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PARA ONDE VAI A COLUNA SOCIAL? XII


 

 

Jorge Carvalho do Nascimento*

 

 

Faltou pouco para a colunista social Thais Bezerra desistir do jornalismo durante o seu primeiro ano de atividade. Jornalistas publicam coisas que agradam a algumas pessoas e desagradam a outras. Ela foi processada pela primeira vez aos 20 anos de idade, o pai manifestou desejo de que ela desistisse da atividade, mas Thais recebeu forte apoio da sua mãe que, talvez até pela sua atividade de serventuária da Justiça, acostumada a lidar com trâmites processuais.

Thais não desistiu e Josepha, a sua mãe, conseguiu convencer o seu pai, Álvaro. A própria jornalista, em recente depoimento que publicou na edição de 29 de agosto de 2020, comemorativa dos seus 42 anos de jornalismo, no caderno THAIS BEZERRA, do Jornal da Cidade, deu um depoimento esclarecedor sobre o processo.

“TEMPOS SOMBRIOS.

O ano era 1978, já tinha catorze anos de ditadura militar brasileira, regime instaurado em primeiro de abril de 1964. Quando eu iniciei no jornalismo já tínhamos passado por sucessivos governos militares, autoritários e com falso nacionalismo. O presidente era Ernesto Geisel, cujo governo tentou iniciar uma abertura política e uma certa amenização de toda repressão imposta pelos militares, mas encontrou forte oposição de políticos, os famosos linha-dura.

Ainda estava a todo vapor uma aberração chamada Ato Institucional nº 5, o AI-5, baixado em 13 de dezembro de 1968 pelo governo do general Costa e Silva. Foi o pior de todos os Atos produzidos pela Ditadura. Vigorou pesadamente fazendo atrocidades, terrorismo, sumiço de pessoas e mortes dos que eram contrários ao regime, até dezembro de 1978.

Tais ações arbitrárias e de efeitos duradouros não podiam ser relatadas pelos jornalistas. Havia um absurdo chamado censura. Funcionava assim: algumas instituições se negavam e passavam suas matérias pelo crivo dos censores, enquanto outras se comprometiam a escrever e jamais tocar em determinados assuntos.

GERAÇÃO TRAUMATIZADA

Faço questão de relembrar esse tenebroso momento histórico que a minha geração (Baby Boomer, dos nascidos entre 1940 e 1960) teve o desprazer de conviver. Acredito que seja excelente relembrar ou talvez eu queira contar às pessoas que não era nada fácil viver nos anos de chumbo e ainda escrever num impresso. Entre os absurdos nesse momento de pandemia pela COVID-19, vi cartazes e manifestações pedindo o retorno do AI-5. Nesse depoimento inédito falo de uma das atrocidades que vivi. Nada perto do que passou com vários colegas por todo país, que simplesmente desapareceram ou foram barbaramente torturados ou perderam a vida nos famosos porões do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS). Quero também que sirva para mostrar que a polarização da política, radicalismo e qualquer regime totalitário nada acrescentaram à história do Brasil.

COAGIDA POR PODEROSOS

Pulo para 1979. Estava em outro trabalho, numa repartição pública, quando fui avisada que um oficial de Justiça e um policial federal exigiam falar comigo. Tinha apenas 20 anos, muita juventude e nunca tinha acontecido nada parecido. Estranhando tal situação, contei com um anjo, que era meu chefe, que desconfiado dos absurdos e dos desmandos do regime se predispôs a me levar a determinado local onde deveria estar presente para bater um papo com uma autoridade.

Ao chegar no prédio, começaram a abrir a caixinha de maldades. Me proibiram de entrar no elevador e subimos seis andares no prédio”. Submetida a interrogatória que tentava pressioná-la a revelar suas fontes, a jornalista permaneceu em silêncio, mas terminou amargando as agruras de um processo judicial.

Thais entende que é função dos jornalistas denunciar “e algo muito podre estava acontecendo em todo o país. TB sempre apurou a notícia e acreditou que o cidadão tem direito, precisa saber. É através da imprensa de responsabilidade que noticiamos o que de fato está acontecendo. Damos vozes, buscamos escutar todos os lados do caso a ser noticiado e como isso não poderia acontecer nesse período, fazíamos o uso de notas cifradas”.

O fato é que depois de algum tempo tudo foi superado e Thais não abandonou o jornalismo. A própria família não imaginava que ela se transformaria em jornalista e passaria a vida vivendo de escrever. Principalmente porque o seu espírito rebelde a fizera reagir com a disciplina que o ambiente escolar tentava impor, desde os primeiros contatos que mantivera com a instituição escolar.

Em dada ocasião dormiu durante a aula, em uma das mesinhas no Jardim de Infância Augusto Maynard. A professora a retirou da sala e a colocou de castigo na mesa de uma sala que estava desocupada. Acordou assustada e entrou em pânico. Não voltou mais ao Jardim de Infância. Retomou os estudos em uma turma do infantil do Colégio Brasília. A marca do Colégio Brasília era o rigor disciplinar. Estudante não poderia errar. O comportamento deveria ser impecável, tal qual o uniforme escolar. Isto era marcante.

Depois de sete anos no Colégio Brasília ingressou no Ginásio de Aplicação da Universidade Federal de Sergipe, onde também permaneceu durante sete anos. No Ginásio de Aplicação se aprendia o exercício do autogoverno. Os estudantes gozavam da sensação de liberdade, começavam a ter personalidade. A escola ensinava o jovem a ter responsabilidade, a ter limites.

Ao concluir o curso científico, se submeteu ao concurso vestibular da UFS e foi aprovada para o curso de Química, aos 17 anos de idade. Mas, só fez matrícula no curso um ano e meio depois.

Logo após a aprovação no concurso vestibular viajou para Porto Alegre onde ficou durante um ano e meio. Viajou sob o pretexto de se submeter ao concurso vestibular para o curso de Arquitetura. Morou na casa de um irmão da sua mãe, o tio Ataliba. Família grande, nove primos na capital do Estado do Rio Grande do Sul. Quase todos já casados, à exceção de Laura, uma prima da sua idade

Trabalhou como secretária da escola de Inglês Pink and Blue, durante três meses. Depois trabalhou com o publicitário Paulo Garaju, na premiada agência de propaganda Promox.  Regressou para Aracaju porque necessitava iniciar o curso na UFS, sob pena de perda da vaga. Em porto Alegre havia tentado duas vezes ingressar no curso de Arquitetura e não obteve êxito.

Dia 29 de julho de 1978, aniversário do seu pai, estava de volta. Começou a frequentar as aulas do Instituto de Química no dia primeiro de agosto e no dia 28 do mesmo mês recebeu de Ivan Valença, por sugestão de Jorge Lins, o convite para fazer a coluna GENTE JOVEM na Gazeta de Sergipe, estreando no dia 17 de setembro.   

*Jornalista, professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação. 

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