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O CORONEL COELHO


  

 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

O fato de Sônia haver comparecido à missa do domingo dominou todas as conversas das beatas na Igreja e fez com que o Desembargador Elífio, sua mulher e as filhas do casal se retirassem do templo logo após a sertaneja se acomodar no primeiro banco, como costumava fazer todas as vezes que ia à Igreja.

Aquele foi um final de semana atormentado para o Padre Galo. Desde que Sônia se retirara da Casa Paroquial após as cinco horas de depoimento que lhe dera no sábado, o sacerdote não parou de pensar sobre a fragilidade da condição humana. Do quanto a origem familiar é determinante da vida.

Pensou em si. Posicionado confortavelmente na vida, do ponto de vista social e, também, da situação econômica, na cidade do Rio de Janeiro, cedo se entregou aos prazeres e levou uma vida de orgias entre os 15 e os 18 anos de idade, até sua família resolver interná-lo no Seminário Arquidiocesano São José, instalado na Fazendas das Arcas.

Para Galo estava muito evidente que essa história de que os que querem vencem na vida era exceção e não regra. Não tinha dúvida de ter sido a posição social da sua família que o retirou de uma vida que poderia ter ceifado a sua permanência no mundo dos vivos muito precocemente.

Nas suas reflexões, o Padre Galo entendia que gente como Sônia, para conseguir um teto de moradia e fazer três refeições diariamente necessitava se submeter a todo tipo de humilhação e estar vigilante, nunca descansar, a fim de defender o pouco que já conquistara. O depoimento que ouvira dela no dia anterior confirmava isto.

Ao conhecer uma parte da história de Sônia, o investigador eclesiástico concluíra que ela fora vítima do assédio do Frei Fernando, da maledicência de mulheres invejosas que costumam frequentar as Igrejas e se acercar dos párocos, como Alba, e, também, do exacerbado patrulhamento de homens socialmente conservadores, como o Desembargador Elífio.

Pessoas com o perfil semelhante ao do magistrado, invariavelmente ostentam valores morais muito rigorosos, por mero exibicionismo. Todavia, na intimidade são indivíduos devassos e desregrados. Não é incomum a homens desse perfil relacionamentos amorosos clandestinos, normalmente descobertos após a sua morte, quando os filhos adulterinos se apresentam com pedidos de investigação de paternidade que podem habilitá-los na condição de herdeiros de sólido patrimônio.

O povo costumava dizer que filho de rapariga não nega a paternidade. Na maior parte das vezes, quando não saem com a mesma cara do pai carregam no corpo algum sinal genético característico que o identifica com o genitor. O Padre Galo não duvidava que provavelmente o Desembargador teria algum filho fora do casamento, em face de algumas perguntas que este lhe fizera ao depor.

O domingo demorou a passar, atormentando os pensamentos do sacerdote mandado a Cabedelo por Dom Moisés. Galo passou o dia lendo os 21 depoimentos que ouvira, impressionado, sobretudo, com a trajetória de vida de Sônia, sobre quem já estava convencido de ser vítima da crueldade do mundo, da maldade dos homens e mulheres tidos como pessoas de bem, como bons cristãos tementes a Deus.

Na segunda-feira as nove e meia da manhã, lá estava Sônia novamente. Outra vez com um vestido elegante e os cuidados com o corpo muito visíveis. Cumprimentou o Padre Galo, sentou-se na mesma posição que lhe fora sugerida no sábado e ouviu do sacerdote a recomendação de retomar o depoimento no mesmo ponto em que ele fora interrompido.

Ela contou que metade do resultado dos programas de prostituição que as meninas faziam no Bazar de Dona Clarice era entregue à proprietária do lupanar. Essa era a regra dos puteiros desde sempre. Todos os rufiões praticam esse tipo de divisão dos rendimentos com as meninas envolvidas com o seu negócio.

Foi muito difícil para Sônia falar ao Padre do asco nutrido em relação ao Coronel Garcia e da insistência deste para desvirginá-la. Mas contou tudo detalhadamente, inclusive das estratégias que utilizou para ter mantido a própria virgindade durante oito meses. O Padre Galo sabia da sua fama de rainha do boquete, como era conhecida no Bazar de Dona Clarice.

Sônia disse não ter sido aquela uma escolha sua. O Coronel Coelho, médico e proprietário da maior parte das terras situadas em São João do Cariri, chegou ao Bazar de Dona Clarice e ficou encantado com ela. Prometeu um bom dinheiro à moça caso houvesse a concordância em ir para a cama com ele. Sabia da sua virgindade e declarou que o seu desejo era somente o de vê-la nua.

O poderoso não se comportou bem. Enlouqueceu com a visão do corpo da sertaneja. Colocou o cano de uma pistola na nuca da moça a fim de obrigá-la a abrir as pernas e aceitar a penetração. Desesperada e conhecedora dos fetiches masculinos, Sônia disse ao cinquentão que por um bom dinheiro daria no pau do Esculápio a mais inesquecível das chupadas.

O Coronel Coelho ficou louco com o resultado. Nunca sentira tanto prazer. A fama da poderosa boca e dos aveludados lábios de Sônia atraiu multidões de homens e garantiu à menina a manutenção da virgindade e um extraordinário faturamento que fez dela a puta que recebia os jetons mais elevados no Bazar de Dona Clarice.


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