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PARA ONDE VAI A COLUNA SOCIAL? XIII


 

 

Jorge Carvalho do Nascimento*

 

 

Para compreender o sucesso de Thais Bezerra como colunista social é necessário sempre associar a sua condição de jornalista com a sua determinação empreendedora, capacidade que demonstrou desde a adolescência. Em 2005, no dia 14 de setembro, tive a oportunidade de entrevistar a jornalista Thais Bezerra. Foi uma longa conversa em sua residência. Naquela ocasião, a própria Thais revelou esta sua habilidade.

“Eu sempre fui uma pessoa determinada, desde pequena. Sempre gostei de crescer, de correr atrás das coisas. Meu pai dava uma mesada para nós, para mim e para minhas irmãs, mas eu não me contentava com a mesada. Eu chegava na garagem dele e o espaço estava cheio de livrinhos que ele já tinha lido. Meu pai comprava centenas de livrinhos de gibi, aqueles livrinhos de bolso, de histórias de cow-boy. Ele lia aqueles livrinhos diariamente, compulsivamente. Eu dizia: posso vender esses livrinhos no sebo? Todo mês eu vendia um pouquinho. Ia para o colégio e tinha um pouco mais de dinheiro, além da mesada. Eu já tinha uma veia comercial.

O jornal me ensinou a área comercial e a publicitária, a publicidade. Eu aprendi a vender espaços publicitários de jornal. Eu acho que eu me sobressaí na profissão porque aprendi a fazer publicidade. Sempre escrevi, mas aprendi o funcionamento da área de publicidade. Eu aprendi muito em Porto Alegre a trabalhar com isto, quando trabalhei na agência de propaganda Promox, e acho que tudo me ajudou muito”.

O ingresso de Thais no jornalismo ocorreu pela sua amizade com o seu amigo Jorge Lins, à época estudante de Direito, ator, diretor de teatro e autor de textos para o teatro, a quem ela costumava mostrar textos e poemas que escrevia. Era seu parceiro de conversas sobre festas e eventos, uma vez que Jorge era autor de uma coluna especializada no jornal Gazeta de Sergipe, no qual Ivan Valença era Secretário de Redação.

Ivan era também amigo de Thais, com quem encontrava e conversava muito no Iate Clube de Aracaju, em face da atividade de Thais como desportista. Ela jogou voleibol a partir da adolescência no Colégio de Aplicação. Foi ativa no esporte juntamente com a colega Izabel Ladeira que morava no mesmo bairro e com quem costumava brincar de patins, frequentar o Colégio de Aplicação e depois integraram juntas o time da seleção sergipana de voleibol. “Nós vivemos a infância juntas. Ela morava na rua Construtor João Alves e eu na rua Cedro”.

Thais costumava andar com a irmã Tânia, com as amigas do seu bairro, do Colégio de Aplicação e do grupo com o qual jogava voleibol. Izabel Ladeira, Márcia e Silvana Flores, Margarida e Celi Prado, Eneide e Eline Teixeira, Teresa Ester e Marta Bragança.

Além de seu grupo maior de amigos ser formado por pessoas dedicadas ao esporte, seu pai, Álvaro Bezerra era desportista e frequentava o Iate Clube juntamente com a filha com quem andava de lancha e praticavam esqui aquático. Ela era velejadora entusiasta da classe de veleiros hobie cat.  

Nos primeiros meses da coluna GENTE JOVEM e no suplemento dominical Gazetinha, passou a vender espaços publicitários do jornal, num período em que ainda era estudante de Química na Universidade Federal de Sergipe. “Em dezembro de 1978 eu entrei na Deso para fazer um estágio na área de captação de água. Estagiei no grupo que estava cuidando da construção da Adutora do São Francisco, num grupo coordenado por Sérgio Fontes. Mas, terminei me efetivando na Deso na área administrativa e abandonei o curso de Química”.

Foram o sucesso do seu trabalho e a sua capacidade como vendedora de publicidade que a levaram para o Jornal da Cidade, onde publicou o caderno THAIS BEZERRA pela primeira vez no dia 31 de maio de 1981, um domingo. O caderno continua sendo publicado até agora, todas as semanas.

Em 1988, a convite do então Superintendente Tácito Faro, Thais estreou como colunista social na TV Atalaia. A partir de 1997, e durante 11 anos, foi editora-chefe da revista Aracaju Magazine, um ousado projeto editorial. Em 1999 começou a apresentar um programa de variedades e colunismo social na TV Cidade, um canal a cabo, por assinatura, na cidade de Aracaju.

No ano de 1995, trabalhou como assessora do gabinete do então vice-governador, José Carlos Machado; e, em 2000, assessorou o deputado estadual Reinaldo Moura; foi assessora de comunicação da Secretaria de Estado da Indústria e Comércio, entre 2003 e 2005.

