Jorge Carvalho do Nascimento*
O livro
de Antônio Moniz de Souza, além de estudar o meio ambiente e as espécies
vegetais, é um testemunho importante do processo de transição e da vida das
pessoas no momento em que o Estado brasileiro ganhava autonomia e se separava
do império português.
Além deste livro, Antônio Moniz de Souza publicou mais quatro importantes
trabalhos: Máximas e Pensamentos Praticados por Antônio Moniz de Souza, o Homem
da Natureza em Suas Viagens Pelos Sertões do Brasil Desde 1812 Até 1840. O
trabalho foi organizado por um amigo de Moniz de Souza e publicado com 56
páginas, pela Tipografia Niteroiense, em 1843; Petição Dirigida a S. M. I.,
publicada pelo jornal Philantropo do Rio de Janeiro, número 67, de 12 de julho
de 1850; e, Tratamento da Morféia Pela Casca da Raiz de Sucupira,
publicado no Correio Sergipense, de oito de agosto de 1855.
Na sua História
da Literatura Sergipana (1971, p. 232), o pesquisador Jackson da Silva Lima
reproduziu o texto publicado no Correio Sergipense por Antônio Moniz de Souza.
Através dele é possível perceber as preocupações do naturalista quanto ao fato
de que os seus estudos pudessem contribuir para salvar vidas, ao tempo em que
os médicos do início do século XIX, lutando pela legitimação do seu saber e
pela delimitação do seu campo profissional, resistiam a admitir a incorporação
das contribuições do botânico desprovido de formação em Medicina.
Contudo,
o botânico sergipano nunca deixou de enviar para os médicos e as boticas a
Ipicacoanha, o Gurenhen, a Sucupira e outras raízes e plantas medicinais que
recolhia em suas incursões pelas matas.
Era
evidente o entusiasmo de Moniz de Souza para com as possibilidades curativas
que identificara na flora: “Nos sertões por onde percorri nas minhas longas
viagens, encontrei um número de medicamentos extraordinários, os quais todos
que pude colher os apresentava aos médicos, e os dava não só a estes, como a
Academia de Medicina, mas sempre foram desprezadas, porque poucos foram os que
se puseram em prática, talvez por não ser eu médico; mas, entre estes
medicamentos, os quais ainda me pretendo ocupar, como já o fiz a respeito da
casca de Gurenhen para o tratamento da asma, inflamação do fígado, e de todas
as úlceras, e agora o faço para falar da casca da raiz da sucupira para o
tratamento da morfeia, por ter tido ocasião de ver nas matas do Japão, na
Província de Sergipe um homem, o qual dizia ter sofrido esta terrível moléstia
e se achava curado com o uso do cozimento e banhos desta casca, tanto interna
quanto externamente: mas não é isso que me obriga a publicar uma coisa que
tanto bem pode causar à humanidade, é ainda o ter eu aconselhado o uso deste
medicamento a uma pessoa atacada desta moléstia, e esta achar-se com muitas
melhoras. A sucupira é planta que produz nas matas e nos campos agrestes, é
árvore de construção e há duas qualidades dela, uma vermelha e outra branca,
porém a de que se faz uso é da branca produzida nos campos agrestes. Agora só
me resta pedir à Academia Imperial de Medicina, a todos os médicos e ao mundo
inteiro a quem ofereço este meu trabalho que mande vir este medicamento, e que
dele façam uso os desgraçados sofredores desta tão cruel moléstia, pois estou
certo que muitos deverão melhorar os seus sofrimentos” (LIMA, p. 232).
Ao
publicar este texto, Antônio Moniz de Souza deixou claro que anteriormente
ocupara as páginas do mesmo periódico, através de carta dirigida ao editor,
também reproduzida por Jackson da Silva Lima: “Sr. Redator – Fiado na bondade
de v. m. animo a pedir-lhe pela segunda vez a continuação do seu obséquio em
imprimir o seguinte anúncio sobre a casca da raiz da Sucupira no tratamento da
morfeia, assim como m’o fez a respeito da casca de Gurenhen para o tratamento
da asma, etc.; ficando v. m. na certeza de que faz-me com isto um particular
favor, e à humanidade um grande serviço. Antônio Moniz de Souza”.
