Jorge
Carvalho do Nascimento*
Pontual,
o desembargador Elífio chegou à Casa Paroquial antes das nove horas da segunda-feira,
conforme combinara com o Padre Galo. Fora ele o primeiro convocado pelo
sacerdote para depor na investigação determinada pelo arcebispo, com base no
Código de Direito Canônico.
Em
havendo a comprovação de ter o Frei Fernando transgredido e pecado contra a
castidade, a penalidade poderia ser severa e chegar até a perda dos direitos
que a ordenação lhe concedera e a excomunhão. A sorte estava lançada e o Fernando
já fora comunicado de tudo, em João Pessoa, por Dom Moisés.
O
desembargador Elífiio jurou com a mão sobre a Bíblia cumprir os preceitos da
Igreja Católica e falar a verdade, contando tudo que fosse do seu conhecimento.
O magistrado revelou ter ouvido muitos mexericos acerca da amizade entre o frade
e Sônia depois que esta se instalou em Cabedelo.
No
relato do desembargador, os falatórios foram num crescendo incontrolável e disse
que depois de haver tomado conhecimento que a sertaneja dormira na Casa
Paroquial deixou de frequentar a missa e proibiu a sua mulher e as suas filhas
de participarem de qualquer atividade do serviço religioso na Paróquia do
Sagrado Coração de Jesus.
Por
fim arrematou que, como bom cristão, não tolerou o acinte de vê-los lépidos, como
um casal de pombinhos, passeando pela praia. Para ele, aquilo teria sido a
prova dos crimes do Frei Fernando contra a castidade e por tal razão decidira
ir a João Pessoa e procurar Dom Moisés para denunciar o que seus olhos viram.
O
Padre Galo trabalhou duro. Ouvia quatro pessoas a cada dia. Apenas dois homens:
o desembargador Elífio e Henrique, o caboclo que trabalhava como zelador da
Casa Paroquial. Tomou o depoimento de 18 beatas, a começar pela cozinheira do
Frei Henrique, Alba, de onde partiu a maior parte das futricas contra o alemão.
Quando
o véu da noite escura cobriu o firmamento de Cabedelo, na noite da sexta-feira,
o Padre Galo completou a vigésima oitiva do seu inquérito. Tinha agora um
alentado dossiê contra o Frei Henrique, embora tudo não passasse depoimentos desacompanhados
de qualquer evidência material. Nada de muito concreto, não obstante 19
depoentes afirmarem ter certeza da conjunção carnal que existira entre os dois
amigos.
O
Padre Galo reservara para as nove e meia da manhã do sábado a joia da coroa – o
depoimento de Sônia. A sertaneja havia se preparado para a ocasião. Entrou
altiva e muito elegante na Casa Paroquial. Vestido de seda azul escuro, com
mangas compridas. A roupa lhe cobria do pescoço ao tornozelo. Elegantes sapatos
pretos tipo Oxford, de saltos, protegendo os pés com muita elegância.
As
mãos cobertas por finas luvas brancas rendadas e sobre a cabeça, a proteger o
rosto e os cabelos, um véu preto bordado em renda. Um chapéu branco de pano e
um leque para refrescar-se do calor que fazia naquela manhã em Cabedelo. O
prelado a mirou da cabeça aos pés, quando ela transpôs a porta de entrada da
Casa Paroquial.
Seus
pensamentos de julgador imediatamente oscilaram entre o casto sacerdote que era
o Padre Galo e o devasso Pente Fino que fora bom conhecedor de Cabarés nos anos
que antecederam o seu ingresso no Seminário Arquidiocesano São José. Os seus
pensamentos foram tomados de imediata antipatia pela sertaneja.
Ao
vê-la vestida daquele modo, tinha a certeza de estar diante de uma messalina
dissimulada. Indignado por estar postada diante dele a mulher que levou o Frei
Fernando a profanar a casa do Senhor e pecar contra a castidade, talvez não em ato,
mas, certamente por pensamentos e palavras.
