Jorge
Carvalho do Nascimento
Augusto
César Leite é muito conhecido como médico-cirurgião e pioneiro da saúde. Todavia,
os estudos acerca da sua atuação política e do seu trabalho como jornalista e professor
estão a requerer mais estudos. Aqui reflito sobre o político e professor.
O
político foi deputado estadual, deputado federal e senador. O professor iniciou
sua carreira no Colégio Atheneu, dirigiu a malograda Escola de Farmácia e
Odontologia fundada por Graccho Cardoso, foi um dos fundadores e primeiro
diretor da Escola de Aprendizes e Artífices, professor da Faculdade de Direito
e um dos fundadores da Faculdade de Medicina.
Conquistou
o mandato de deputado estadual em 1926 e atuou como parlamentar na Assembleia
Legislativa até 1929. A sua eleição ocorreu no mesmo ano em que ele inaugurou o
Hospital de Cirurgia. Lançou mão do seu prestígio político fortalecendo a
infraestrutura hospitalar.
Em
1929 conseguiu se eleger deputado federal. Em 1930, após o golpe de Getúlio
Vargas que resultou na deposição de Washinton Luís, a Câmara Federal foi
fechada com base no decreto 13.398, de 11 de novembro de 1930, e Augusto Leite
viu o seu mandato ser extinto.
Um
ano e meio depois, Vargas estabeleceu um Código Eleitoral. Após vencer os
revoltosos de São Paulo, em 1932, o governo federal colocou em funcionamento os
tribunais eleitorais nos estados. Preparando-se para as eleições, o grupo
conservador de Sergipe, articulado pelo usineiro Gonçalo Rollemberg do Prado,
coronel da Guarda Nacional e proprietário da Usina Pedras, juntamente com o seu
genro, Augusto Leite, fundou em cinco de março de 1933, a União Republicana de
Sergipe. O jornal O ESTADO DE SERGIPE foi criado uma semana antes pelo médico para
servir aos interesses da nova agremiação partidária.
Dentre
os fundadores do partido, além do coronel Gonçalo Prado e de Augusto Leite,
aparecem nomes como Eronides Ferreira de Carvalho, Godofredo Diniz, Arnaldo
Rollemberg Garcez, Sílvio Teixeira, Adroaldo Campos, Alfredo Rollemberg Leite,
Otávio Acioli Sobral e Flávio Menezes do Prado. Lourival Fontes foi
representado por Augusto Leite. O novo partido reunia os quadros da indústria
do açúcar, da pecuária e do comércio, sob a predominância da aristocracia
açucareira, chamada por Gilberto Freyre de “açucarocracia”.
As
eleições para a Assembleia Constituinte Nacional foram realizadas no dia três
de maio de 1933. Com 8.675 votos, Leandro Maciel recebeu o maior número de
sufrágios, seguido por Augusto César Leite que recebeu 6.345 votos.
Em
1935, o Brasil adotou o sistema bicameral e os deputados Leandro Maciel e
Augusto Leite foram escolhidos por voto indireto do parlamento estadual para o
cargo de senador. Em 1937, Getúlio Vargas inaugurou o Estado Novo e extinguiu
os mandatos parlamentares. Augusto Leite decidiu então encerrar a sua carreira
política.
Augusto
César Leite colou grau como médico no final do ano de 1909, no Rio de Janeiro,
e poucos meses depois do seu retorno a Sergipe, em 1910, foi nomeado para o
cargo de diretor da Escola de Aprendizes e Artífices de Sergipe. A escola foi
criada em 1909 pelo presidente da república, Nilo Peçanha, objetivando
habilitar os filhos de famílias pobres na aquisição de hábitos de trabalho. O
entendimento à época vigorante, quando vadiagem era uma contravenção penal, era
o de que pobres eram pobres porque não gostavam de trabalhar. A velha escola
mudou algumas vezes de denominação e atualmente, reunida à antiga Escola
Agrotécnica Federal de São Cristóvão, é denominada Instituto Federal de Sergipe
– IFS.
Apesar
da nomeação de Augusto Leite como primeiro diretor da Escola, em 1910, a
instituição somente abriu suas portas e recebeu matrículas em 1911. Havia uma
rivalidade acentuada entre o presidente da república, Nilo Peçanha, e o
presidente do estado de Sergipe, Rodrigues Dória, o que dificultou o diálogo em
torno da implantação da Escola de Aprendizes Artífices e fez com que a
instituição de ensino somente funcionasse efetivamente em 1911, depois que Hermes
Fonseca assumiu a presidência do país, como sucessor de Peçanha.
Sergipe
foi o último estado a conseguir instalar a sua escola de aprendizes e
artífices. A instituição funcionou provisoriamente no prédio da Delegacia
Fiscal, em frente à Ponte do Imperador. Diante dos muitos entraves que impediam
o funcionamento regular da escola, Augusto Leite adiantou recursos do próprio
bolso para a aquisição do imóvel próprio da instituição, situado na esquina das
ruas Lagarto e Maruim.
Finalmente
a escola foi inaugurada no dia primeiro de maio de 1911. Oferecia o curso
primário, com o ensino obrigatório de desenho geométrico e as oficinas dos
ofícios manuais de Alfaiataria, Sapataria, Selaria e Ferraria. Para inaugurar a
escola, Augusto Leite estruturou o corpo docente, o corpo administrativo e a
divulgação das matrículas junto aos bairros e povoados pobres de Aracaju. Augusto
Leite dirigiu a instituição até 1916.
