Jorge
Carvalho do Nascimento*
A
História da Educação não pode ser reduzida a uma mera representação. É
necessário considerar, por um lado, as representações coletivas que incorporam
nos indivíduos as divisões do mundo social e organizam os esquemas de percepção
a partir dos quais eles classificam, julgam e agem; por outro, as formas de
exibição e de estilização da identidade que pretendem ver reconhecida; enfim, a
delegação a representantes (indivíduos particulares, instituições, instâncias
abstratas) da coerência e da estabilidade da identidade assim afirmada.
A
história da construção das identidades sociais encontra-se transformada em uma
história das relações simbólicas de força (Chartier, Roger. À Beira da Falésia:
a História Entre Incertezas e Inquietude. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000:
11). Perceber a Educação como realidade social é entender que mesmo à revelia
dos atores sociais ela é um fenômeno que traduz posições e interesses,
produzindo estratégias e práticas que tendem a impor uma autoridade e legitimam
um projeto reformador, justificando escolhas e condutas.
As
estruturas do mundo social não são um dado objetivo. Elas são historicamente
produzidas por práticas políticas, sociais e discursivas articuladas. Assim, é
grande a diversidade de contribuições que Chartier incorporou aos seus estudos.
Categorias como habitus, tomada da obra de Pierre Bordieu; configuração e
processo, apanhadas em Norbert Elias; representação, apreendida com Louis
Marin. Ideias como controle da difusão e circulação do discurso, buscadas em
Michel Foucault; produção do novo a partir das contribuições existentes, tal
como pensado por Paul Ricoeur; e a apropriação e transformação cultural, do
mesmo modo proposto por Michel de Certeau.
Essas
filiações estão presentes em todos os conceitos e no modo de operá-lo. O
conceito de leitura, já aqui discutido, é tratado a partir das contribuições
que ele buscou no conceito de relações de interdependência formulado por
Norbert Elias, apropriando-se também daquilo que Bourdieu discute como sendo a
noção de campo.
Deste
modo, Chartier teve condições de discutir as práticas que dão significado ao
mundo e caracteriza-las como práticas discursivas, produtoras de ordenamento,
de afirmação de distâncias, de divisões. Daí, todo o entusiasmo demonstrado
pelo francês ao tratar da obra do alemão, afirmando que o pensamento de Norbert
Elias nos apaixona pela pertinência das suas análises, pelo seu projeto de
construir cada objeto no interior do sistema de relações que lhe conferem a sua
fisionomia e perfil próprios.
As
filiações teóricas de Roger Chartier serviram para que os pesquisadores de
História da Educação compreendessem a necessidade de mergulhar nas teorias e
metodologias da História, na prática dos arquivos, realizando a operação
historiográfica proposta por Michel de Certeau e familiarizando-se com a
Educação e as suas especialidades.
Em
relação ao trabalho de Certeau, Chartier entende ser uma possibilidade de dar
clareza às ciências humanas e ao trabalho do historiador, de modo a “precisar
melhor os seus contornos e definir com mais acuidade sua pertinência” (Chartier,
Roger. Cultura Escrita, Literatura e História. 2 ed. México: Fondo de Cultura
Economica, 2000: 119).
Outra
importante contribuição dele apontada por Chartier é o reconhecimento da
História como prática narrativa. As reflexões pioneiras de Michel de Certeau
(...) obrigaram os historiadores a reconhecer, querendo ou não, que a história
pertence ao gênero da narrativa - entendida no sentido aristotélico da
“articulação em um enredo de ações representadas”.
Essa
constatação não foi ponto pacífico para aqueles que rejeitando a história événementielle
em benefício de uma história estrutural e quantificada, pensavam ter posto fim
às aparências enganosas da narração e a demasiada longa e duvidosa proximidade
entre a história e a fábula (Chartier, Roger. “A História Hoje: Dúvidas, Desafios,
Propostas”. In: Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v.7, n.13, 1994. p. 103).
No
seu discurso sobre Certeau, Chartier permite ainda que se entenda como a obra
deste outro mestre francês da História está presente nas suas práticas
metodológicas: O que Michel de Certeau convida-nos aqui a pensar é o próprio da
compreensão histórica. Em que condições pode-se considerar coerentes,
plausíveis, explicativas, as relações instituídas entre, de um lado, os
indícios, as séries ou os enunciados construídos pela operação historiográfica
e, de outro, a realidade referencial que pretendem “representar” adequadamente?
A resposta não é fácil, mas é certo que o historiador tem a tarefa específica
de fornecer um conhecimento apropriado, controlado, dessa “população de mortos
– personagem, mentalidades, preços” que são seu objeto. Abandonar esta intenção
de verdade, talvez desmesurada mas certamente fundadora, seria deixar o campo
livre a todas as falsificações, a todos os falsários que, por traírem o
conhecimento, ferem a memória. Cabe aos historiadores, fazendo seu ofício, ser
vigilantes (Chartier, 2000: 100).
*Jornalista,
professor, doutor em Educação, membro da Academia Sergipana de Letras e
presidente da Academia Sergipana de Educação.

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