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CULTURA, AÇÃO E REFLEXÃO NA OBRA DE LUIZ ANTÔNIO BARRETO


  

 

Jorge Carvalho do Nascimento*

 

 

Reflexão e ação constituem elementos indissociáveis na história de vida do intelectual Luiz Antônio Barreto. A sua produção cultural está articulada com as iniciativas tomadas por ele em todas as instâncias profissionais e políticas nas quais agiu. O folclorista Bráulio do Nascimento anotou esta característica do trabalho de LAB ao escrever o texto de apresentação do livro CULTURA: UM ROTEIRO DE ALUSÕES, assinado por Luiz Antônio em 1994.

“Esta motiva e impulsiona aquela, que orienta e dimensiona esta, dando-lhe uma correlação permanente com a realidade, seja na atividade prática, seja na reflexão dos diversos temas, na pesquisa e na realização de programas comuns com instituições públicas ou particulares. Essa adequação entre teoria e prática tem-se revelado uma constante nos diversos cargos públicos” (p. 11) que LAB ocupou.

Falando sobre a obra poética de Luiz Antônio, o folclorista Jackson da Silva Lima, ao prefaciar o citado CULTURA: UM ROTEIRO DE ALUSÕES, chama também a atenção para a proatividade que tem o autor no processo de articulação entre teoria e prática. “Entre a publicação do MONÓLOGO (1964) e o inédito ROMANCEIRO DA GUARDA E DA VIGIA (1971), Luiz Antônio Barreto escreveu o livro MARCHA (1966), no qual fez profissão de fé da poesia como arma de luta ou de denúncia, como instrumento de libertação do homem” (p. 17).

Por isto, no texto introdutório ao livro que homenageou os 50 anos de idade de Luiz Antônio Barreto, eu busquei me referenciar no impacto que teve a Universidade de São Paulo – USP na vida intelectual brasileira, considerando aquela instituição um divisor de águas nos rumos que os intelectuais do Brasil assumiram.

O seu êxito como instituição acadêmica forjou um novo modelo de intelectual que substituiu um entendimento de cultura que foi desaparecendo à medida que o século XX se esvaiu. Se o novo modelo permitiu que a pesquisa, em todas as áreas, ganhasse novos rumos, conhecesse novos objetos e assumisse preocupações que até então estiveram afastadas do debate, criou limitações e estabeleceu uma certa desarticulação, em algumas áreas do conhecimento das humanidades, que é, sob certo ponto de vista, limitadora do entendimento de determinados objetos e problemas.

O sistema universitário brasileiro, juntamente com a sociedade, cresceu durante o século XX e agora, no primeiro quartel do século XXI, outra vez as ciências humanas, ao que parece, estão reaprendendo a articular conhecimentos e objetos que até então pareciam coisas exclusivas de especialistas.

Foi neste tipo de solo que Luiz Antônio fez funcionar o seu arado, plantou e colheu, legando uma obra múltipla, vária, dispersa e que merece catalogação. As vozes que na transição do século XX ao XXI deram sentido acadêmico ao que fez, durante toda a vida, o pesquisador LAB, foram as das leituras dos herdeiros da chamada Escola dos Annales, de origem francesa.

Foram eles que possibilitaram o amadurecimento acadêmico do debate cultural, pela contribuição dada a partir dos problemas que levantaram e dos objetos sobre os quais se debruçaram, tal como fez Luiz Antônio Barreto durante toda a sua vida. Como eles, LAB também chamou a atenção para a necessidade de uma interpretação ampla e articulada dos fenômenos da cultura, repondo e reconstruindo objetos que eram preocupação dos humanistas da sua geração, fortemente enraizados com a literatura e que a partir dela observavam um caleidoscópio que englobava áreas tão distintas quanto a história, a antropologia, a sociologia, o folclore, a filologia, a linguística e outros tantos campos fundamentais à explicação cultural.

A especialização das ciências humanas e um certo discurso economicista levaram ao empobrecimento da compreensão da cultura. Combater tal fenômeno é substrato de ação e reflexão na obra de Luiz Antônio Barreto. Para ele, além de não ter conseguido dar respostas a diversos problemas colocados pelas ciências humanas, essa especialização foi, em boa hora, superada pela Nova História Cultural que recompôs toda a contribuição dos humanistas que antecederam as especializações.

Durante toda a sua vida, LAB advogou a necessidade que tinham as instituições universitárias brasileiras de reler toda a geração de intelectuais pátrios do século XIX e ficar cada vez mais atenta ao que eles diziam quando interpretavam o Brasil. Os marcos históricos de interpretação da nossa realidade foram recolocados a partir do final do século XX, tornando possível descortinar um novo Brasil, até então ofuscado pelas luzes das interpretações especializadas que atribuíam ao Rio de Janeiro, a Minas, a Pernambuco, a Bahia, ao Rio Grande do Sul, ao Amazonas e a São Paulo as mesmas determinações e as mesmas características no seu processo de formação econômica, social e política: a dicotomia capital-trabalho, sem perceber que muitas vezes existiam mais especificidades e contradições que colocavam outros elementos em tal processo.

 

 

*Jornalista, doutor em Educação, professor aposentado do Departamento de História, do Mestrado e do Doutorado em Educação da Universidade Federal de Sergipe. É membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação. 

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