Jorge
Carvalho do Nascimento*
Já tem algum tempo
que percebi haver sido a minha relação com a mídia impressa extremamente
distinta do relacionamento das minhas duas filhas para com os mesmos jornais e
revistas. Isto sem falar na minha neta. Larinha, agora com 10 anos de idade.
Certamente ela nunca sujará as mãos com a tinta de um jornal, do mesmo modo que
os seus amigos de geração também estarão distantes de tal experiência. Eles
pertencem a era digital.
É através das
telinhas dos celulares e notebooks que os nascidos a partir de 1980 se
divertem, se comunicam e se informam, numa velocidade inimaginável para os da
minha geração. Na década de 80 do século passado, aos domingos, eu me postava
na porta da Charutaria Chic, na rua João Pessoa, em Aracaju, à espera dos
jornais e revistas que chegavam na capital do Estado de Sergipe a partir do
meio dia, a bordo dos aviões que haviam decolado pela manhã dos aeroportos do
Rio de Janeiro e de São Paulo.
Na infância e na
adolescência consumi vorazmente gibis como Zorro, Cavaleiro Negro, Fantasma,
Superman, Capitão Marvel, Batman, Homem Aranha, Tio Patinhas, Pato Donald, Zé
Carioca, Bolinha, Luluzinha e tantos outros. Na transição da adolescência para
a juventude começaram a aparecer também na minha literatura as fotonovelas como
Sétimo Céu, Capricho, Grande Hotel, Jacques Douglas e romances em livros de
Bolso como Brigite Monfort, HH e ZZ7.
Era indispensável e
clandestina a literatura erótica e pornográfica dos chamados “catecismos” de
Carlos Zéfiro, com enredo picante, e desenhos de traços artisticamente bem
definidos, mostrando belas mulheres nuas, traficados nos corredores e nas salas
de aula do Colégio Estadual Presidente Costa e Silva e no Atheneu Sergipense. A
literatura de Zéfiro fazia a alegria dos meninos e era companhia de todos nós
durante os demorados banhos, sempre reclamados pelas mães. Toda a diversidade
de impressos chegava mensalmente, distribuída por grandes editoras nacionais.
Na juventude e na
transição para a idade adulta, os impressos amadureceram e comecei a consumir
grande revistas nacionais como O Cruzeiro, Manchete, Realidade, Veja, Isto É e
outras importantes publicações periódicas. Sem falar dos jornais diários que
circulavam em todo o Brasil com tiragem assustadoramente elevada, como Folha de
São Paulo, O Globo, O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, Zero Hora, Jornal
da Tarde, A Tarde, Diário de Pernambuco, Jornal do Comércio, Diário de Minas,
Gazeta de Alagoas.
Em Sergipe, o meu hábito
era ler diariamente o Diário de Aracaju, Gazeta de Sergipe, Jornal da Cidade,
Jornal de Sergipe, Tribuna de Aracaju e outros mais. E os leitores sergipanos
que tinham a oportunidade de transitar por aeroportos internacionais
brasileiros como os do Rio de Janeiro e de São Paulo, podiam comprar em algumas
bancas revistas e jornais estrangeiros, a exemplo de Der Spiegel, Le Monde, The
New York Times, Time, Le Figaro, El Clarin, e uma infinidade de outras
publicações com prestígio internacional.
Jornais e revistas
traziam notícias, editoriais, política, esporte, palavras cruzadas e também muitas
colunas, assinadas por nomes de prestígio entre os leitores. Dentre os diversos
tipos de texto publicados em jornais e revistas, chamava a atenção um gênero
muito polêmico – a Coluna Social.
Os colunistas
sociais foram sempre venerados e odiados, bajulados e olhados com desdém.
Convém perguntar: será que estamos assistindo a morte do colunismo social, em
face da transição da mídia impressa para os meios eletrônicos?
Qual é o papel, o
significado e a relevância do colunismo social? Seria apenas para bajular ricos
e poderosos, cultuar os atos oficiais e a frivolidade que ele existe? Por que
em diferentes situações os jornalistas responsáveis por editorias de maior
prestígio como política e economia olharam os colunistas sociais com um certo
desdém? Este tipo de prática jornalística tem interesse histórico e
sociológico?
Certamente, as
preocupações em verificar e difundir os hábitos do homem civilizado vêm de
longe. Bisbilhotar os costumes é buscar uma espécie de verniz da existência
humana, de práticas culturais civilizatórias, o que dá sentido ao colunismo
social como gênero jornalístico. É da condição humana sempre querer saber mais
e mais sobre o outro e as suas intimidades, sobre o refinamento dos costumes.
Disto sempre
sobreviveu a coluna social. E agora? Sabemos que todos nós estamos expostos nas
redes sociais da internet. Será que ainda há necessidade de colunistas sociais?
Mesmo porque, os grupos sociais estão presos a padrões de decoro, moralidade e
regras de comportamento coletivo, necessários à convivência de grandes massas
humanas. Deste modo, os homens conseguem conviver sem se agridam mutuamente. O
colunista social sempre fez a mediação entre os que queriam ser vistos e os que
desejavam ver. Na era digital, cada um mostra a si. O que fará o colunista
social?
Há no colunismo
social, uma espécie de exibição pública daqueles que são vistos como os mais
refinados na posse e uso dos hábitos socialmente desejáveis. E o estranhamento
diante dos que tentam viver o glamour da vida burguesa, sem estarem
efetivamente preparados para tanto.
Todos podem ter
seus 15 minutos de fama, como vaticinou Andy Wharol na segunda metade do século
XX. Esta é uma das grandes novidades da era digital que estamos vivendo. Todos
criam e demonstram aos demais o seu próprio glamour, sem que haja necessidade
de um árbitro chamado colunista social.