Sônia,
por seu turno, não se fez de rogada. Colocou-se diante daquele homem jovem, vestido
elegantemente, com sua batina bem cortada e ajustada ao corpo, cabelos lisos,
penteados com esmero e besuntados em boa brilhantina francesa da marca Pinaud.
Os dois anéis de ouro com pedras nos dedos mínimo e anelar e os sapatos
bicolores nos pés davam a exata dimensão da vaidade do sacerdote. Um dândi.
Na
sala maior da Casa Paroquial havia uma mesa de jacarandá com 10 lugares: quatro
em cada um dos seus lados e um em cada cabeceira. O Padre Galo sentou-se na
cabeceira que ficava em frente à porta de entrada e determinou a Sônia
sentar-se na outra cabeceira, de costas para a rua.
Sônia
ficou exposta ao sol que entrava pela janela e lhe aquecia o rosto e o pescoço.
Galo determinou que ela se apresentasse. Ela foi direta: Sônia Costa Soares,
nascida em oito de abril de 1919 em São José das Pombas, Paraíba. Filha de
Romildo Santos Soares e Valentina Costa Soares. Esclareceu que sabia ler e
escrever e quanto a sua profissão disse ser costureira e dona de casa.
O
calor do sol levou Sônia, num dado momento, a pedir licença ao Padre Galo e retirar
o véu que lhe cobria o rosto. Estava tomada de ódio por aquele sacerdote que
considerava abusado e que chegara a Cabedelo para lhe tirar o amor e as
esperanças que nutria de acostar-se com o Frei Fernando.
Desde
que amainara o fogo que antes ardia no corpo de Orozimbo, Sônia vivia viçando e
suas fases de tensão pré-menstrual a tornavam uma pessoa desagradabilíssima. Do
mesmo modo, nos dias que se seguiam ao sangramento mensal, subia pelas paredes de
desejo e os homens avantajados em seus dotes sexuais tomavam conta da sua
imaginação.
Em
relação ao seu Orozimbo, Sônia perdera completamente as esperanças de vê-lo
novamente em atividade na cama. Tentara fritada de ovo de codorna, sem sucesso.
Recomendaram-lhe administrar poções cavalares de chá de catuaba. A beberagem só
fez acelerar as crises de incontinência urinária de Orozimbo.
À
tarde, quando ambos sentavam lado a lado, cada um em uma cadeira de balanço,
Sônia apelava ao amendoim, servido como lanche. De nada servia a não ser para
desencadear uma podridão de diarreia no seu amado. Seu último recurso era o de
andar no porto à procura dos cozinheiros de navios que vinham da Europa e
tivessem aspargos.
Alguns
amigos disseram a Sônia que o consumo de aspargos era um santo remédio. O padre
José Avelã das Dores, amigo do Frei Fernando, passara em Cabedelo alguns meses
antes da desgraça do frade alemão e diante das suas queixas quanto a situação
de Orozimbo, recomendara-lhe consumir aspargos exaustivamente.
O
mascate foi empanturrado com saladas de aspargos, risotos do vegetal, aspargos
na manteiga, sopa de aspargos e nada fazia com que o instrumento de prazer do
cigano espanhol ressuscitasse e ele tivesse condições de voltar a fazer com que
a sua querida Sônia voltasse a sorrir.
No
dia do depoimento, Sônia estava insuportável. Esperava a chegada das regras a
qualquer momento. As dores da TPM lhe impunham muito sofrimento em face de uma
endometriose acerca da qual ela não tinha nenhuma consciência. Sabia apenas que
aqueles dias eram de muitas dores.
Para
azedar o seu sábado, o desprazer do sofrimento que aquela situação lhe impunha em
face das dores da perda da companhia do Frei Fernando. Sônia não sabia se na
vida que os dois amigos levavam anteriormente, eles iriam acostar-se em uma
cama. Entendia apenas que diante dela estava alguém que a sertaneja considerava
então um dos responsáveis pela sua carência afetiva.
*Jornalista, doutor em Educação, professor aposentado da Universidade Federal de Sergipe. Membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação.

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