Jorge
Carvalho do Nascimento
Não
sei explicar o porquê da minha melancolia. Tem uma semana que durmo e acordo
pensando no quanto era bom ir ao Cine Palace de Aracaju. Pensei tanto que
terminei me dando conta que eu e ele temos a mesma idade. Nascemos ambos no ano
de 1956. Ele foi apressado e partiu muito jovem, mal tinha completado 41 anos
de idade. Da minha parte são fundadas as esperanças de ainda permanecer por
aqui durante muito tempo.
Ali,
adolescente, vi bons filmes. Nos primeiros anos de juventude, como fizeram Rita
Lee e Roberto Carlos, aproveitei o escurinho do cinema para boas sessões de
namoro. Algumas vezes chupando drops de anis e em outras oportunidades
tirando tal bala da boca. Felizmente, com as namoradas eu provei o splish splash
do beijo, ouvindo o mesmo som do qual nos fala a canção de Roberto Carlos.
O
fato é que as lembranças são as melhores possíveis. Desde a primeira vez em que,
menino, fui naquele cinema chic, levado pela minha tia, Terezinha de Jesus
Carvalho. O elegante Cine Palace de Aracaju, na rua João Pessoa, era a mais
requintada sala de projeções que já existiu em Sergipe, inaugurada no primeiro
dia de janeiro de 1956.
Tudo
no Cine Palace encantava. A começar dos empregados da bilheteria, simpáticos e
sorridentes. A pipoca me parecia a mais saborosa dentre todas que eu comera até
então. O balcão de doces com a sua sortida bomboniere dispensava comentários e
fazia salivar até o mais empedernido adversário do açúcar. Ao transpor a pesada
cortina que fechava a sala escura, após vencer os quatro degraus do hall, entrava num mundo deslumbrante.
O
ar condicionado mais frio que eu já havia sentido. Um frio saboroso,
confortável, que me parecia vir de baixo para cima dando conta de secar o
nervoso suor que tomava conta das pernas, das costas e do peito. Era um sonho
ficar aboletado naquelas poltronas macias. Muito bom contemplar os painéis
pintados por Jenner Augusto que adornavam as paredes da sala de projeção.
Inesquecível
desfrutar da música das grandes orquestras que distraíam a plateia enquanto se
esperava pelo filme. O sistema de som estereofônico do Palace fazia tonitruante
a primeira pancada do gongo que anunciava a proximidade do início da película.
Lentamente as luzes começavam a se apagar em camadas, no mesmo ritmo em que
devagarinho a bela cortina começava a deslizar automaticamente sem que ninguém
a puxasse, desnudando a moderna tela cinemascope. Primeiro apagavam-se as
luzes do fundo da sala. Depois as intermediárias. As que ficavam próximas da
tela eram apagadas no exato momento que todo o espaço branco destinado a
projeção já fora desembrulhado.
Os
primeiros raios da luz do projetor iluminavam a tela enquanto os conhecidos
acordes de Na Cadência do Samba ou Que Bonito É, composição de Luiz Bandeira,
invadiam a sala enchendo a todos de emoção e arrepios juntamente com a bela
fotografia das cenas de jogos de futebol que marcavam o trabalho dos
cinegrafistas do Canal 100. Estava começando a matinê do Palace, sempre às 16 horas. Após
o Canal 100 a exibição do trailer das duas próximas películas que entrariam em
cartaz. Teríamos mais duas horas de emoção.
O
filme Sete Noivas Para Sete Irmãos foi o primeiro ali exibido, um dos marcos da
era de ouro dos musicais de Hollywood. Filme produzido pela MGM em formato
CinemaScope e em Technicolor, com som estereofônico. O máximo da tecnologia em
sofisticação cinematográfica disponível à época. Era uma película que
emocionava pelo seu enredo. O filme dirigido por Stanley Donen, o mesmo diretor
do premiado Cantando na Chuva, mostra como era a vida em uma propriedade rural
rústica do interior dos Estados Unidos da América.
O
Cine Palace foi o uso mais nobre dado ao edifício da esquina da Praça Fausto
Cardoso com a rua João Pessoa. Edifício que nas décadas de 10 e 20 do século
passado funcionou como cinema: o Cine Universal. Entre 1930 e 1934 abrigou um
hotel. A partir de 1936 foi o endereço da sofisticada Sorveteria Primavera,
ponto de encontro de socialites, políticos e toda sorte de gente chic
daquela época. A casa era gerida cuidadosamente pelo casal Acioli e Glorinha.
Em
1954, a Empresa Teatral e Cinematográfica de Sergipe fez pesados investimentos
para modernizar e aformosear o prédio, colocar o que de mais moderno existia
em equipamentos para cinema, treinar a equipe de trabalho e inaugurar a casa.
O
Cine Palace chegou no momento em que a sociedade sergipana costumava frequentar
os cinemas Rio Branco, Vitória, Rex, Aracaju, Guarany e Tupy. Logo conquistou
os corações de todos os cinéfilos, não apenas pelo seu conforto, mas também
pela qualidade dos filmes que costumava exibir.
Conhecer
e viver o Cine Palace, sentar nas suas poltronas estofadas foi um sonho de
adolescente e jovem que eu inscrevi no meu acervo das melhores experiências e
das boas lembranças. Entristeci à medida que comecei a perceber a decadência daquele
velhinho que fechou os olhos definitivamente em janeiro de 1997.
Mesmo
tendo apelado para uma programação popularesca, aquela sala de cinema, cercada
de luxo e sofisticação em todos os sentidos, viveu seus últimos tempos exibindo películas que apelavam para a vulgaridade pornográfica do sexo e para a violência.
Seus projetores foram ligados pela última vez para exibir o filme O Prazer de
Matar, estrelado por Antonio Banderas e Victoria Abril.
As saudades daquele velhinho charmoso e sofisticado, continuam a perturbar as minhas recordações. Mas, sei que ele não teria como resistir, do mesmo modo que a maioria dos cinemas de rua brasileiros não suportou a popularização do vídeo cassete, o streaming das TVs por assinatura e as salas de cinema dos shoppings centers.

Parabéns Jorge, sonhei a cordado com os casais Vanda /Jackson Prado e Paulo e Maria Virgínia, filho e Dona Anita Maynard
ResponderExcluirFui muitas vezes com meu pai e irmãos assistir aos filmes dos Trapalhões nos anos 80, boas lembranças.
ResponderExcluirMagistral, envolvente, cativante, são expressões que, ainda assim, não traduzem na plenitude a capacidade que o pena-de-ouro tem de nos transportar para uma época e local que não vivemos e conhecemos. Até eu me senti saudoso!
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