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PARA ONDE VAI O MUSEU DA GENTE SERGIPANA?

                                                Ézio Déda


 

 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

É possível afirmar que aos 50 anos de idade que completou no último mês de outubro de 2025, o arquiteto Ézio Déda é, sem nenhuma dúvida, o nome mais importante da arquitetura sergipana quando se discute temas como restauração de edifícios históricos, da paisagem urbana e da expografia museal que incorpora a tecnologia multimídia. Em tal área ele é um dos mais importantes não apenas em Sergipe, mas no Brasil.

Ézio Déda firmou definitivamente o seu trabalho nesse campo em 26 de novembro de 2011, quando se inaugurou em Aracaju o Museu da Gente Sergipana Governador Marcelo Déda, após a restauração do edifício no qual funcionou o Atheneu Pedro II, inaugurado em 1926 por Maurício Graccho Cardoso, então presidente do estado de Sergipe.

Hoje tomei conhecimento que o arquiteto Ézio Déda está deixando o cargo de Diretor Superintendente do Instituto Banese e de diretor geral do Museu da Gente Sergipana, no mesmo ano em que o edifício do velho Atheneu Pedro II completa 100 anos de inaugurado.

Confesso que a informação me deixou muito preocupado. Afinal, o Museu da Gente Sergipana é um marco da maior importância para a cultura do estado de Sergipe. Ézio é não apenas o Diretor do Museu e Superintendente do Instituto Banese, mantenedor da instituição museal. Na verdade, Ézio é a energia vital que anima a instituição e a sua tecnologia.

Vale destacar que ao lançar o seu olhar sobre aquele edifício histórico e propor ao então governador de Sergipe, Marcelo Déda, a criação do Museu, Ézio deu um passo extraordinário para a valorização do conceito de sergipanidade, colocando-se ao lado de grandes nomes extraordinários como o inesquecível escritor Luiz Antônio Barreto.

A restauração do edifício Atheneu Pedro II, à época, custou 22 milhões de reais e, além do Instituto Banese, entusiasmou também a Fundação Roberto Marinho. O projeto de Ézio deu ao conceito de sergipanidade um rosto moderno e tecnológico, modificando definitivamente o eixo turístico e cultural da avenida Ivo do Prado.

É hora de pergunta a respeito do futuro do Museu da Gente Sergipana sem Ézio Déda. Afinal de contas, o Museu é a imagem e semelhança das ideias do arquiteto sobre a cultura sergipana. Membro da Academia Sergipana de Letras, Ézio já consolidou sua posição não apenas como arquiteto que exerce uma função técnica. Mais do que isto, ele é um pensador da cultura e da identidade sergipana que sabe unir literatura, arte e história.

Ao tomar conhecimento da saída de Ézio Déda da Superintendência do Instituto e da direção do Museu, resolvi telefonar para o amigo, na manhã deste sábado. Ele me explicou que estava na casa que mantém na sua cidade natal, Simão Dias, mas não se furtou a conversar e oferecer todas as informações que solicitei.

Esclareceu que desde a posse do governador Fábio Mitidieri expôs a sua pretensão de se afastar da direção do Instituto Banese e do Museu. De acordo com Ézio, cresceu a quantidade de contratos que o seu escritório de arquitetura tem firmado para conceber e executar projetos em outros estados. Isto impõe um investimento elevado em horas dedicadas ao estudo para conceber propostas e a execução e supervisão dos projetos que imp0lanta.

O Ágora, escritório de arquitetura liderado por Ézio, mantém atualmente projetos em diferentes estados das regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste, além daqueles que toca em Aracaju e em outros municípios do estado de Sergipe. Ézio afirma que permaneceu até agora à frente do Museu, atendendo a demanda do governador de Sergipe, de quem é também amigo.

 Ouvi atentamente as explicações de Ézio Déda e lembrei daquilo que ele chama de Arqueologia do Afeto, conceito central que utiliza para descrever a sua prática. Para ele, restaurar um prédio ou criar um museu não é apenas uma ação física, mas a busca por memórias afetivas.

O Museu da Gente Sergipana é, com toda certeza, uma grande demonstração prática dessa Arqueologia do Afeto. Ali, Ézio utiliza a tecnologia para dar voz a pessoas comuns, como repentistas, cozinheiras, artesãos, operários, transformando o patrimônio material num repositório de emoções.

Passaram-se 17 anos desde que Ézio e o governador Marcelo Déda fizeram as primeiras discussões acerca da restauração do edifício Atheneu Pedro II. Agora, o edifício completa 100 anos como um ícone da museologia sergipana. Em frente ao Museu da Gente Sergipana se ergueu o maior monumento a homenagear a cultura popular dos sergipanos, através dos folguedos do seu folclore com a estatuária do Largo da Gente Sergipana.

Ainda chocado com a notícia do afastamento de Ézio Déda, perguntei aos meus botões: Para onde vai o Museu da Gente Sergipana depois dos 17 anos da liderança de Ézio?

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