Jorge
Carvalho do Nascimento
Terminei
de ler nesta sexta-feira o livro LACERDA: CORAÇÃO DE TEMPESTADE, escrito pelo
jornalista e historiador Mário Magalhães. Conheci o trabalho de Mário Magalhães
no natal de 2012, quando fui presenteado com um outro livro escrito por ele: a
biografia MARIGHELLA: O GUERRILHEIRO QUE INCENDIOU O MUNDO.
A
minha experiência anterior fez com que eu não relutasse quando fui agora
presenteado com a biografia de Carlos Lacerda, que eu sempre tive na conta de
um radical que vivia batendo às portas dos quarteis buscando apoio para golpes
de estado e outros atentados contra a democracia.
Confesso
que a leitura deste trabalho biográfico me fez muito bem. Havia passado a
semana entristecido com o noticiário dando conta da campanha de desacreditação
da Universidade Federal de Sergipe conduzida por políticos conservadores
sergipanos atualmente em atividade.
Um
deles detém um mandato popular que está se findando e preside em Sergipe o
partido político que reúne a extrema direita brasileira. Um outro exerce
mandato parlamentar. São duas vozes do obscurantismo sergipano que estão
pugnando pelo encerramento das atividades da Universidade Federal dos sergipanos.
Não
pude deixar de lembrar que Sergipe já foi governado por líderes conservadores
que realizaram muito pela educação do povo sergipano. São bons exemplos o que
Rodrigues Dória fez pela Escola Normal e pelos grupos escolares; a rede de
grupos escolares, o Atheneuzinho e as faculdades criadas por Graccho Cardoso; a
política de educação infantil de Augusto Maynard; o ginásio de Itabaiana e as
escolas rurais de José Rollemberg Leite; o edifício do Atheneu, de Arnaldo
Garcez; a Faculdade de Medicina criada por Luiz Garcia; a participação de
Lourival Baptista na instalação da própria Universidade Federal de Sergipe; a
expansão da rede de escolas públicas estaduais de primeiro e segundo graus
liderada por Lourival Baptista e Paulo Barreto; o engajamento de José
Rollemberg Leite na construção do campus da UFS, em São Cristóvão; a
participação de João Alves Filho, Marcelo Déda, Jackson Barreto e Fábio Mitidieri
na implantação dos campi da Universidade Federal em Itabaiana, Laranjeiras, Lagarto,
Nossa Senhora da Glória, Estância e Propriá; a inciativa de levar o ensino de
segundo grau aos 75 municípios sergipanos e a implantação do Programa de
Qualificação docente (PQD) por Albano Franco. Paro por aqui. Teria muito mais a
dizer.
À
exceção de Marcelo Déda e Jackson Barreto, todos os líderes políticos aqui
citados eram homens de direita, conservadores, porém movidos pelo real
interesse no desenvolvimento do estado. Todos de fortes convicções religiosas cristãs,
porém nenhum deles obnubilado pela ausência de letramento e pelo fanatismo
religioso que torna os homens obscurantistas.
Volto
a Carlos Lacerda. Vi uma resenha sobre o mesmo livro que eu acabei de ler, assinada
pelo amigo e competente jornalista Paulo Roberto Dantas Brandão. Paulo conclui
assertivamente que a direita já teve erudição e, independente de diploma
universitário, os seus líderes já foram homens ilustrados e estudiosos. Paulo
cita dois bons exemplos brasileiros: Plínio Salgado e o próprio Carlos Lacerda.
Depois
de encerrada a leitura do estudo biográfico sobre Lacerda, sou obrigado a
concordar com Paulo. Estamos vivendo tempos de trevas nos quais alguns políticos
batem no peito e se orgulham da condição de néscios, de ignorantes e descomprometidos
com a ilustração.
O
estudo de Mário Magalhães nos faz refletir não apenas sobre a vida de Carlos
Lacerda, mas também sobre a vida brasileira entre 1914 e 1977, com foco nas
relações entre jornalismo, poder político, ideologias, democracia e cultura do
Brasil no século XX.
O
autor trabalhou pesquisando durante 11 anos. No primeiro volume (o que acabei
de ler), Mário Magalhães nos apresenta a um Lacerda para além da imagem do político
de direita, anticomunista e adversário de Getúlio Vargas. São 536 páginas em
brochura, com o selo da Companhia das Letras.
O
senso comum da história política brasileira sabe que Carlos Lacerda começou a
militar politicamente no convívio com lideranças comunistas, antes de se
transformar num dos mais importantes dentre os representantes do anticomunismo
brasileiro.
Ao
analisar a juventude de Carlos Lacerda, Magalhães mostrou a infância do chefe
político udenista em um ambiente familiar politizado, porém com muitos estímulos
intelectuais. Na universidade, foram muitos os seus contatos com intelectuais
de esquerda.
Ao
frequentar a Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, em 1932 e
1933, Carlos Lacerda conviveu com figuras como Evandro Lins e Silva e Santiago
Dantas. Por isto, é muito importante o rompimento de Lacerda com o universo dos
comunistas.
Lacerda
foi um jornalista que adquiriu uma grande capacidade de intervir na vida
pública. Foi na imprensa que ele aprendeu a argumentar, a mobilizar opiniões, a
denunciar adversários, a influenciar o debate público. O jornalismo foi para
Lacerda uma importante ferramenta de disputa do poder político.
Mesmo
tendo consumido parte importante da sua vida conspirando contra o estado
democrático, mesmo tendo sido um dos entusiastas das tentativas de golpe da
década 50 do século XX e um dos mobilizadores da sociedade civil em defesa do
golpe de 1964, Lacerda foi um líder político grandioso.
Sugiro
a todos que gostam de política, que se entusiasmam com os estudos de história,
que leiam o primeiro volume de LACERDA: CORAÇÃO DE TEMPESTADE. Eu li e gostei.
Vale a pena, mesmo nos deixando saudosos do tempo em que os líderes políticos
sabiam ler, gostavam de ler e eram capazes de entender e interpretar o que
liam.
Pena que estamos vivendo tempos de fanatismo religioso e obscurantismo.

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