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EU E MARTA NA BATALHA DAS IDEIAS

 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

A semana se inicia com uma notícia que entristece o mundo dos intelectuais da educação em Sergipe e no Brasil. No final da noite desta segunda-feira recebi mensagem da amiga Iara Campelo, ex-vice-reitora da Universidade Federal de Sergipe, me informando da morte da professora Marta Vieira Cruz, doutora aposentada da instituição desde o início do século XXI.

Marta deixou marcas muito importantes pela sua atuação como professora e pesquisadora da Universidade Federal de Sergipe que exerceu importante liderança acadêmica na instituição durante as décadas de 80 e 90 do século XX. Nas décadas de 70 e início dos anos 80 também foi uma importante técnica do ensino de primeiro e segundo graus, com forte atuação na Secretaria da Educação do Estado de Sergipe.

Nascida no início dos anos 40 do século XX, Marta morreu com cerca de 80 anos de idade, depois de passar os últimos anos convalescendo de algumas enfermidades. Era filha de um dos mais importantes dentre os intelectuais da educação em Sergipe, o professor Acrísio Cruz. Maria do Carmo Vieira Cruz foi a sua mãe. Acrísio Cruz integrou o corpo docente do Atheneu e da Escola Normal de Sergipe e foi diretor da instrução pública sergipana nos anos 40, tendo também conquistado uma cadeira de deputado estadual na Assembleia Legislativa sergipana.

Sua irmã, Maria Luiza Cruz, era jornalista, colunista social e procuradora do Ministério Público estadual. Marta foi casada com o advogado Aerton Menezes Silva. Do casamento nasceu uma filha, também advogada como o pai, Isabella Cruz Silva. Marta era bacharela em Letras Vernáculas pela Universidade Federal de Sergipe, mestre em Ciências Sociais Aplicadas à Educação pela Universidade Federal de Minas Gerais e doutora em Filosofia e História da Educação pela Pontifícia Universidade Católica - PUC de São Paulo.

Tendo ingressado na UFS como docente do curso de Pedagogia, em 1973, Marta foi figura fundamental para consolidação dos estudos nos campos da Sociologia, Filosofia e História da Educação na UFS, ajudando a organizar a pesquisa acadêmica na área.

Ao lado da professora Nádia Fraga Villas-Boas, Marta foi uma das fundadoras do Núcleo de Pesquisa Sociedade e Educação da Universidade Federal de Sergipe e vinculou a instituição nacionalmente ao Grupo de Estudos e Pesquisas História, Sociedade e Educação no Brasil – HISTEDBR, sediado na Universidade Estadual de Campinas sob a liderança do pesquisador Dermeval Saviani. Com o seu trabalho no HISTEDBR, Marta influenciou muitos pesquisadores da UFS, dentre os quais destaco as doutoras Dilma Maria Andrade e Rosângela Marques dos Santos. Dilma e Rosângela legaram importantes contribuições aos estudos da História da Educação em Sergipe.

Entre 1997 e 1999, Marta foi coordenadora do Núcleo de Pós-Graduação em Educação – NPGED da Universidade Federal de Sergipe, ao lado da professora Wilma Porto de Prior, criando as condições que posteriormente permitiram o funcionamento dos cursos de Mestrado e Doutorado em educação da UFS.

Na década de 1970, trabalhou na Secretaria da Educação do Estado e coordenou o Projeto Minerva, programa de radiodifusão que utilizava estudantes de Pedagogia como monitores e permitiu a expansão do ensino supletivo, tanto em Aracaju como em muitos municípios do interior sergipano.

Na Universidade Federal de Sergipe chamo a atenção para a importância que teve Marta na criação do Departamento de Ciências Sociais, trabalhando ao lado de docentes como Beatriz Góis Dantas e Joelina Souza Menezes.

Conheci Marta em 1975, quando comecei a trabalhar na Secretaria da Educação do Estado de Sergipe. Com ele aprendi muito e sob a sua influência fiz muitas leituras. Voltamos a conviver mais intensamente quando eu estava na PUC de São Paulo fazendo mestrado em Educação e Marta estava concluindo a sua tese de doutoramento.

À época, ambos éramos entusiastas das teses do marxismo como chave explicativa que orientava os nossos estudos em Educação. Marta retornou a Aracaju antes que eu concluísse o mestrado. Eu regressei dois anos depois, permaneci em Sergipe por mais dois anos e em seguida me licenciei dos meus vínculos de trabalho por aqui para assumir reponsabilidades profissionais com a Universidade Estadual de Maringá, no Paraná.

Reencontrei Marta na segunda metade dos anos 90, a última década do século XX. Marta continuava entusiasta das teses do marxismo como chave explicativa dos fenômenos educacionais. Eu estava regressando do doutorado em História da Educação e da bolsa sanduiche que cumpri na Universidade de Frankfurt, entusiasmado com as teses da Nova História Cultural e de outras tendências da História e da Sociologia que me levaram a estudar teóricos como Roger Chartier, Robert Darnton, Norbert Elias, Natalie Davis, François Dosse, José Murilo de Carvalho, Fernand Braudel e muitos outros.

Marta era crítica das novas teses que me entusiasmavam. Reconheço que ambos tínhamos a personalidade forte. Em tais casos, o consenso se torna algo distante. Estávamos distanciados teoricamente e a batalha das ideias que travamos nos distanciou muito mais, inclusive pessoalmente. Recusávamos mutuamente as posições um do outro. Disputamos palmo a palmo as cidadelas acadêmicas.

Alguns anos depois, Marta já aposentada e eu já mais maduro, voltamos a dialogar respeitosamente e distensionamos os nossos posicionamentos, ensarilhando as armas. Tenho, em relação a professora que parte um profundo sentimento de gratidão em face do muito que tive a oportunidade de aprender com ela. A querida amiga marcou a geração que antecedeu a minha e posso dizer que também influenciou muito os meus contemporâneos. Ficam as saudades e o legado do seu trabalho.

 

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