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HENRIQUE BATISTA, HISTORIADOR DA MEDICINA

                                                Henrique Batista


 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

Desde as últimas décadas do século XX, estudiosos da História como Natalie Davis têm a percepção de que a principal tarefa da História é a de entender o passado, buscar o maior número de evidências e interpreta-las de modo a relaciona-las às questões propostas e ao material levantado.

Historiadores como Maria Lúcia Pallares-Burke nos ensinam que “A história nos serve somente pelas perspectivas que nos abre, pelos pontos de vista que nos descortina... Também nos serve pela sabedoria ou paciência que pode nos dar e pela esperança da mudança com que pode nos confortar” (PALLARES-BURKE, 2000:88).

Entendimentos como o da professora Pallares-Burke são amplamente aceitos por historiadores e por outros estudiosos do campo das humanidades, mas nem sempre encontram eco em estudiosos que possuem sólida formação enraizada em campos como o das ciências da natureza e também das ciências biológicas.

Os historiadores ganharam clareza de há muito que a História não é uma ciência como as outras. É a historicidade que permite incluir no campo dessa ciência os novos objetos, posto que ela – a historicidade – exclui a idealização da história e permite entender os processos vividos pelos homens, a sua moralidade, e lhes dá uma oportunidade de se tornarem corretos não aos nossos olhos, mas sim de serem compreendidos no contexto dos valores da época em que viveram, identifica-los a partir de suas próprias vozes.

É mais importante compreender a todos que dividir o mundo em heróis e vilões. É a exata compreensão de que a História, como disciplina científica, é aquilo que os historiadores trazem para ela, a estreiteza dos seus pressupostos, a extensão das suas referências culturais. É a ele, historiador, que cabe mostrar o quanto as coisas são bem mais complicadas do que a aparência que possuem.

Por adotar tais concepções me entusiasma encontrar estudiosos do campo das ciências biológicas que se desgrudam das suas certezas científicas para assumir a aventura da história. No campo das ciências médicas em Sergipe, particularmente dois intelectuais me entusiasmam por se debruçarem sobre a história.

Os médicos Antônio Samarone de Santana e Henrique Batista são, sob a minha ótica, os mais importantes historiadores da Medicina entre nós. De Henrique recebi o generoso convite para prefaciar a segunda edição da sua História da Medicina em Sergipe.

Aceitei o convite e ao me debruçar sobre a nova edição, revista e ampliada, fiquei bem impressionado com o amadurecimento de Henrique em seus estudos a respeito da história. O modo como ele produziu essa nova edição é efetivamente envolvente.    

Como os bons historiadores, Henrique opera como intérprete, tradutor do passado da Medicina em Sergipe, enfrentando o dilema que todos os tradutores enfrentam: a necessidade de ser fiel ao texto original e ao mesmo tempo inteligível àqueles aos quais fala.

Esse tipo de posição tem levado vários historiadores, nas últimas décadas a serem acusados de demasiadamente ecléticos. Segundo Peter Burke, “os puristas, marxistas dogmáticos, por exemplo, denunciam os fazedores de coquetel (como Carlo Ginzburg, Keith Thomas, Natalie Davis e eu) como ecléticos. É irônico, não é? Porque Marx era, ele próprio, um eclético nesse sentido. Ele construiu sua teoria com os elementos de Hegel, Adam Smith e outros, do mesmo modo que Norbert Elias construiu sua teoria do processo civilizatório com fragmentos de Freud e Weber. Mas eles foram cuidadosos, tentando manter coerência e consistência, pelo menos na maior parte do tempo” (PALLARES-BURKE, 2000:209).

Nesta segunda edição do trabalho de Henrique Batista, o autor soube tratar o problema do método na pesquisa histórica, questão particularmente importante nos tempos atuais, principalmente no caso da historiografia de campos especializados como a Medicina.

Henrique opera assumindo o entendimento fortemente aceito atualmente de que nós somente descobrimos nosso método ao longo da pesquisa, em vez de começarmos com ele do início. Assumiu acertadamente a possibilidade de ser objeto de críticas por parte de muitos historiadores que adotam posições mais ortodoxas.

O entendimento de que a descoberta do método se dá no processo da pesquisa, contudo, não significa que deixe de haver método ou critério para se escolher um caminho em vez de outro. Henrique conseguiu fugir da armadilha posta para muitos pesquisadores brasileiros que são laçados pela preocupação demasiada com a questão do método.

Entre historiadores ingleses, por exemplo, a discussão acerca de método não tem o destaque que possui no Brasil. Nunca é demais repetir que essa excessiva preocupação leva as dissertações de mestrado e teses de doutorado brasileiras a consumir parte significativa de suas páginas privilegiando a discussão de cansativos prólogos carentes de dados, enquanto gastam-se poucas páginas para apresentar os dados sustentadores das generalizações que fazemos.

Henrique soube se colocar em um grupo de estudiosos da História da Medicina que tem consciência da importância de escrever com clareza e respeito ao leitor, abandonando as frases feitas e buscando utilizar os dados de que dispõe, apresentando-os de maneira direta.

Em outras palavras, nesta edição da História da Medicina em Sergipe, o ato de escrever está relacionado ao ato de comunicar algo a alguém. Henrique Batista reconhece o público que lê. Cuidadoso, demonstra saber do seu compromisso de revelar que a História da Medicina é muito mais que apenas um discurso, uma representação.

Henrique busca saber do objeto do seu estudo, sempre presente na sua construção discursiva. Contudo, independentemente das representações, das aproximações possíveis, em seu trabalho as evidências ocupam espaço no palco principal. No trabalho de Henrique, as representações, as construções são na verdade elementos interpretativos adotados pelo autor.

A leitura desta nova edição da História da Medicina em Sergipe é a oportunidade de compreender um importante objeto da história. Isso significa incorporá-lo do modo mais amplo possível, no sentido de história cultural, de história social. Henrique Batista nos ensina a compreender a História da Medicina não apenas como objeto de erudição, mas nos auxilia na compreensão de como ela, a Medicina, influencia a vida das pessoas em todos os grupos sociais.

 

 

Referência Bibliográfica

PALLARES-BURKE, Maria Lúcia Garcia. As muitas faces da história. Nove entrevistas. São Paulo, Editora UNESP, 2000.
 

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