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A MULHER VAI À ESCOLA


  

 

Jorge Carvalho do Nascimento*

 

 

É possível afirmar que desde a fundação da cidade de Aracaju, em 1855, até o terceiro quartel do século XX, a educação feminina buscou primordialmente difundir junto às mulheres padrões europeus de refinamento civilizatório. Ao longo da vigésima centúria, disciplinas como Moral e Cívica priorizavam o ensinamento das coisas práticas da vida que a mulher tinha necessidade de compreender, tais como os modos adequados de sentar, falar, servir e servir-se à mesa. A preocupação central era com a etiqueta, com a arte de portar-se bem.

Apesar do crescimento do número de escolas femininas ao longo das últimas décadas do período do Império, mesmo com a implantação de escolas mistas, era muito frequente nos discursos oficiais daquele período a afirmação de que as mulheres deveriam ser mais educadas do que instruídas.

Tais ideias estão presentes em um importante artigo da pesquisadora Guacira Lopes Louro: “Mulheres na Sala de Aula”. O texto da autora paranaense foi publicado no livro História das Mulheres no Brasil, organizado pela historiadora Mary Del Priore. Como demonstrado por Guacira Lopes Louro, a ênfase da escolarização deveria recair mais sobre a formação moral e a constituição do caráter. Afinal o destino socialmente construído para as mulheres, como boas esposas e mães exemplares, exigia nada mais que uma moral sólida e bons princípios.

O estudo de alguns conteúdos, até a década de 60 do século XX, era considerado perigoso e pouco adequado à formação feminina. O debate de questões como aquelas presentes no programa de História Natural remetia ao estudo da Anatomia e Fisiologia Humanas. E tais conteúdos escandalizavam os padrões morais vigentes.

As aulas do professor Helvécio de Andrade, na Escola Normal de Aracaju, eram consideradas, durante as primeiras décadas do século XX, de conteúdo picante para os padrões morais da época. A revelação foi feita à pesquisadora Anamaria Gonçalves Bueno de Freitas por uma ex-aluna daquele docente que Anamaria entrevistou.

A entrevista foi publicada por Anamaria no livro Vestidas de Azul e Branco. O trabalho entrou em circulação no ano de 2003 (p. 117-118). Afirma a entrevistada: “Dr. Helvécio de Andrade escandalizando-nos quando, pelo imperativo do programa a obedecer a matéria que ensinava, História Natural, entrava em certas particularidades, aliás superficialmente, ao descrever o corpo humano, seus órgãos e respectivas funções. As mocinhas de hoje ouviriam com muita naturalidade e interesse até como o fazem com ensinamentos muito mais explicativos e profundos, mas as de ontem, ignorantes de tudo que se relacionasse ao sexo e, se soubessem algo, a pudícia não lhes permitiria exteriorizar, coravam e reprovavam entre si os ensinamentos do Mestre, que taxavam de indecente”. 

Mesmo após uma reforma curricular ocorrida na década de 1930, quando a disciplina recebeu a denominação de Higiene e Saúde, o conteúdo ministrado era tido por várias famílias como inconveniente. Segundo a mesma ex-aluna entrevistada por Anamaria Buenos de Freitas, “muitos pais achavam que as filhas não deviam assistir essas aulas, porque” não eram pornográficas, mas transmitiam conteúdo “que as donzelas não deviam ouvir” (p. 118).

As oportunidades educacionais femininas de iniciativa do poder público começaram a se expandir em Aracaju logo após a instalação da nova capital. Entre 1855 e 1871 foram criadas três aulas públicas destinadas ao ensino primário feminino. No trabalho aqui já citado de Anamaria Gonçalves Buenos de Freitas se esclarece que “a primeira delas foi provida pela professora Josefa Maria Trindade e começou a funcionar em 1855” (p. 40). Tal mestra, além de ministrar os conteúdos previstos no currículo, também preparava suas alunas para o magistério.

Treze anos depois, em 1868, foi criada a segunda aula, sob a responsabilidade da professora Ana Saturnina de Rezende Mundim. A terceira aula começou a funcionar em 1870, tendo como regente a professora Francina da Glória Muniz Teles.

 

 

*Jornalista, professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação.

Comentários

  1. Ah, como me encantam esses registros de séculos passados! Muita coisa aprendi com a minha mãe, a Professora Maria Lima Meneses, formada pela antiga Escola Normal. Ela narrava tantas passagens de sua vida de aluna e também de professora da mesma escola onde estudou. Tudo tão encantador e diferenciado. A gente fica em meio a um conflito, as heranças culturais e a evolução que cria novos contextos aos quais precisamos nos ajustar. Que bom tudo isto que li no seu texto.

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