Jorge Carvalho do Nascimento*
Ao longo
do século XIX foram muitas as discussões registradas em Sergipe acerca da
necessidade de mandar trazer colonos europeus. Em 1851, o presidente da
Província, Amâncio João Pereira de Andrade, defendia tal proposta, afirmando
que a colonização proporcionaria a prosperidade de Sergipe e estimularia a
mudança daquilo que ele considerava “costumes bárbaros e ferozes” dos
habitantes sergipanos.
O Estado
de Sergipe criou as condições para o projeto da colônia agrícola formada por
europeus a partir do ano de 1894, quando aprovou a lei estadual nº 93,
autorizando o governo a aplicar cem contos de réis por ano a fim de concretizar
tal objetivo. Afinal, a imigração de estrangeiros era entendida como uma forma
de trazer novos hábitos culturais, de difundir o cultivo de outros produtos e
técnicas agrícolas e industriais ou, ainda, de acordo com a mentalidade
vigente, aumentar o contingente demográfico de europeus e seus descendentes –
os únicos capazes de produzirem uma sociedade civilizada, segundo o
entendimento à época dominante.
Em
Sergipe, a principal experiência de assentamento de europeus, todos colonos
alemães, em torno da qual é possível encontrar registros, é a da Colônia
Quissamã. Na área da Fazenda Quissamã funciona atualmente um campus do
Instituto Federal de Sergipe – IFS, antiga Escola Agrotécnica Federal de São
Cristóvão. Localizado na região leste do Estado de Sergipe, situado no
quilômetro 96 da BR 101, Povoado Quissamã, Município de São Cristóvão, o campus
dista do centro urbano da capital aproximadamente dezoito quilômetros.
A Escola
Agrotécnica Federal de São Cristóvão teve sua origem no Patronato São Maurício,
criado em 1924, com curso de aprendizes e artífices destinado a crianças e
adolescentes com problemas de ajustamento social e emocional. Durante nove
décadas, foi o único estabelecimento escolar do Estado de Sergipe a oferecer
cursos de nível médio para a formação de técnicos destinados ao setor primário
da economia.
O projeto
de ocupar a área do Quissamã foi estabelecido a partir de 1922, durante o
governo do presidente Maurício Graccho Cardoso, no contexto das suas preocupações
com os problemas agrícolas de Sergipe e os impactos da atividade agrícola na
economia local.
Para
dinamizar o setor, Graccho Cardoso criou o Banco Estadual de Sergipe e
implantou centros experimentais de sementes selecionadas, com a finalidade de
aperfeiçoar a produtividade e a qualidade do algodão em Sergipe. Com o mesmo
propósito contratou um pesquisador norte-americano, o professor Thomaz R. Day,
oriundo do Texas. O principal objetivo buscado com a presença daquele
especialista estrangeiro em Sergipe era fundar a Estação Experimental Miguel
Calmon.
Em 1923,
Graccho Cardoso criou o Departamento Estadual do Algodão. Na área do Quissamã
instalou-se o Centro Agrícola Epitácio Pessoa, sendo fundado um laboratório de
análises com o objetivo de atender ao requisito da falta de controle científico
e conhecimentos técnicos na produção do solo. Mas, a pedra de toque do projeto
naquela região foi o assentamento de vinte e duas famílias de colonos alemães,
uma experiência frustrada e abandonada em seguida.
Graccho
começou a preparar o processo de colonização ainda em 1923, quando editou o
decreto 758, regulamentando a contratação e localização de imigrantes
estrangeiros em Sergipe. O próprio presidente Graccho Cardoso registrou o
início da experiência: “Iniciei a colonização estrangeira, com a localização,
nos lotes adrede preparados, nesse estabelecimento, de 22 famílias alemãs.
Penso que surtirá bom resultado este tratamento, que virá animar os proprietários
agrícolas, que tanto sentem a falta de braços para o tamanho de suas terras, a
procurarem esse valioso elemento”.
Desde o
século XIX a formação de colônias agrícolas com trabalhadores europeus era
defendida por intelectuais e políticos. A instalação das colônias agrícolas
estava sempre associada a projetos de implantação de patronatos agrícolas, em
todo o país. As colônias eram vistas, também, como uma possibilidade de fixar
os egressos dos patronatos agrícolas, quando estes não conseguiam emprego nas
propriedades particulares ou nas repartições do governo.
Num
período em que os políticos, cientistas e intelectuais de todo o mundo,
inclusive os brasileiros, estavam encantados com o discurso higienista, a
Colônia do Quissamã representava a contribuição do Estado de Sergipe ao projeto
brasileiro de ampliar a entrada de brancos no país, ao tempo em que se impedia
a entrada de africanos e asiáticos, ao lado de outras medidas que o presidente
Graccho Cardoso tomara e que diziam respeito a decisões que o governo do Brasil
vinha adotando quanto a políticas de saneamento, de combate a epidemias
tropicais, de higiene e o desenvolvimento de projetos eugênicos.
*Jornalista, professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação.

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