Jorge
Carvalho do Nascimento*
Exercer
o jornalismo é encontrar diariamente oportunidades de aprofundar o
conhecimento, de descobrir novos saberes. Este é o entendimento do jornalista Paulo
Nou sobre a sua prática de profissional como colunista durante os anos em que
atuou na Gazeta de Sergipe e no jornal Diário de Aracaju.
O jornalista revela que era muito difícil nas
décadas de 60 e 70 do século XX levantar diariamente informações capazes de
manter o noticiário das colunas sociais publicadas na mídia impressa do Estado
de Sergipe. Conta que, à época, a cidade de Aracaju mal saíra de uma rotina muito
limitada.
Paulo
Nou relata detalhadamente a rotina dos jovens filhos da elite local. “A vida
social se restringia a comparecer nos finais de semana a sessão da tarde do
cinema Palace, depois ir à Sorveteria Yara e por último assistir à missa das seis
da tarde na Catedral Metropolitana. Era esse o esquema. Você ia na primeira
sessão do Palace, depois passava na Yara e tomava um Sundae e ia pra missa”.
Em
1970, a cidade de Aracaju estava vivendo uma transição nos seus hábitos. Uma
parte da juventude mais vanguardista havia adquirido novos costumes. À tarde ia
na matinê dançante da Associação Atlética de Sergipe e à noite comparecia ao
jantar dançante do Iate Clube de Aracaju.
Naquele
modelo de sociedade, Paulo Nou viu no jornalismo a oportunidade de abrir portas
para incorporar saberes que não dominava. “Usando do jornalismo eu aprendi como
me relacionar com as pessoas, como evitar problemas e sobre artes plásticas,
História da Arte, teatro, música. O jornalismo me fez sentar e estudar mais”.
Paulo
Nou diz ser um daqueles jornalistas que fazia sozinho a sua coluna, sem contar
com nenhuma equipe que o auxiliava. Além disto, afirma que nunca conseguiu
escrever a sua coluna em casa. Sempre ia até a redação do jornal para produzir
os textos que publicava em sua coluna.
Evidente
que como todo jornalista Paulo Nou estabelecia contatos que se transformavam em
fontes da maior importância. “Claro que eu tinha os meus informantes.
Principalmente fotógrafos que queriam me dar fotos para eu publicar a foto de Fulana
de Tal. Eles me contavam que ela estava namorando com Fulano, que ia casar. Se
eu achasse que era relevante eu publicava a informação”.
Conta
que considerava o ambiente da redação educativo. “Algumas vezes, na mesma sala
em que eu estava escrevendo a minha coluna estava o João de Barros, o
Barrinhos, escrevendo a dele, que se chamava Arte & Manhas. A gente
conversava, trocava ideias e eu sempre aprendia muito com ele”.
O
próprio Paulo Nou confessa que antes de iniciar as atividades no jornalismo ele
possuía uma compreensão muito frágil sobre artes e revela a importância que
teve o jornalista João de Barros para a sua formação em tal campo. Foi com Barrinhos
que ele aprendeu sobre as diferentes linguagens artísticas.
Com
o jornalista João de Barros aprendeu a reconhecer uma natureza morta e a ouvir
ópera. “Ele era uma pessoa que entendia de ópera e eu não conhecia nada sobre
este assunto. Ele me explicava sobre várias coisas e eu sentia que tinha muito
pouco para explicar pra ele. Eu não tive essa vida cultural anterior ligada ao
mundo das artes. Eu conhecia um pouco por leituras”.
Paulo
Nou reconhece que Barrinhos foi para ele uma espécie de preceptor no campo das
artes, posto que até então conhecia somente aquilo que poderia incorporar
ouvindo rádio, lendo jornais, livros e revistas. Mas não foi apenas no domínio
da linguagem artística que a influência de João de Barros foi sentida.
Com
o colega jornalista, Paulo Nou aprendeu também a refinar a sua escrita. “A
partir da maneira dele escrever muitas vezes eu consegui me soltar, ficar mais
livre, mais leve, mais solto, mais refinado. Com ele eu entendi o prazer de
escrever. Não ia mais ao jornal considerando que a escrita era um fardo”.
Paulo
Nou considera que a coluna social, dentre outras funções, sempre foi um
instrumento concebido para bajular ricos e famosos. “Algumas vezes eu entrava
num avião e pegava um jornal de Alagoas, de Recife, de Aracaju e lia a coluna
social. Era visível a bajulação. Mas, também, as pessoas que escreviam coluna
social eram bem diferentes daqueles que assinam coluna social atualmente. Os
colunistas eram de famílias da elite e tinham livre acesso àquele mundo.
Falavam do próprio mundo ao qual eles pertenciam”.
*Jornalista,
professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e
presidente da Academia Sergipana de Educação.

Comentários
Postar um comentário