Jorge
Carvalho do Nascimento
O
Campeonato Mundial de Futebol 2026 finalmente chega ao fim. Na contramão de
quem vê o certame como um grande sucesso que democraticamente oportunizou a 48 países
disputar o torneio, eu imagino que a história marcará esta como a Copa da
Vergonha. Um campeonato no qual a arrogância, o oportunismo e a velhacaria
política interferiram em decisões que deveriam refletir única e exclusivamente
o desempenho dos atletas nos estádios durante os jogos. Pouco importa se tais
interferências influenciaram ou não o resultado das disputas.
Desde
a bajulação do presidente da FIFA, Gianni Infantino, tentando agradar o
arrogante presidente norte-americano, Donald Trump, até as hostilidades
praticadas pelo governo dos Estados Unidos contra equipes que não eram do seu
agrado, nada ficará no esquecimento.
Desde
a referência ao caso do atleta Folarin Balogun que recebeu um cartão vermelho
durante o jogo dos EUA contra a Bósnia até as hostilidades das autoridades de
imigração, tudo será registro da história. Balogun protagonizou um lance de
violência contra Tarik Muharemovic e foi expulso de campo pelo árbitro
brasileiro Raphael Claus.
Insatisfeito
com a expulsão do atleta do seu país, Trump deu uma carteirada ligando para
Infantino e imediatamente o Comitê Disciplinar da FIFA liberou o jogador
norte-americano para atuar na partida seguinte contra a Bélgica. Uma vergonha.
Ainda bem que os deuses do futebol não abonaram a patriotada de Trump e a
Bélgica derrotou o time do país sede.
Sem
falar nas hostilidades e humilhações às quais foram submetidos cidadãos torcedores,
atletas, equipes técnicas e árbitros de nações como Irã, Haiti, Senegal, Costa
do Marfim, Uzbequistão e Somália. No caso da Somália, o conceituado árbitro Omar
Artan teve seu visto de entrada recusado pelos agentes de fronteira, mesmo escalado
pela FIFA para apitar algumas partidas.
O
clima estabelecido nesta copa me remeteu, 60 anos depois, a fatos que ocorreram
no futebol do Brasil, a partir de 1966, quando o jovem Afonso Celso Garcia Reis,
o Afonsinho, então com 18 anos de idade, foi aprovado no concurso vestibular da
Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do rio de Janeiro –
UERJ. No mesmo ano ele se profissionalizou como atleta de futebol, meia-armador,
defendendo a camisa do Botafogo de Futebol e Regatas.
Nascido
em Marília, estado de São Paulo, no dia três de setembro de 1947, Afonsinho era
filho de um radiotelegrafista ferroviário e de uma professora primária. Quando
ele tinha nove anos de idade sua família mudou para a cidade de Jaú e por volta
dos 15 anos ele começou a treinar e algumas vezes a jogar como armador do XV de
Jaú, então disputando a segunda divisão do campeonato paulista. Aos 17 anos de
idade foi para o Rio de Janeiro jogar no juvenil do Botafogo, tendo se
profissionalizado na equipe principal um ano e meio depois da sua chegada em
General Severiano.
Afonso
Celso, o jovem estudante de medicina, defendia ideias de esquerda. Não podemos
esquecer que em 1966 o Brasil vivia sob a ditadura que havia derrubado o
governo João Goulart em 1964 e naquele então governava tendo como principal
ferramenta normativa os atos institucionais. Afonsinho estava na luta e possuía
características poucos usuais para atletas de futebol. Cultivava uma vasta e
revolta cabeleira e uma barba abundante. Esse figurino era visto pela direita
que mandava no Brasil como coisa de subversivo.
Afonsinho
costumava participar dos atos da política estudantil e, em 1968, quando a
ditadura matou o estudante Edson Luiz no restaurante Calabouço, no Rio de
Janeiro, ele compareceu ao velório e aos atos de protesto que se seguiram ao
assassinato. Era já um atleta conhecido e sua presença em atos como a chamada
passeata dos 100 mil não poderia passar na penumbra. Os serviços de informação
da ditadura passaram a acompanha-lo.
Ao
longo da sua carreira de jogador, foi atleta do Botafogo, do Vasco da Gama, do
Flamengo e do Fluminense (os quatro grandes do Rio de Janeiro), além do Olaria.
Defendeu ainda as cores do Santos e do Atlético Mineiro. Jogou ao lado de
Garrincha, Pelé, Paulo César Caju, Zanata, Gerson, Jairzinho, Edu, Clodoaldo,
Andrada e Rivelino.
O
médico Afonso Celso colou grau em 1971 e depois de encerrar a sua carreira como
jogador de futebol pelo Fluminense, aos 35 anos, em 1982, dedicou-se
exclusivamente a Medicina, trabalhando no Hospital Pinel, no INSS e em alguns
outros hospitais e clínicas do Rio de Janeiro, além de manter consultório
próprio.
A
sua militância política chamou a atenção da ditadura e interferiu na carreira do
jogador de futebol. O Botafogo tinha Zagalo como treinador. Ex-jogador do time,
Mário Jorge Lobo Zagalo manteve com a ditadura uma relação de subserviência e
bajulação que culminou com a sua contratação como técnico da seleção brasileira
de futebol quando João Saldanha foi dispensado por não acatar a determi8nação
do general Medici para convocar Dario.
A
ditadura puniu o ativismo político do atleta Afonsinho, usando o time do Botafogo,
em face da pressão que sobre ele exerceram o diretor de futebol do clube, Xisto
Toniato, e o seu treinador, Zagalo, que exigiram do jogador cortar o cabelo e
raspar a barba. Como Afonsinho não se submeteu, teve suspenso o pagamento dos
seus salários e ficou sem qualquer escalação por mais de seis meses. Sequer no
banco de reservas havia lugar para ele.
Indignado,
Afonsinho recorreu a Justiça e pela primeira vez na história do Brasil, mesmo
antes da chamada Lei Pelé, conquistou a liberação do seu passe. Foi uma espécie
de primeiro jogador do futebol brasileiro a conseguir a condição de “alforriado”.
A
ditadura cuidou para que Afonsinho, mesmo com o seu talento reconhecido, jamais
tivesse qualquer tipo de convocação para participar das Copas do Mundo de 1970,
74 e 78. Nem Zagalo (1970 e 1974) nem o capitão do Exército Cláudio Coutinho (1978)
acataram qualquer sugestão que incluísse o nome de Afonsinho na lista de
atletas convocados. Sem falar dos dirigentes da delegação de futebol do Brasil
na Copa do Mundo daqueles anos, o brigadeiro Jerônimo Bastos, o coronel Eric
Tinoco Marques e o oficial da Marinha André Richer.
As
perseguições sofridas por Afonsinho foram eternizadas numa canção dedicada ao
atleta pelo seu amigo Gilberto Gil, gravada também em um dos discos da sua
amiga Elis Regina. Meio de Campo fez muito sucesso e com a sutileza da poesia
de Gil retratou uma página triste do futebol brasileiro.

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