Apesar desse tipo de registro o próprio Moniz de Souza confessou, em outras
ocasiões, haver recebido o estímulo, inclusive financeiro, de diversas
autoridades e até de médicos para que prosseguisse com as suas pesquisas.
Médicos que, aliás, em várias ocasiões mantiveram um diálogo aberto com Antônio
Moniz de Souza e aproveitaram do conhecimento sobre as plantas que este aportava
como contribuição à Medicina. “Algumas dessas ervas, raízes, e mais drogas de
decidido préstimo naqueles países, onde mais pelas virtudes delas que pelos
conhecimentos dos habitantes, fazem curas milagrosas, são as mesmas que já por
vezes tenho apresentado em várias partes, e muito mais na Bahia, (...) aos
peritos da arte médica, (...) examinadas, primeiro para ordem do Exmo. Conde
dos Arcos, insigne patrocinador dos gênios e artes, a quem tanto deve a Bahia,
e depois pelo de Palma, quando ali governaram. Foi por todos aprovado o meu
trabalho, atenta a utilidade e eficácia desses remédios, com que a bem da
existência humana tanto se pode enriquecer a Medicina; e aqueles Exmos. Condes
patrocinaram, e animaram as más fadigas, não tanto para indução, que para elas
me fizeram verbalmente, quanto para subscrição em que primeiro assinaram, e
concorreram com duas ofertas generosas de companhia com os professores médicos,
e outros muitos cidadãos e proprietários do Recôncavo, em virtude do que
continuei nas descobertas, e conduzi o fruto delas; que de novo apresentei e
fui muito (...) aceito” (SOUZA, 1946).
O nome de
Antônio Moniz de Souza pode ser colocado ao lado de Langsdorf, Saint Hilaire,
Spix, Martius e outros empreendedores de viagens científicas ao interior do
Brasil com o objetivo de descobrir riquezas dos reinos animal, mineral e
vegetal. Com a grande diferença de que os demais investigadores estavam a
serviço de potências estrangeiras, enquanto Moniz de Souza viajou servindo aos
interesses do Brasil.
O discurso
do botânico Antônio Moniz de Souza incluía também uma expressiva preocupação
para com a necessidade de preservar as espécies vegetais. Já nas primeiras
décadas do século XIX estava denunciando o risco de extinção do Pau-Brasil e
pregando a necessidade de proibir-se o corte de tal madeira, além de alertar
para o fato de que a exploração da espécie servia apenas para enriquecer
comerciantes e exportadores estrangeiros, afirmando que àquela altura já se
estava também extinguindo, no território da Bahia, a Tabagiba, ou Amoreira, que
até o século XVIII ali se encontrava abundantemente (SOUZA, 2000, p. 85).
Dois
outros graves problemas à proteção ambiental do Brasil também apontados foram o
da caça e o da produção agrícola. O entendimento era o de que os métodos
empregados então pela agricultura eram extremamente danosos, principalmente o
hábito de “no tempo de estio lançar fogo às frondosas matas para se divertirem
com o incêndio e (...) para na limpa que o fogo faz plantar alguns pés de
abóboras”, reduzindo a cinzas “léguas de matas aformoseadas de preciosos
troncos” (SOUZA, 2000, p. 98).
Também
denunciava a extração do óleo de Copaíba, afirmando que para a colheita do
produto as árvores eram derrubadas com machado, comprometendo a reprodução da
espécie. Do mesmo modo, a caça era uma atividade extrativista tida também como
destruidora e desordenada, que agredia o meio ambiente indistintamente.
Todo o
extrativismo, aliás, era entendido por ele como ruim, fosse a extração do mel
de abelhas, de frutos ou a matança de animais. “O caçador meleiro, homem
estúpido e insensível, vai arrombar o cortiço das abelhas para lhes roubar todo
o mel, único recurso que elas têm para o seu sustento. Chega o insensato com
machado junto da frondosa árvore, em cujo tronco está depositado o cortiço de
abelhas, lança-lhe o machado desbaratando o asilo dos incansáveis e
industriosos animaizinhos, estes saem a defender a sua propriedade com as
tênues armas que a natureza lhes concedeu, mas quando encontram desmanchada a
sua casa, e julgam já baldados os seus esforços e inútil a resistência, vão
reunir-se aos filhinhos postos e lançados por terra sem vida” (SOUZA, 2000, p. 99).
*Jornalista,
professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e
presidente da Academia Sergipana de Educação.

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