Para Thais Bezerra, ter ido trabalhar no Jornal da Cidade foi muito importante na sua atividade, para o seu aprimoramento profissional. “Eu adoro o que eu faço. Adoro correr atrás da notícia e lidar com as novas gerações. No Jornal da Cidade eu cresci muito porque fui muito cobrada. A rigidez a qual eu me subordinava era muito grande. Antônio Carlos Franco, o principal diretor do jornal, vivia exigindo que meu trabalho fosse cada vez melhor. Ele exigia que eu crescesse, que fizesse cada vez uma maior quantidade de notas, com melhor qualidade. Quando eu dava muita notícia com pessoas de 40, 50, 60 anos de idade, ele sugeria que eu localizasse mais jovens com 14, 15, 16, 19, 20, 25 anos e que fossem notícia e os entrevistasse. Isso manteve sempre a juventude lendo minha coluna.

Em Sergipe não havia o hábito de dar notícia sobre GENTE JOVEM e eu comecei a fazer registros, a publicar fotos com as meninas de corpo inteiro. Quando eu colocava as meninas jovens de corpo inteiro na capa do jornal, era um sucesso na cidade. A juventude, as meninas e os meninos compravam o jornal.

No Jornal da Cidade eu aperfeiçoei a minha forma de fazer jornalismo e aprendi a ganhar dinheiro como jornalista”. Segundo ela, foi no Jornal da Cidade que entendeu que os rendimentos que teria como jornalista e publicitária lhe permitiriam sobreviver com dignidade. “Eu vendo espaços publicitários porque o jornal vive de vender espaço, vender publicidade. Eu não vendo notas, eu não vendo notícias, eu não vendo entrevistas. Eu posso fazer uma entrevista de interesse público de um médico que é dono de uma clínica. É notícia porque é do interesse coletivo. Nada me impede de vender espaços de propaganda para divulgação da clínica. Propaganda. Eu não cobro por entrevistas. Mas, quando uma empresa quer fazer propaganda, eu vendo o espaço publicitário adequado.

Quem cobra por espaço publicitário é o jornal, como empresa que é. Eu sou publicitária e ganho comissão sobre a venda de espaços de publicidade. Eu sou bem clara. Eu tenho credibilidade, eu sou transparente. Eu sou empregada do Jornal da Cidade.

Se alguém chega para mim e diz que quer comprar a capa do jornal para colocar a sua foto, eu respondo: o jornal não vende a capa. Sugiro então um outro espaço publicitário que pode ser adquirido. O jornal tem uma tabela de preços de espaço, a pessoa olha a tabela e paga ao jornal pelo espaço publicitário. Se a pessoa for a notícia mais relevante do dia, como notícia, pode até aparecer na capa.”.   

Para Thais, o Jornal da Cidade foi mesmo uma grande escola. “Eu aprendi que faço um trabalho útil. É possível que alguns comentários que eu faço desagradem algumas pessoas. De um modo geral, eu divulgo o trabalho de grandes profissionais, incentivo o crescimento intelectual, social econômico de várias pessoas, faço marketing de muita gente, divulgo entidades e festas”.

Afirma ter amadurecido como jornalista naquele periódico. “No início da minha carreira, talvez em algumas oportunidades, eu tenha sido muito ferina, muito venenosa. Eu devo ter mexido muito com muitas pessoas. Com o tempo a gente vai aprendendo. Atualmente, acredito que eu publico o que precisa ser publicado, como fazem vários jornalistas, em todo lugar. Eu aprendi a fazer, por exemplo, como Ancelmo Goes faz, sem machucar as pessoas. Isto é natural em qualquer coluna social do planeta”.      

São 42 anos ininterruptos de jornalismo como colunista social de sucesso. São 39 anos no caderno THAIS BEZERRA, do Jornal da Cidade, e mais dois anos iniciais na coluna GENTE JOVEM e na Gazetinha, na Gazeta de Sergipe. Qualquer informação fica mais valorizada quando a ela se acrescenta a assinatura de Thais Bezerra. Ela sempre foi um bom exemplo de como os próprios colunistas viram notícia quando sua coluna troca de endereço, quando iniciam um novo empreendimento jornalístico.

Thais Bezerra permanece em atividade até agora. Sem dúvida é o nome mais importante e mais longevo do jornalismo sergipano como colunista social. Qualificada, competente e empreendedora soube sempre fidelizar leitores.

No momento em que Thais Bezerra chegou ao Jornal da Cidade, aquele periódico estava começando a viver o processo que o transformaria no principal veículo da mídia impressa em Sergipe, posição que fora ocupada pela Gazeta de Sergipe durante 30 anos, nas décadas de 50, 60 e 70 do século XX.

 

*Jornalista, professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação.


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