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SOBRE OS 20 ANOS DE SILÊNCIO E SILENCIAMENTO DO TENENTE ARTHUR

                                                    Tenente Arthur Carvalho


 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

Em 2006, o dia 28 de abril foi uma sexta-feira. Por volta do meio dia, uma informação alvoroçou o noticiário das emissoras de rádio e da TV e no dia seguinte estava em todos os jornais da imprensa do estado do Espírito Santo. O primeiro tenente Arthur Felipe de Carvalho Julião supostamente se suicidara aos 26 anos de idade, no quartel do 38º Batalhão de Infantaria do Exército, em Vila Velha.

A família, os amigos e inúmeros companheiros de caserna e a própria imprensa, desde o primeiro momento, duvidaram da versão que dava conta da morte do tenente Arthur por suicídio. Hoje é o dia no qual a morte do tenente Arthur completa 20 anos sem que sua família tenha efetivamente certeza da causa.

Há muitos fatos contraditórios e nebulosos que envolvem a morte do tenente Arthur. Naquele 28 de abril de 2006, por volta das oito horas da manhã, como é rotina nas organizações militares, a tropa estava formada para o hasteamento da bandeira e a leitura da ordem do dia. Os militares do 38º BI se preparavam também para marchar pela cidade, num exercício de rotina.

Durante a formatura, o telefone celular do tenente Arthur tocou e ele saiu de forma, tomando o rumo do alojamento dos oficiais. A tropa seguiu para a marcha sem ele. Por volta das 10 horas, os que ficaram no quartel ouviram o estampido de um tiro.

Arthur morreu com um tiro na testa e o seu corpo foi encontrado no banheiro sobre a pistola 9 milímetros que ele costumava usar em serviço. Também um lenço cinza no qual ele deixou uma mensagem aos familiares e amigos: “Me desculpem por tudo”. Não obstante o relatório militar haver concluído pelo suicídio com um tiro de pistola na testa, o laudo do Instituto Médico Legal diz não haver encontrado qualquer vestígio de pólvora nas mãos e nos dedos do morto.

Nascido em São Paulo, Arthur descendia de uma família de sergipanos, originária do município de Macambira. Era meu primo em segundo grau. Seu avô, Ozeas Carvalho, era irmão da minha avó, Petrina Carvalho. O tio Ozeas migrou ainda jovem para Minas Gerais e ingressou nos quadros da Companhia Vale do Rio Doce, trabalhando na estrada de ferro Vitória-Minas. Sua mãe, Ana Romualda, durante a adolescência morou em Aracaju, na casa da minha avó Petrina, a fim de cursar a escola normal no Instituto de Educação Rui Barbosa.

Onze meses depois da morte de Arthur, em 28 de março de 2007, a revista semanal ISTO É publicou uma longa reportagem sob o título de “Morte na Caserna” (páginas 52-54), onde questionou a conclusão do inquérito policial militar segundo a qual o tenente cometera suicídio.

À época, o próprio Ministério Público Militar havia levantado a hipótese de ter havido um assassinato no quartel, uma vez que Arthur era do quadro de intendentes e exercia no 38º BI a função de tesoureiro. A revista admitiu a hipótese de que poderia ter havido aquilo que no jargão policial se costuma chamar de “queima de arquivo”. Para alguns, o tenente Arthur sabia demais.

A tesouraria do 38º BI lidava com um volume de recursos significativos e Arthur era extremamente zeloso na sua gestão. Estudioso e aplicado, aos 17 anos de idade fora aprovado no concurso vestibular da Universidade Federal do Espírito Santo para o curso de engenharia de sistemas. Declinou da matrícula porque no mesmo ano foi aprovado no exame de seleção para cursar a Academia Militar das Agulhas Negras – AMAN.

Bom aluno no curso de formação, no momento adequado optou pela intendência. Serviu inicialmente em Campo Grande e depois conseguiu uma remoção para Vila Velha, onde vivia a sua família. Chegou ao seu novo quartel e foi designado pelo comandante para a função de Tesoureiro.

Para a revista, Arthur pode ter sido morto pelo fato de estar comandando alguns inquéritos que apuravam irregularidades que ele encontrou ao assumir a tesouraria. Muita gente buscou junto a Arthur informações sobre as apurações que ele vinha apurando, mas era notório no quartel que ele mantinha sigilo sobre tais investigações. Teria, assim, perdido a vida por manter silêncio sobre tudo que sabia e por se recusar a fazer pagamentos de importâncias vultosas que considerava irregulares.

Rodrigo Rangel, o jornalista que assina a reportagem da revista ISTO É, afirmou: “O inquérito puxou o fio da meada de uma série de irregularidades no batalhão que poderiam resultar em graves punições para colegas de patentes inferiores e superiores”.

As apurações de Arthur mobilizaram oficiais em Vila Velha e também no Rio de Janeiro, onde fica o Comando Militar do Leste, ao qual o 38º BI está subordinado. Do mesmo modo, Arthur mobilizou outros oficiais em Brasília, sede do comando geral do Exército.

Rodrigo Rangel teve acesso aos autos que tramitavam em segredo de justiça. “São três volumes principais, mais 94 anexos, com documentos que atestam deslizes financeiros e administrativos do quase sempre hermético universo militar”.

Segundo Rodrigo Rangel, o fato de maior importância dentre os tantos que envolvem o silêncio e o silenciamento do tenente Arthur Carvalho diz respeito a uma dívida milionária do 38º BI com o Hospital Santa Mônica que prestava serviços ao quartel. Arthur se recusara a pagar uma fatura de serviços que foram prestados sem licitação no valor de dois milhões e 200 mil reais.

Hoje, quando chegamos ao vigésimo ano da morte do tenente Arthur Felipe de Carvalho Julião, é possível afirmar que tais fatos se não foram completamente esquecidos estão passando por um processo de apagamento que distância tudo isto da memória das pessoas. Não podemos esquecer das consequências do silêncio de Arthur e muito menos comungar com o silenciamento que se produziu a respeito dele.

É o mínimo a ser feito pela memória de um oficial militar que se recusou a agir ao arrepio da lei.

 

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