Pular para o conteúdo principal

PARA ONDE VAI A COLUNA SOCIAL? XI

                                                      Thais Bezerra


 

 

Jorge Carvalho do Nascimento*

 

 

Ao publicar a sua primeira coluna ao retornar a escrever na Gazeta de Sergipe, Pedrito Barreto deixou claro como conduziria o seu trabalho editorial. “Depois de sete anos afastado da imprensa, pediram para escrever sobre o SALÃO DE ARTES PLÁSTICAS DO VII FESTIVAL DE ARTE DE SÃO CRISTÓVÃO - FASC. Daí surgiu o convite para assinar uma coluna diária, ou semanal, aqui na GAZETA DE SERGIPE. Preferi uma coluna aos domingos, variada, sobre sociedade, política, artes, literatura, enfim uma coluna onde eu possa divulgar, comentar, e até criticar. A crítica será construtiva, naturalmente! Quando somente se elogia, as falhas ficam encobertas, os erros continuam...”

Era o toma de coluna que fazia críticas ao prestigiado restaurante Adega do Antônio, por haver manifestado estranhamento com um cliente que após degustar o primeiro gole de uma garrafa de vinho aberta recusou a bebida; que registrava elogiosamente a inauguração da boate 147, do jornalista Luiz Adelmo, na Atalaia; que comentava a breve inauguração do novo Terminal Rodoviário de Aracaju e as obras de terraplanagem na interseção das avenidas Desembargador Maynard e 31 de Março para construção do acesso ao campus da Universidade Federal de Sergipe; registrava os artistas plásticos que participariam da exposição coletiva de Natal da Galeria Horácio Hora; as bodas de um casal do high Society; uma nova linha de ônibus Aracaju-Paulo Afonso; uma exposição do artista plástico José de Dome; as esculturas de Nina Nakanishini e o trabalho de Lânia Duarte no Salão de Artes Plásticas do FASC; e um novo edifício de apartamentos em Aracaju. Enfim, uma coluna social bem ampla, uma revista de variedades.

O sucesso de colunas como PEDRITO BARRETO, GENTE JOVEM, assinada por Thais Bezerra, e GENTE, sob a responsabilidade de Leilinha Leite, levara, a Gazeta de Sergipe a colocar em circulação, a partir da edição do dia quatro de fevereiro de 1979, o suplemente dominical GAZETINHA. Eram oito páginas. A capa sempre bem ilustrada com uma das marcas que Thais estabeleceu em seu jornalismo. A foto de uma jovem bonita, trajando biquini, de corpo inteiro, que a jornalista entrevistava sobre os projetos de vida juvenis. Fazia muito sucesso e as jovens das famílias mais influentes se engalfinhavam para conceder entrevista a Thais e posar para as lentes de Lineu Lins e de Osmar. A página dois continha uma coluna sobre cinema e outra sobre televisão, ambas sem assinatura. A coluna PEDRITO BARRETO ocupava a página três. As páginas quatro e cinco eram ocupadas pela coluna GENTE JOVEM, de Thais Bezerra. A coluna VITRINE, dedicada a promoção comercial, principalmente de boutiques, assinada por Elizabeth Rose, ocupava a página seis. A página sete abria dois espaços. Em um deles a coluna de moda IN FASHION IPANEMA, assinada por Décio Fonseca. Na outra metade da página eram publicados contos, um a cada semana, assinados por autores que se revezavam. A página oito era sempre ocupada por curtos ensaios que abordavam temas da Literatura, da História da Filosofia. Os autores também se alternavam a cada domingo.

A coluna GENTE, de Leilinha Leite, circulou pela ultima vez no dia 29 de fevereiro de 1980. O sucesso da coluna de Pedrito Barreto levou a Gazeta de Sergipe a publica-lo diariamente a partir da edição de primeiro de março daquele ano. Todos os dias a Gazeta publicava PEDRITO BARRETO e aos domingos, no suplemento GAZETINHA, circulava a coluna PEDRITO BARRETO ESPECIAL.

A GAZETINHA perdeu Thais Bezerra no dia 12 de abril de 1981, quando ela publicou a coluna GENTE JOVEM pela última vez. Não houve no jornal qualquer registro de que ela estava se afastando do periódico. Muito menos na coluna de Thais foi publicada qualquer nota de despedida assinada por ela.

O sucesso editorial e comercial da coluna GENTE JOVEM, uma espécie de carro chefe do caderno GAZETINHA levou o Jornal da Cidade a convidar Thais Bezerra a assinar um caderno semanal de 16 páginas tendo por título o seu próprio nome. A proposta editorial e financeira do Jornal da Cidade lhe era bem mais vantajosa profissionalmente que as condições de trabalho que tivera até então na Gazeta de Sergipe.

Aquela menina de 19 anos que estreara no dia 17 de setembro de 1978 por sugestão do teatrólogo Jorge Lins ao jornalista Ivan Valença estava deixando de existir. Os medos, os receios naturais da inexperiência e as apostas ousadas que fizera haviam transformado Thais Bezerra aos 22 anos de idade numa jornalista madura, competente, admirada, temida e respeitada. Uma profissional qualificada, distante da menina que estreara.

