Papa Pio IX
Jorge Carvalho do Nascimento*
Não sou exatamente o que se possa considerar um militante da fé católica, mas no catolicismo fui batizado e pela minha avó materna prometido para o sacerdócio. Como já confessei em outras ocasiões, terminei frustrando a promessa de Dona Petrina. Contudo, tenho o hábito de prestar muita atenção nas datas e fatos que considero relevantes para o catolicismo e para o protestantismo.
Como observador, me chamou a atenção o fato de não ter visto grandes celebrações por parte da Cúria Romana para marcar os 150 anos de encerramento do Concílio do Vaticano. O conclave foi instalado em dezembro de 1869 e encerrado em outubro de 1870.
Convocado pelo Papa Pio IX como reação ao Racionalismo e ao Galicanismo que se expandiram durante a segunda metade do século XIX, expressava a preocupação da cúpula da Igreja com estes dois movimentos de ideias, considerados ameaçadores à autoridade papal.
O Racionalismo, que tomou conta de toda a Europa ao longo dos séculos XVII e XVIII, no século XIX estava presente de modo muito forte nas principais discussões de distintos grupos católicos e ombreava com o Galicanismo. O Racionalismo elegeu a razão como fonte principal e única base de valor do conhecimento humano, secundarizando a fé.
O Galicanismo defendia a subordinação da autoridade da Igreja ao poder do Estado e a limitação do poder papal em face da hierarquia eclesiástica de cada país. Tal polêmica fora vivida intensamente pelos brasileiros durante o Segundo Império, com a chamada questão religiosa, quando o Imperador Pedro II mandou colocar na cadeia o Bispo de Olinda, Dom Vital, e o Bispo do Pará, Dom Antônio Macedo Costa.
Além do Racionalismo e do Galicanismo, uma outra questão incomodava muito a hierarquia católica durante a segunda metade do século XIX: a expansão do Protestantismo, principalmente em países da América Latina, como o Brasil, o Chile, o México e a Argentina.
O Concílio do Vaticano aprovou a Constituição Dogmática Dei Filius e também a Constituição Dogmática Pastor Aeternus. O Pontífice Romano foi reafirmado como autoridade suprema da Igreja e também foi ratificada a infalibilidade papal.
Pio IX (1846-1878) foi sucedido no governo da Igreja por Leão XIII (1878-1903) e este por São Pio X (1903-1914). O Papa Pio X foi extremamente proativo, buscando sanar várias questões que preocupavam os católicos desde o Concílio do Vaticano, em 1870, principalmente a expansão protestante na América Latina.
Ele redigiu pessoalmente um Catecismo que buscava tornar mais acessível aos adolescentes o Cristianismo difundido pela Igreja Católica. Para tornar o governo da Igreja mais eficaz e mais próximo dos cristãos criou, no Brasil, sete novas Dioceses durante o seu Pontificado: Cajazeiras, no Estado da Paraíba; Taubaté, em São Paulo; Ilhéus, Barra e Caetité, na Bahia; Campanha, em Minas Gerais; e, Aracaju, em Sergipe.
Dom José Thomas Gomes da Silva, o primeiro Bispo de Aracaju, instalou a Diocese em 1911 e adotou algumas medidas importantes para uma maior difusão do pensamento católico em Sergipe. O seu projeto incluiu a criação de uma elite de intelectuais difusores do Catolicismo.
Seguindo os padrões que a Igreja Católica adotara a partir do Concílio do Vaticano, uma das principais estratégias do catolicismo brasileiro foi também a difusão de novas instituições educativas e instituições culturais a exemplo de jornais, associações, emissoras de rádio e irmandades.
Inicialmente, Dom José Thomas fundou o Seminário, destinado a preparar os meninos com pendores para as vocações sacerdotais, instalado em 1913. Em 1918 começou a circular o jornal A Cruzada, semanário mantido pela Diocese de Aracaju, destinado também à difusão do pensamento católico.
Dom Fernando Gomes, sucessor de Dom José Thomas e segundo Bispo da Diocese de Aracaju, foi o responsável pela criação do jornal A Defesa (1949), em Propriá, e da Faculdade Católica de Filosofia de Sergipe – Fafi, em 1951. O terceiro Bispo de Aracaju, Dom José Vicente Távora, criou, em 1959, a Rádio Cultura de Sergipe, cujos propósitos estavam muito bem definidos em seu slogan: “uma emissora católica nos céus do Brasil”.
Tudo isto sem falar da rede de colégios católicos implantados em todo o Estado de Sergipe, ao longo do século XX, a saber: Colégio Nossa Senhora de Lourdes (1903), Colégio Salesiano Nossa Senhora Auxiliadora (1909), Oratório Festivo São João Bosco (1914), Ginásio Nossa Senhora das Graças, em Propriá (1915), Colégio Imaculada Conceição, em Capela (1929), Colégio Sagrado Coração de Jesus, em Estância (1936), Colégio Patrocínio de São José (1940), Ginásio Santa Teresinha, em Boquim (1947) e Colégio Nossa Senhora da Piedade, em Lagarto (1947).
Certamente, todas essas iniciativas foram muito produtivas para a difusão do pensamento católico em Sergipe. Contudo, será necessário, em 2021, quando da celebração dos 110 anos da instalação da Diocese de Aracaju, colocar numa posição de relevo quatro intelectuais sergipanos que ao longo do século XX assumiram tarefas relevantes para o catolicismo em Sergipe.
Foram importantes agentes políticos do catolicismo, essenciais para a formação dos quadros que difundiram as ideias católicas. Por isto, a Igreja não pode deixar de homenageá-los pela contribuição que ofereceram como professores, filósofos e sociólogos que foram. Refiro-me a José Amado Nascimento, José Silvério Leite Fontes, Manoel Cabral Machado e Luiz Rabelo Leite. Os quatro integram o panteão de imortais da Academia Sergipana de Letras, foram professores da Universidade Federal de Sergipe e deixaram uma vasta obra publicada que merece reedição.
Quem sabe, o bispo de Aracaju, Dom João José Costa e alguns sacerdotes de maior projeção como eruditos, a exemplo dos padres José Lima Santana (este, também membro da Academia Sergipana de Letras e da Academia Sergipana de Educação ) e Valtewan Correia Cruz poderiam liderar um movimento que resultasse na organização e publicação de uma coleção de livros cujo título tomo a ousadia de sugerir: O Pensamento Católico em Sergipe. Poderiam, inclusive, convidar como parceiros duas instituições da cultura de Sergipe que pela sua natureza sempre contribuem para a difusão das ideias: a Universidade Tiradentes e a Universidade Federal de Sergipe.
*Jornalista, professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação.

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