Jorge
Carvalho do Nascimento
Fico entusiasmado com a sensibilidade perspicaz de Aristóteles, amplificada e muito usada
por John Locke: “nada está no intelecto sem antes ter passado pelos sentidos”. O
mundo exterior se transmuta em consciência quando captamos o que nos rodeia
pela visão, pela audição, pelo tato.
Ideias
simples nascem das sensações processadas reflexivamente pela mente. É a base do
Empirismo que todos nós usamos permanentemente, embora na maior parte das vezes
sem percebe-lo. Nos três últimos dias dei conta que pensei muito nisto.
No
início da semana estava dedicado a arrumar papéis antigos e encontrei um
caderno de notas com registros que fiz em 2014, quando estava pesquisando
alguns processos no Arquivo do Poder Judiciário do Estado de Sergipe e me
deparei com uma ação litigiosa de divórcio de um casal do interior de Sergipe. Assim
nasceu esta ficção.
Li
casualmente a petição inicial apresentada pelo advogado da mulher e mais uma
vez fiquei chocado com aquilo que é recorrente entre nós: a atroz cultura
machista que nos domina, herdada das tradições portuguesas trazidas pelos
nossos colonizadores.
Lúcia
Albuquerque Muniz era uma mãe de boa família cristã, exemplar, dessas que
servem de referência, citadas aos jovens casais nos cursos que preparam para o
matrimônio. Casal comum, desses que habitam os bairros menos nobres da urbe.
O
marido, um macho provedor, proprietário de uma frota de três taxis que faziam a
linha entre a cidade onde residiam e a capital. Ela, uma professora que cumpria
tripla jornada de trabalho para complementar a renda da família: pela manhã, na
escola pública estadual; à tarde na escola do município; nos demais horários
dava conta de todos afazeres domésticos, atendendo as demandas do marido e dos
filhos.
Assim,
seguiam a vida e mantinham na escola os sete filhos que puseram no mundo. Três
já frequentavam a Universidade Federal de Sergipe. Os demais no ensino médio e
no ensino fundamental das escolas do estado e do município. Todos da família eram
admirados pela sua comunidade e ninguém entendeu quando circulou a notícia de
que Lúcia e Osvaldo estavam se separando.
Que
Osvaldo Andrade Silva era raparigueiro todo mundo sabia. A maior parte dos
homens nascidos até a primeira metade do século XX também era. Mesmo as pessoas
que discursivamente fingiam não aceitar, toleravam silenciosamente o fato de
que os colibris desfrutassem de uma espécie de licença tácita para polinizar as
suas violetas e outras flores em diferentes jardins.
Li
nos autos as razões apresentadas pelo cônjuge masculino que recusava a
separação e desejava a continuidade do relacionamento com Lúcia. E também me
interroguei: por que ela quer se separar de um homem que demonstra cumprir as
suas obrigações de pai preocupado com a educação dos filhos e de marido que cuida
de prover as necessidades da família.
Uma
carta presente nos autos me fez mudar de ideia. Lúcia escreveu a si e entregou
a missiva ao seu advogado. Este anexou o documento ao processo. A carta me fez
invocar o bardo português Luiz Vaz de Camões: “Cesse tudo que a antiga musa
canta... “
“Malditas
férias!
Mulher
objeto, sem direito, sem gosto.
Preciso
morrer, preciso acabar com tudo, não suporto mais. Já é hora de eu ser alguém,
de fazer o que gosto, de sentir-me mulher. Se não posso ser, devo morrer.
Morrer e acabar de vez com esta vida sem vida.
Ou
devo esperar até enlouquecer? Será que já estou enlouquecendo?
Oh!
Não aguento mais viver para os outros, pelos outros e não por mim.
Meu
Deus, dai-me forças para suportar ou fazei-me mudar, aprender a lutar por mim
mesma, por meus gostos, por minhas vontades.
Estas
foram as piores férias que já vivi.
Como
poderei ter ânimo para voltar a trabalhar?
Malditas férias!”

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