Jorge
Carvalho do Nascimento*
Milton Ramon Pires
de Oliveira publicou em 2003, pela EDUSF, o livro Formar cidadãos úteis. Ele
entendia, à época, que o conhecimento a respeito dos patronatos agrícolas ainda
era muito limitado, sendo reduzida a contribuição que se oferecia à compreensão
do seu perfil e da sua trajetória.
Assim, criticou o
estudo de Cynthia Greive Veiga e Luciano Mendes de Faria Filho (Infância no
sótão, Belo Horizonte, Autêntica, 1999). Cynthia Greive Veiga e Luciano Mendes de
Faria Filho assumiram, diante do problema, posição idêntica àquela defendida
por Jorge Nagle, no texto “A educação na Primeira República”, que publicou em
1975 no tomo III da História Geral da Civilização Brasileira, interpretando o
ensino profissional como prática escolar dirigida aos pobres de um modo geral.
Milton Ramon Pires
de Oliveira dirigiu, também, críticas ao estudo de Marcos Luiz Bretas (Ordem na
cidade, Rio de Janeiro, Rocco, 1997), quando este “menciona os patronatos
agrícolas, demonstrando surpresa com a situação encontrada nos documentos que
recorreu para sua pesquisa” (p. 19).
Para compreender o
significado do ensino agrícola nas décadas de 1910 e 1920 é necessário buscar o
processo de separação entre o ensino profissional e a assistência à infância
pobre e desamparada. Segundo Mirian Warde, as escolas profissionais “foram
depositárias de propostas de modernização dos processos de preparação ou
formação para o trabalho nas quais registram-se apropriações peculiares de
diferentes padrões norte-americanos de articulação entre educação e trabalho”
(“Americanismo e Educação: a fabricação do homem novo” – Projeto de pesquisa,
São Paulo, PUC, 2001).
Durante o governo
de Nilo Peçanha, essa temática ganhou importância, através da criação, em 1909,
das Escolas de Aprendizes Artífices em todo o Brasil. Em 1910 algumas escolas
já estavam em funcionamento, destinadas ao ensino profissional primário gratuito,
sob a responsabilidade do Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio.
As medidas tomadas
pelo presidente Nilo Peçanha começaram a ter reflexos nos diversos Estados
brasileiros. A Escola de Aprendizes Artífices do Estado de Sergipe foi
implantada em maio de 1911. Além da criação desta escola federal, as primeiras
medidas tomadas pelo próprio Estado de Sergipe para a institucionalização do
ensino profissionalizante ocorreram no final do governo do presidente Pereira
Lobo com a criação, em 1922, do Liceu Profissionalizante Coelho e Campos.
O presidente
Graccho Cardoso ampliou essa iniciativa através da implantação do ensino
comercial, com a criação da Escola de Comércio Conselheiro Orlando. Continua a
ser muito importante a produção de estudos que analisem a trajetória histórica
do atual Campus São Cristóvão do Instituto Federal de Sergipe, antiga Escola
Agrotécnica Federal de São Cristóvão.
Desde a sua
implantação, como Patronato São Maurício, em 1924, a instituição foi portadora
de vários projetos. Ainda há necessidade de aprofundar os estudos a respeito do
entendimento dos diferentes projetos e das práticas escolares mais importantes
que, ao longo de 96 anos, marcaram a atuação daquela instituição destinada a
difusão do ensino agrícola.
Segundo Sônia
Regina Mendonça, as duas vertentes principais direcionadoras do discurso a
respeito dos polos em torno dos quais gravitava o debate acerca do ensino agrícola
tinham como fundamentos filosóficos “as concepções das elites sobre as relações
sociais: a vertente iluminista, que concebia a educação como instrumento de elevação
social, e a autoritária, que definia os conflitos interclasses sociais como
afetos às forças repressivas” (O ruralismo brasileiro, São Paulo, Hucitec,
1997).
O estudo a respeito
do ensino agrícola tem criado possibilidades de uma melhor compreensão a respeito
do vigoroso debate educacional que se instalou no Brasil durante a segunda
metade do século XIX e persistiu, atravessando as primeiras décadas do século
XX.
Um debate que
reunia juristas, políticos, médicos, clérigos, militares e professores, dentre outros.
Todos eles buscando apoiar-se em preceitos cientificistas. No dizer de Vera
Regina Beltrão Marques, “tratava-se, antes de tudo, de uma verdadeira cruzada
civilizatória a que se atiravam os eugenistas, estes arautos dos tempos
modernos. Na sua missão, ocuparam todos os espaços possíveis: as academias
médicas, as sociedades filantrópicas, as casas legislativas, as escolas, as
delegacias de polícia, os tribunais de justiça, estabelecendo uma verdadeira
rede de solidariedade entre discursos, instituições e personagens, entre estes
o médico, o pedagogo, o jurista, os agentes do controle social repressivo, a
dona de casa, o pai preocupado com o destino de sua prole” (A medicalização da
raça, Campinas, Editora Unicamp, 1994).

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