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O CRIME DA SERRA

 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

Eram nove horas da manhã do dia 14 de julho de 1984. Rotarianos, dirigentes do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia - IGHB, dirigentes e professores da Associação Cultural Brasil-Estados Unidos - ACBEU, colegas e ex-alunos da Universidade Federal da Bahia - UFBA estavam reunidos em Salvador, na Igreja da Vitória, acompanhando a missa rezada em homenagem ao professor emérito da Escola Politécnica, da Faculdade de Filosofia e da Escola Agronômica da UFBA, Archimedes Pereira Guimarães.

O homenageado passara a maior parte da sua vida na capital baiana. A missa deveria celebrar os 90 anos do nascimento de Archimedes. Mas, as orações eram motivadas pelo sétimo dia da sua morte. O celebrante, monsenhor Gaspar Sadoc, fez uma prédica em torno do Evangelho de São Marcos que trata dos últimos momentos de Cristo no Calvário. Estabeleceu um paralelo com os últimos instantes da vida de Archimedes, dizendo que o destino final dos mártires é o bom e permanente remanso no reino de Deus.

O fato é que todos estavam ainda impactados pelos tiros disparados no casarão. O crime repercutiu em todo o país, principalmente em Minas Gerais, na Bahia, em Sergipe, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Archimedes, viúvo desde 1981, morava no bairro da Serra, em Belo Horizonte, à rua Estevão Pinto, 920, com sua filha Eloísa Selmi Dei Guimarães.

Todavia, ele morreu ao lado de outra filha: Mafalda Guimarães Corrieri, 52 anos de idade, moradora do mesmo bairro, à rua Dona Cecília, 64 apartamento 101. Ela chegou à casa do pai, na manhã do dia sete de julho, dirigindo o seu Fiat 147 azul, acompanhada da neta, Ana Carolina, de um ano e seis meses de idade, filha de Priscila, a sua primogênita.

Mafalda pretendia sair com Archimedes para escolher os salgados que seriam consumidos no dia 14 de julho e logo depois leva-lo ao Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais - IHGMG, onde ele participaria de uma reunião às 10 horas. Após a festa do dia 14, Mafalda iria tirar férias por 30 dias, com o marido e os filhos, no Rio de Janeiro.

Aquela fria manhã do dia sete de julho ficaria definitivamente marcada pela tragédia. O professor de 1,65 metros de altura e olhos castanhos, como sempre havia acordado cedo e, vaidoso que era, somente saiu do seu quarto depois de arrumar os cabelos grisalhos e lisos, raspar a barba e o bigode, vestir uma calça de casemira marrom, uma camiseta de malha branca sob uma camisa de tergal verde, um par de meias de espuma de cor verde e um paletó de lã verde escuro. Na noite do dia sete, Archimedes viajaria para Salvador, onde seria homenageado em comemoração aos seus 90 anos de idade.

Mafalda saíra do seu apartamento às sete horas e 50 minutos, vestida numa saia de cor clara e numa blusa de linha estampada nas cores bege, marrom, azul e verde e passou na casa de Priscila, de onde telefonou para a irmã, Iolanda e pediu que a filha desta ligasse para o engenheiro informando que estava já de passagem pela sua residência e recomendasse aguarda-la na calçada.

Quando chegou à casa do pai, estranhou que ele não estivesse à porta esperando por ela. Pontual e cumpridor de horários, este era o comportamento habitual de Archimedes. Deixou a neta Ana Carolina no interior do carro e foi buscar o pai.

O corpo de Archimedes jazia no seu quarto, abatido por nove tiros, caído em decúbito ventral, apresentando três ferimentos nas costas, do lado esquerdo, um na cabeça, do mesmo lado, e um no lado direito do tórax. Sete balas, disparadas pelas suas costas, ficaram alojadas no cadáver, enquanto outras duas o transfixaram.

Uma das balas o atingiu no braço esquerdo e outra na região glútea direita, que atingiu o osso ilíaco direito, chegando ao abdômen e provocando uma hemorragia abdominal. O rim direito foi lesado por uma bala que se alojou na primeira vértebra lombar direita.

Um outro projétil lesou o pulmão direito, enquanto o pulmão esquerdo foi atingido por mais uma bala. A morte se deu por hemotórax e hemoperitôneo subseqüentes a transfixação do tórax e do abdome. Ele fora assassinado algumas horas antes de Mafalda chegar ao casarão e ser recebida por uma saraivada de balas.

Três dos seis projéteis que atingiram Mafalda continuaram no seu corpo inerte, caído no interior da sala, em decúbito lateral esquerdo, à esquerda da entrada da casa. Cinco tiros atingiram as suas costas e um foi disparado contra o seu tórax, todas as balas saídas de uma única arma calibre 22.

As balas perfuraram a região infra-escapular esquerda, a parte superior do seu ombro direito e a região infra-escapular direita, a região lombar esquerda, a supra-escapular direita e o ombro esquerdo. Uma das balas atingiu o seu pulmão direito, uma outra causou tamponamento cardíaco.

O pulmão esquerdo também foi atingido por um outro projétil. A causa mortis registrada na certidão de óbito foi tamponamento cardíaco e hemotórax. Ela e o pai foram sepultados no mesmo mausoléu, no Cemitério do Bonfim.

O autor dos disparos era experiente no manejo de armas de fogo, pois recarregou o revólver, depois de atirar contra Archimedes. No casarão, o delegado Benigno Augusto da Costa, chefe da Divisão de Crimes Contra a Vida, não encontrou a arma e muito menos qualquer sinal indicador de que ali houvera um roubo.

Tudo estava em ordem e ninguém percebeu o sumiço de qualquer objeto de valor. O revólver marca Rossi, com número de série 673.918, niquelado e com cabo revestido por material plástico, somente foi encontrado no dia 27 de agosto, por um menino que limpava o quintal do casarão, 50 dias após o crime, enterrado nos fundos do quintal. A arma, enterrada nas proximidades de uma goiabeira, tinha quatro cápsulas deflagradas e três intactas. Ao lado da arma havia uma caixa de papelão contendo 11 balas intactas e 10 cápsulas deflagradas.

Quem fez os disparos contra Archimedes e Mafalda, atirou também contra a porta do quarto da empregada da família, que não se encontrava em casa naquele dia. Foram quatro tiros disparados de fora para dentro que perfuraram a porta.

Maria das Graças Vicente de Souza, a empregada, trabalhava somente dois dias por semana, das 16 às 22 horas, e na ocasião da tragédia não estava presente. Ela prestava serviços à família desde 1978. Iniciara trabalhando durante três dias por semana e, logo após a morte da mulher do professor ela passou a cuidar da casa apenas duas vezes por semana.

Mafalda, a quarta das cinco filhas de Archimedes Pereira Guimarães, tinha 1 metro e 75 centímetros de altura, cabelos e olhos castanhos, era casada com Luiz Paulo Corrieri, um mineiro nascido em 1927, e mãe de Priscila Guimarães Corrieri Gomide, Eliana Guimarães Corrieri e Ana Maria Guimarães Corrieri. Priscila, a primogênita, geógrafa formada pela Universidade Federal de Minas Gerais, nasceu em fevereiro de 1954. A estudante Eliana era nascida em maio de 1962.

 

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