Afinal, aquele que
não é portador do padrão de comportamento aceito como o mais refinado, é visto
com estranheza em determinados grupos. Há um padrão a ser seguido por todas as
pessoas, o que evidencia a necessidade de registrar o comportamento social, de
há muito. Agora isto está ao alcance de todos – ricos e pobres, sem qualquer
intermediação.
De um modo geral,
no Brasil não há uma tradição forte mais enraizada de dedicar estudos
acadêmicos ao tema do colunismo social, muito embora não exista qualquer tipo
de dúvida quanto ao fato de as práticas do jornalismo serem objeto científico
em diversos campos de estudo.
O jornalismo em si
já constitui mesmo um campo de estudos que possui padrões próprios e categorias
de análise específicas, tendo se desprendido das ciências sociais e obtido
reconhecimento nos cursos de comunicação social em diferentes países do mundo.
De acordo com o
pesquisador José Marques de Melo, em seu livro JORNALISMO OPINATIVO: GÊNEROS
OPINATIVOS NO JORNALISMO BRASILEIRO, aquilo que no Brasil é denominado nos
estudos universitários como Comunicação Social, os alemães costumam denominar
de Zeitungswissenschaft, os ingleses de Science of The Press e os
franceses de Science de La Presse (p. 14).
Segundo o mesmo
autor, as discussões sobre a possibilidade de uma ciência do jornalismo estão
postas desde que, em 1690, Tobias Peceur obteve o título de doutor, em Leipzig,
com uma tese intitulada DE RELATIONIBUS NOVELLIS (p. 210). Contudo,
depois desse trabalho, uma nova tese acadêmica sobre jornalismo somente
apareceria em 1907, quando o alemão Karl D’Esther defendeu o seu trabalho na
Universidade de Münster. O mesmo José Marques Melo apresentou uma série de
textos importantes sobre o tema que povoam a bibliografia brasileira desde o
início do século XX (p. 15).
Os estudos sobre a
história da imprensa indicam que os primeiros registros da prática jornalística
como relações, avisos, gazetas, começaram a circular a partir do século XV e
cresceram quantitativamente na centúria seguinte, em face da necessidade de
informações que tinham os habitantes do espaço urbano. Novamente foi José
Marques de Melo que chamou a atenção para o fato de que, no mesmo espaço, o Rei
precisava divulgar os seus feitos e os súditos demandavam conhecimento acerca daquilo
que dizia respeito aos negócios do governo e aos hábitos da realeza e como as
pessoas deveriam se comportar diante do rei (p. 19).
O século XVII
conheceu as primeiras publicações periódicas impressas regulares e estas tinham
muito de crônica social. Noticiar e comentar sobre os hábitos do rei e dos seus
súditos, bem como os padrões da vida burguesa, prosperou como gênero no
jornalismo e no mercado editorial. O gênero deu certo.
Atualmente, os
títulos de trabalhos preocupados com as regras de comportamento social
congestionam os catálogos das editoras e as prateleiras das livrarias, da mesma
maneira que as colunas sociais ocuparam um importante espaço nos jornais e
revistas. Espaço utilizado de maneira mais ampla, com preocupações com a
natureza da informação e das fontes, de modo coerente com as regras do
jornalismo. Contudo, a primeira função histórica da "coluna social"
foi mesmo a de consagrar o estilo de vida do homem burguês, das suas elites.
O primeiro jornal
que circulou em Aracaju foi o Correio Sergipense, em 19 de março de 1855. Tinha
uma tiragem de 300 exemplares, circulava três vezes por semana e era impresso
na Tipografia Provincial. O segundo jornal foi O Progresso, que circulou a
partir de sete de fevereiro de 1857, na tipografia particular de B. J. J.
Guedes, a primeira da capital sergipana destinada a edição de jornais, revistas,
livros e encadernações.
Depois vieram
Aurora Sergipana, em 1857, A Época e A Borboleta, em 1859. Em 1866 surgiu o
Jornal de Sergipe, órgão político, porta voz do Partido Liberal, dirigido por
José Fiel de Jesus Leite, que foi um dos destacados bacharéis da Faculdade de
Direito de Recife e Olinda, a chamada Escola do Recife. O jornal foi contratado
para publicar os atos oficiais da Província e funcionou, com alguns claros, até
1906.
O Liberal, editado
em 1868 tinha como redator o Dr. José de Barros Pimentel e era órgão
político-partidário, liberal, enquanto O Conservador, do mesmo ano, redigido
por Manoel Luiz Azevedo de Araújo, representava o Partido Conservador. Em 2005,
o jornal Correio de Sergipe publicou em CD Room um trabalho de Luiz Antônio
Barreto sob o título ARACAJU: 150 ANOS DE HISTÓRIA, no qual ele informa que o
mesmo Manoel Luiz se tornou proprietário e principal redator do Jornal do
Aracaju, que circulou entre 1870 e 1879.
27 outros jornais
foram criados na década de 70 do século XIX, dentre eles O Bouquet, uma
"revista literária e recreativa", redigida por senhoras. Na década de
80 do século XIX apareceram 43 periódicos. Francisco José Alves fundou o jornal
O Libertador, em 1880, editando-o até 1885. Em 1882, o mesmo Francisco José
Alves passou a editar O Descrido, enquanto o jornal Luz Matinal tinha entre
seus redatores o bacharel e crítico Prado Sampaio. O jornal O Republicano tinha
como redator o professor Brício Cardoso.
Em todos estes
periódicos, a prática do gênero que pode ser chamado de colunismo social é mera
eventualidade que aparece excepcionalmente. Não era possível falar de publicação
regular de coluna social.
*Jornalista, professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação.

Comentários
Postar um comentário