A aracajuana Thais Álvares Bezerra ganhara independência e não mais dependia dos seus país, Álvaro Bezerra, o caixa executivo do Banco do Brasil, e Josepha Álvares Bezerra, técnica da Justiça do Trabalho. Prosperara e se tornara a figura de maior proeminência dentre os oito filhos de Álvaro (quatro do primeiro casamento e quatro do casamento com Josepha). A mãe, filha da chamada classe médias alta, órfã do pai, odontólogo, criada pela tia Laura Amazonas, a primeira cirurgiã-dentista de Sergipe.

A menina crescera e fora criada se relacionando com o mar de Aracaju. Primeiro em um sobrado da Praia 13 de Julho, onde seu pai (marceneiro, antes de ser bancário) construíra um barco da classe snipe para a flotilha do Iate Clube de Aracaju. Depois, a família mudou para a rua Cedro. A casa que adquiriram naquele local foi obra do construtor João Alves, na região para a qual a cidade se expandia no final da década de 60 do século XX. Quando não estava na Praia 13 de Julho, Thais podia ser encontrada na Chácara Aloha, o sítio que a família possuía na praia de Atalaia, para onde mudavam e permaneciam durante três meses veraneando, a cada final de ano. Algumas vezes visitava o sítio do avô, o Vovô Bezerra, no bairro Santo Antônio.

O aracajuano Álvaro casara pela primeira vez no Rio de Janeiro, muito jovem, aos 17 anos de idade, se divorciou e regressou a Sergipe, onde conheceu Josepha e viveu com ela uma sociedade de fato até a vigência da lei do divórcio, quando casaram com as filhas já entrando na idade adulta.

Como em todas as famílias das camadas médias, as filhas de Álvaro e Josepha foram educadas compartilhando a responsabilidade das tarefas domesticas. Aprenderam a correr atrás das demandas da vida desde pequenas. Thais frequentou o Jardim de Infância Augusto Maynard, o Colégio Brasília, o Colégio de Aplicação e por fim a Faculdade de Química da Universidade Federal de Sergipe.

O sucesso no jornalismo levou Thais a abandonar o curso de Química depois de haver estudado durante três anos e faltando apenas mais um ano para colar grau. Além de jornalista, aos 23 anos era servidora pública estadual. Como jornalista foi beneficiada pela lei que regulamentou a profissão e no início da década de 80 do século XX ganhou o título e as prerrogativas do exercício profissional do jornalismo.

  

*Jornalista, professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação.
 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A MORTE E A MORTE DO MONSENHOR CARVALHO

  Jorge Carvalho do Nascimento     Os humanos costumam fugir da única certeza que a vida nos possibilita: a morte. É ela que efetivamente realiza a lógica da vida. Vivemos para morrer. O problema que se põe para todos nós diz respeito a como morrer. A minha vida, a das pessoas que eu amo, a daqueles que não gostam de mim e dos que eu não aprecio vai acabar. Morreremos. Podemos mitologizar a morte, encontrar uma vida eterna no Hades. Pouco importa se a vida espiritual nos reserva o paraíso ou o inferno. Passaremos pela putrefação da carne ou pelo processo de cremação. O resultado será o mesmo - retornar ao pó. O maior de todos os problemas é o do desembarque. Transformamo-nos em pessoas que interagem menos e gradualmente perdemos a sensibilidade dos afetos. A decadência é dolorosa para os amigos que ficam, do mesmo modo que para os velhos quando são deixados sozinhos. Isolar precocemente os velhos e enfermos é fato recorrente, próprio da fragilidade e das mazelas da socied...

O EVERALDO QUE EU CONHECI

                                                                Everaldo Aragão     Jorge Carvalho do Nascimento     Em agosto de 1975 fui procurado pelo meu inesquecível amigo Luiz Antônio Barreto para uma conversa. À época, Luiz exercia o cargo de chefe da Assessoria para Assuntos Culturais da Secretaria da Educação e Cultura do Estado de Sergipe e eu trabalhava como redator de noticiários da TV Atalaia, o recém inaugurado Canal 8. Luiz me fez um convite para uma visita ao Secretário da Educação e Cultura do Estado de Sergipe, Everaldo Aragão Prado. Eu não o conhecia pessoalmente. Como jornalista, eu sabia dele na condição de personalidade pública. A sua fama era de homem carrancudo, muito sisudo e rigoroso. Fiquei surpreso com o convite. Não entendi porque poderia haver da parte de Everaldo interesse em faz...

O LEGADO EDUCACIONAL DE DOM LUCIANO JOSÉ CABRAL DUARTE

  Jorge Carvalho do Nascimento     A memória está depositada nas lembranças dos velhos, em registros escritos nas bibliotecas, em computadores, em residências de particulares, em empresas, no espaço urbano, no campo. Sergipe perdeu, no dia 29 de maio de 2018, um dos seus filhos de maior importância, um homem que nos legou valiosos registros de memória que dão sentido à História deste Estado durante a segunda metade do século XX. O Arcebispo Emérito de Aracaju, Dom Luciano José Cabral Duarte, cujo centenário de nascimento celebramos em 2025, foi uma das figuras que mais contribuiu com as práticas educacionais em Sergipe, sob todos os aspectos. Como todos os homens de brilho e com capacidade de liderar, despertou também muitas polêmicas em torno do seu nome. Ao longo de toda a sua vida de sacerdote e intelectual da Educação, Dom Luciano Duarte teve ao seu lado, como guardiã do seu trabalho e, também da sua memória, a expressiva figura da sua irmã, Carmen Dolores Cabral Duar...