Jorge Carvalho do Nascimento
Durante 11 anos, entre 2007 e 2018, visitei
arquivos públicos e privados pesquisando documentos que me possibilitassem
compreender o que foi a luta daqueles que se posicionaram contra a ditadura
militar em Sergipe desde 1964 até o ano de 1984. Em 2019 publiquei o livro
MEMÓRIAS DA RESISTÊNCIA, com o selo da Criação Editora.
Enquanto realizava a pesquisa, por
três vezes fui recebido por José Carlos Teixeira em seu apartamento da rua Vila
Cristina, em Aracaju. Com ele gravei quase sete horas de conversas que foram
extremamente importantes para a minha compreensão do objeto que resolvi
estudar.
José Carlos não está mais entre nós.
Morreu no dia 29 de maio de 2018. Hoje, três de maio de 2026, registramos a
data que marca os 90 anos do nascimento daquele que foi um dos nomes da maior
importância para a defesa dos valores da democracia no Brasil.
Ouso afirmar que José Carlos Teixeira,
em certa medida, vem sofrendo um gradativo apagamento do seu nome na memória
dos sergipanos. É possível que haja, mas eu desconheço alguma avenida, praça,
parque, rua ou outro logradouro público da cidade de Aracaju ou de qualquer
outra cidade sergipana onde ele tenha sido homenageado com a colocação do seu
nome. Nunca vi em lugar nenhuma, em qualquer espaço público, uma estátua ou um
busto homenageando José Carlos Teixeira.
Do mesmo modo, desconheço a
existência de qualquer homenagem que lhe tenha sido prestada nos seus 90 anos
de nascimento por qualquer instituição da qual ele tenha participado, como o
MDB, partido político que fundou num dos momentos mais difíceis da vida
brasileira.
Mesmo com todo silêncio que há hoje
em torno do seu nome, ninguém pode negar que José Carlos Teixeira, efetivamente,
foi quem materializou a ideia de fundar o MDB em Sergipe. Os riscos políticos
assumidos por ele foram elevados e, algumas vezes, o ônus que assumiu foi muito
alto.
Quatro anos depois de ter fundado o
MDB, em 1966, José Carlos sofreu um grande revés. Nas eleições de 1970,
candidato a deputado federal, ele obteve a segunda maior votação dentre todos
os nomes que disputaram a vaga de deputado federal, porém não se elegeu porque
o partido não obteve a legenda mínima necessária.
Garantir o seu mandato no MDB era
sempre bem mais difícil do que eleger um deputado federal pela Arena. Na
entrevista que me concedeu no dia nove de agosto de 2008, Wellington Paixão,
militante do MDB quando o partido foi fundado por Teixeira, chegou a assumir um
tom emocionado tratando do papel desempenhado pelo então líder do partido: “Nenhum
historiador ouse escrever a história da resistência à ditadura em Sergipe sem
que comece e termine com José Carlos Teixeira”.
Quando tomei o seu depoimento, no dia
10 de março do mesmo ano de 2008, José Carlos Teixeira fez um relato importante
sobre o desdobramento dos fatos políticos, ao longo dos anos de 1964 e 1965, relatando
a importância da interlocução e das discussões que travou com Mário Covas,
Humberto Lucena, Fernando Santana, Cid Sampaio e Ulisses Guimarães.
“Primeiro houve a fundação nacional
do partido, o MDB. Eu sou um dos 200 signatários do documento que originou o
partido. Nós reunimos um bloco todo, fora os que já estavam exilados. Conversei
com Paes de Andrade, Ivete Vargas, Tancredo Neves, Ulisses Guimarães, Mauro
Borges e outros. Fizemos a subscrição necessária para alcançar o quorum exigido
no plano federal. Fundar o MDB em Sergipe era a minha responsabilidade nesse
processo”.
Num Estado onde a política partidária
tradicionalmente era dominada por grupos oligárquicos que se dividiam
principalmente entre udenistas e pessedistas, era muito difícil a criação de um
partido como o MDB que se propunha a ser, num momento delicado da vida
brasileira, um instrumento de renovação dos métodos políticos.
A atitude de José Carlos Teixeira ao
fundar o MDB em Sergipe, no ano de 1966, foi um gesto ousado para um deputado
que estava chegando ainda aos 30 anos de idade e que se encontrava no exercício
do seu primeiro mandato parlamentar. Fora eleito a primeira vez pela legenda do
extinto Partido Social Democrático – o PSD e antes de concluir o mandato
inaugural aceitava a tarefa de organizar em Sergipe o partido que faria
oposição à ditadura militar.
Foram poucas as lideranças que
resistiram ao ambiente de pressão criado em Sergipe, na tentativa de fazer com
que as figuras de maior expressão na vida política, no mundo intelectual, no
campo econômico aderissem ao novo partido governista.
Todo tipo de pressão era utilizado em
relação àqueles que recusaram os convites para integrar a Arena. No dia 13 de
fevereiro o jornal Diário de Aracaju publicou uma foto do empresário Oviedo
Teixeira, pai de José Carlos, ao lado do ex-governador Leandro Maciel,
anunciando que ambos haviam fechado entendimento em torno do novo partido e que
o empresário estivera no Palácio Olympio Campos, participando da reunião na
qual foram feitos os acordos para fundar a Arena.
Oviedo reagiu e três dias depois, na
edição de 16 de fevereiro, o periódico publicou a sua retratação, esclarecendo
estar enganado e informando que, na verdade, a foto fora obtida durante a
solenidade de inauguração da nova agência do Banco Mineiro da Produção, que
ocorrera em Aracaju no dia 11 de fevereiro:
“Revendo os originais das
reportagens, os repórteres encarregados da cobertura da reunião, constataram
haver incluído o nome do Sr. Oviêdo Teixeira entre os presentes por equívoco,
confundindo-o com outro político pessedista. Registramos a retificação, confirmando
que, efetivamente, o ilustre comerciante e líder político não fez parte da
referida reunião”.
Na verdade, àquela altura Oviedo
Teixeira já havia concordado com a posição do seu filho, o jovem deputado
federal José Carlos Teixeira, de fundar o Movimento Democrático Brasileiro em
Sergipe. José Carlos buscou seduzir não apenas aqueles que lhe eram mais
próximos, mas buscou alargar o horizonte dos quadros com os quais fundaria o
MDB, mantendo contato com intelectuais, profissionais liberais e empresários
que se dispusessem a integrar o partido oposicionista. Mas, o resultado desses
contatos era sempre muito desanimador.
Em julho de 2008 gravei um depoimento
eloquente do ex-prefeito de Aracaju, João Augusto Gama da Silva: “O MDB de
Sergipe foi criado graças a Zé Carlos Teixeira. Ele chegou em Brasília, jovem,
deputado federal e se vinculou ao grupo de João Goulart. Talvez até, se Zé
Carlos tivesse entrado na Arena, com o nome do pai e o prestígio da família, provavelmente
tivesse sido governador do estado. É inegável a importância do papel exercido
por José Carlos Teixeira em defesa da democracia em Sergipe, ao fundar o MDB”.
Apenas a fundação do partido que lutou contra a ditadura já seria mais do que suficiente para que a memória de José Carlos Teixeira recebesse todas as homenagens e fosse eternamente lembrada. Os sergipanos devem muito a José Carlos Teixeira. É absurdo o apagamento da sua memória.

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