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LIVROS PARA O POVO II

 
 
Prof. Dr. Jorge Carvalho do Nascimento*
 
 
A tudo que está posto no debate sobre a leitura no Brasil antes do século XX, podem ser acrescentadas as profundas transformações pelas quais passou a sociedade brasileira do século XVIII, no que diz respeito aos hábitos de leitura. Nos anos 700 já se punha com muita clareza a condição do Brasil como Colônia indispensável ao funcionamento da decadente economia portuguesa. Ademais, o deslocamento do centro político e econômico do eixo Bahia-Pernambuco para Minas Gerais e a forte presença de brasileiros estudando em universidades europeias representaram uma mudança significativa nos padrões de cultura correntes entre nós. Tudo isto sem esquecer o que representou em tal processo a reforma pombalina.
Do trabalho realizado pelo Marquês de Pombal, de acordo com o já citado Jorge de Souza Araujo, “valeu-se a civilização portuguesa para operar as mudanças necessárias ao Reino, sobretudo no campo político da educação e, claro, da circulação ou não de livros e ideias e das reformas produzidas na seara pedagógica da Universidade de Coimbra” (p. 68). O impacto do movimento de ilustração pombalina no Brasil pode ser sentido pela vitalidade que ganhou a circulação de livros e ideias.
A reforma de Pombal buscou substituir a formação jesuítica por um iluminismo de base católico-regalista, com uma afirmação nacionalista de soerguimento do Estado. Foram muitas as expressões das leituras que a reforma pombalina possibilitou. Algumas delas fundamentais para a mudança da mentalidade dos intelectuais brasileiros e a introdução de ideias e problemas antes inacessíveis. Um bom exemplo foi o trabalho de Luiz Antônio Verney, ancorado na filosofia racionalista e lógica de John Locke - até então desconhecido no Brasil. Araújo (p. 79) apontou o fato de que Luis Antonio Verney, no seu Verdadeiro Método de Estudar, difundiu a prática pedagógica de Locke entre nós, acrescentando que se Verney não citou Locke explicitamente, por certo em face dos preconceito portugueses contra o autor inglês.
Naquele mesmo período os brasileiros passaram a ter mais contato com as ideias de Descartes, Aristóteles, Platão, Santo Agostinho, Galileu, Pedro Gassendo, Isaac Newton, Port-Royal, Malebranche, Arnaud, Pascal, Antonio Genovese, Camões, Duarte Ribeiro de Macedo, Diogo Bernardes, Voltaire, Jéremy Bentham, Cícero, Rousseau e Montesquieu.
No mesmo período, publicações de caráter enciclopédico ganharam prestígio e passaram a circular no Brasil, a exemplo dos 10 volumes organizados por um outro reformador pombalino, o padre Teodoro de Almeida. Tanto Almeida como Verney buscaram fazer com que a linguagem dos seus livros fosse acessível a todos. Merece registro a proibição estabelecida pela reforma de Pombal de que os clássicos gregos fossem lidos em Latim, uma vez que deste modo evitaria que tais textos circulassem com as adaptações feitas pelos jesuítas.
No século XVIII os brasileiros foram estimulados a ler em Português, ao mesmo tempo que o Estado fechou os olhos para a leitura dos livros franceses proibidos. As evidências do que viria a ser o rico contexto do Brasil no século XIX podem ser encontradas ainda em documentos do final do século XVIII. O Almanaque do Rio de Janeiro, de 1792, organizado por Antônio Duarte Nunes, deu conta do funcionamento regular naquela cidade de uma livraria.
Em 1797, em Salvador, começou também a funcionar regularmente a loja de livros de Manuel Antonio da Silva Serva. Tal livreiro viria a pedir, em 1810, licença para a instalação de uma tipografia na Bahia. A autorização foi concedida no ano seguinte, no mesmo momento em que estava sendo fundada a Biblioteca Pública de Salvador. Dois anos mais tarde, em 1799, mais duas livrarias viriam a ser instaladas no Rio de Janeiro.
As duas primeiras décadas do século XIX no Brasil foram marcadas pela mudança da sede do governo português para o Rio de Janeiro. D João VI criou as escolas superiores necessárias à formação da elite administrativa (civil e militar) e uma tipografia, dentre outras importantes inovações e modernizações da malha urbana, paralelamente às transformações que foram processadas na vida econômica e cultural. No mesmo ano começou a circular a Gazeta do Rio de Janeiro.
Se o mercado de livros já crescera de maneira substancial no século XVIII, nos anos 800 o número de títulos e autores em circulação aumentou sobremaneira, principalmente nos campos da ciência e da técnica. Era visível a circulação das novas ideias naquele período, a ponto de Diogo Antônio Feijó, professor no convento dos franciscanos em Itu, São Paulo, haver sido denunciado por divulgar “uma filosofia pouco ortodoxa, pois nas suas preleções misturava erros dogmáticos de Anglicanismo, Kantismo, Jansenismo e outras heresias”, conforme demonstrado por Jorge de Souza Araujo (p. 161).
Autores como Locke e Kant, já conhecidos no Brasil, ganharam muito prestígio naquele período como expressões do pensamento libertário da época, com toda uma base empirista. Preocupado com a livre circulação das ideias no Brasil, em 1809 o governo de D. João VI regulamentou a submissão dos anúncios de venda de livros à fiscalização da Polícia. Do mesmo modo, a partir do ano de 1811, tornou-se obrigatório o envio de um exemplar de todos os papéis impressos à Biblioteca Real do Rio de Janeiro. A expansão do mercado editorial era visível, de todas as maneiras. Somente no ano de 1817 quatro novas livrarias foram inauguradas na cidade do Rio de Janeiro, enquanto começava a funcionar a primeira tipografia pernambucana. No mesmo ano do regresso de D. João VI a Portugal, 1821, regulamentou-se a liberdade de imprensa no Brasil e quebrou-se, no Rio de Janeiro o monopólio da Impressão Régia, com a instalação de duas novas empresas gráficas. Mais quatro novas empresas gráficas foram instaladas na mesma cidade, no ano seguinte. Naquele ambiente, a circulação de livros no Brasil viria a conhecer mais facilidades a partir de 1830, com o funcionamento regular dos correios. O crescimento do mercado de livros entre nós pode ser também medido por diversas providências adotadas, a exemplo da regulamentação, em 1866 da propriedade sobre a obra literária pelos herdeiros do autor por 50 anos após sua morte, tornando-se em seguida de domínio público.
 
*Jornalista, professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e Presidente da Academia Sergipana de Educação.

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