curso de especialização em Química, trabalhando com a Madame Curie. Archimedes voltou ao Brasil e no início dos anos 20 estava trabalhando na Bahia, como professor da Escola Politécnica.

Em 24 de outubro de 1922, Maurício Graccho Cardoso foi empossado como presidente do estado de Sergipe, cargo à época equivalente ao de governador. Convidou o seu amigo Archimedes para trabalhar em Aracaju e ajuda-lo a criar o Instituto de Química Industrial, hoje Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe - ITPS.

No dia sete de setembro de 1923, Graccho Cardoso e Archimedes Guimarães inauguraram o Instituto de Química Industrial. Era uma instituição de apoio à indústria que realizava análises técnicas de solos, matérias primas e produtos agrícolas como o açúcar e o algodão.

Era também uma instituição de ensino superior, na qual se pretendeu implantar uma escola superior de Química que não prosperou por falta de alunos interessados. No início do século XX as famílias da elite sergipana consideravam que a Química não era uma área de conhecimento que merecesse destaque e oferecesse dignidade aos seus diplomados.

Em 1924, Archimedes considerou cumprida a sua missão em Sergipe, pediu exoneração do cargo de diretor do Instituto de Química Industrial de Sergipe e retornou para Salvador, onde era professor da prestada Escola Politécnica baiana.

Em 1924, aos 23 anos de idade, Anísio Teixeira aceitou o convite do governador Goes Calmon e assumiu o cargo de inspetor geral de ensino da Bahia. O cargo era equivalente ao de diretor da instrução pública ou, se quisermos utilizar a designação contemporânea, secretário da educação.

 Em 1925, Anísio convidou o seu amigo Archimedes Pereira Guimarães para trabalhar como diretor do ensino primário e profissional e também acumular a direção da Escola Agrícola do Estado. Anísio mostrou a Archimedes a necessidade de regularizar a situação da Escola Agrícola de ensino superior, para depois disseminar pelo Estado uma rede de escolas agrícolas de nível médio.

Anísio Teixeira proporcionou a Archimedes, em 1928, uma viagem de estudos a São Paulo, a fim de fazer uma série de visitas pedagógicas a instituições do ensino público, conhecer as reformas educacionais e os mais importantes intelectuais da educação paulistas. Na mesma viagem, Archimedes visitou a sua família. Seus pais e irmãos à época viviam em Santos.

Ele percorreu grupos escolares santistas, especialmente o “Cesário Bastos”, no qual se diplomara em 1904. Em companhia do inspetor Primo Ferreira e do professor Armando Bellegarde, diretor do estabelecimento, por duas vezes esteve na instituição.

Ali conheceu e ficou entusiasmado com o método analítico aplicado ao ensino de todas as matérias e assistiu a demonstração de exercícios de ginástica. Nos demais grupos escolares e na Escola Normal Livre “José Bonifácio” colheu material a respeito dos métodos de ensino e da formação de professores. Na mesma Escola Normal Livre esteve presente em uma aula de Didática, ministrada pelo professor Nicanor Ortiz, e a uma aula de Música.

Na cidade de São Paulo, Archimedes Guimarães entrou em contacto com Amadeu Mendes, que o acompanhou em visita a diversos pontos, dentre os quais o Parque do Estado e a Diretoria de Indústria Animal. Acompanhado pelo inspetor do ensino José Ferraz de Campos esteve visitando as escolas rurais do Butantã, o Grupo Escolar “Rodrigues Alves” e o Jardim da Infância.

Com Amadeu Mendes visitou as duas escolas profissionais da capital: a masculina e a feminina. Archimedes Guimarães foi recebido também pelos professores Alduino Estrada, Euzébio de Paula Marcondes, Cymbelino de Freitas e Carlos da Silveira, além do já citado José Ferraz de Campos, que lhe explicaram detalhadamente a reforma do ensino que acontecia em São Paulo.

Além da cidade de Santos e da capital, Archimedes Guimarães visitou também as cidades de São Carlos, Araraquara, Piracicaba e Campinas, tendo elogiado os edifícios escolares que conheceu, principalmente as escolas normais de São Carlos, Piracicaba e Campinas, dirigidas, respectivamente, pelos professores Fausto Lex, Lourival de Queiroz e Geraldo Alves Corrêa. Também demonstrou entusiasmo com as instalações das escolas profissionais de São Carlos e de Campinas, bem como com os edifícios dos grupos escolares das mesmas cidades.

Archimedes Pereira Guimarães percorreu ainda as instalações da Escola Agrícola “Luiz de Queiroz”, em Piracicaba, e o Instituto Agronômico de Campinas, elogiando os gabinetes de Eletrotécnica, Maquinas e Motores e os laboratórios de Química da Escola Politécnica.


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