Ao
deixar o cargo de diretor da Escola de Aprendizes e Artífices, o médico Augusto
césar Leite assumiu a cadeira de professor catedrático de Higiene Geral e
História Natural do Colégio Atheneu. O ensino de Higiene Geral priorizava a
difusão da ideologia higienista que vigorou no Brasil durante a primeira metade
do século XX. A História Natural compreendia os conhecimentos de Zoologia,
Botânica, Geologia, Anatomia e Fisiologia Humana.
No
mesmo ano de 2016, Augusto Leite tomou posse como membro do Conselho Superior
de Instrução Pública do Estado de Sergipe. O colegiado cuidava do planejamento
educacional e sanitário de Sergipe. Como órgão deliberativo, regulamentava o
ensino, avaliava compêndios didáticos, fiscalizava as escolas e orientava as
reformas pedagógicas.
É
importante registrar naquele período a apresentação do estudo “O Médico e a
Escola”, publicado por Augusto Leite em setembro de 1919. Ele defendia que o
médico não deveria limitar o seu trabalho aos hospitais e clínicas. Nas
instituições de ensino, eles poderiam e deveriam exercer um papel preventivo.
Propôs um olhar médico integrado à rotina da escola, identificando precocemente
necessidades físicas, visuais, auditivas e nutricionais.
Defendia
ainda critérios sanitários rígidos para o funcionamento dos edifícios
escolares, propondo a normatização das condições de ventilação das salas,
iluminação, qualidade da água e instalações sanitárias. Cuidava também da
inspeção sanitária das crianças, campanhas de vacinação e difusão dos hábitos de
asseio.
Juntamente
com Carvalho Neto, Ascendino Argollo e Ávila Lima, Augusto Leite compunha a
comissão encarregada de analisar e emitir pareceres sobre os livros de
ciências, história natural e higiene, fortalecendo o pensamento pedagógico
higienista em Sergipe.
Dois
anos depois, em 1918, como militante da Igreja Católica acatou o convite que
recebeu do bispo Dom José Thomaz, assumindo a cadeira de professor de História Natural
do Seminário Diocesano, centro de formação dos chamados “Padres de Dom José”.
Durante
o seu governo, Maurício Graccho Cardoso criou três importantes cursos de
graduação em Sergipe, todos malogrados. Inicialmente, em 1925, o curso de
Química Industrial, fundando o Instituto de Química Industrial (atualmente
Instituto de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe – ITPS) e construindo para a sua
sede um edifício na rua Duque de Caxias, que abriga atualmente algumas das
atividades da Secretaria da Segurança Pública do Estado de Sergipe e num
passado recente serviu de sede ao Instituto de Identificação Carlos Menezes.
A
partir de 1926, Augusto Leite assumiu a direção da Faculdade de Farmácia e
Odontologia, fundada em 1925 e instalada no ano seguinte. Além de diretor, ele
foi o responsável pela cadeira de Higiene daquela instituição de ensino
superior. Depois de inaugurada, a escola recebeu a designação de Faculdade de
Odontologia e Farmácia Aníbal Freire.
As
aulas foram iniciadas em abril de 1926. Augusto Leite compôs um primeiro quadro
docente com a participação do farmacêutico-químico Antônio Tavares de Bragança,
do médico Carlos Santos e do engenheiro Archimedes Pereira Guimarães.
O
curso superior de Química e a Faculdade de Farmácia e Odontologia Aníbal Freire
funcionaram apenas durante o ano de 1926. Com o término do mandato de Graccho
Cardoso, no dia cinco de novembro de 1926, e a posse de Ciro Franklin de
Azevedo, seu sucessor, no dia seguinte a forte oposição que Graccho sofria
pressionou o novo governante e sugeriu o corte dos gastos públicos.
Ciro
Azevedo suspendeu o repasse das verbas necessárias ao funcionamento do ensino
superior, silenciando e suprimindo o projeto das faculdades de Graccho Cardoso.
Assim, não houve o reconhecimento das instituições pelo governo federal, os
professores não foram mais remunerados e os alunos deixaram de comparecer.
Augusto
Leite foi o responsável pela criação da Escola de Enfermagem de Sergipe, em
1950, vinculada ao Hospital de Cirurgia. Ele foi diretor e professor da
instituição. Ele organizou o currículo com base no modelo de enfermagem
proposto por Anna Nery: rigor sanitário, disciplina e atendimento humanizado.
Como
professor, foi responsável pelo ensino de Patologia Básica, Ética e
Humanização, Higiene Sanitária, Noções de Preparação de Campo Cirúrgico,
Esterilização de Materiais, Instrumentação e Cuidados Pré e Pós-Operatórios.
No
mesmo ano de 1950, Augusto César Leite ajudou a fundar a Faculdade de Direito
de Sergipe. Participou da reunião realizada dia 28 de fevereiro, na sede do
Conselho Penitenciário e assinou a ata de fundação da escola jurídica. Além de figurar
ao lado dos que fundaram a instituição foi o primeiro professor de Medicina Legal,
até que o professor Garcia Moreno o sucedesse em tal cadeira.
Há
muito a analisar e dizer sobre o trabalho do médico Augusto Leite como
professor. Talvez seja esta uma das dimensões menos estudada da sua vida
produtiva. Existe um acervo de fontes e registros à espera de pesquisadores da
área de História, do campo da Medicina e dos estudiosos do Direito.
Mãos à obra. Augusto Leite ainda tem muito a nos dizer.

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