Jorge
Carvalho do Nascimento*
Sônia
havia acabado de sentar-se à mesa do café da manhã por volta das sete horas,
quando ouviu alguém batendo à sua porta. Era o Frei Fernando. Cumprimentou a
dona da casa com um bom dia e imediatamente perguntou-lhe se poderia acompanhá-la
na refeição matinal.
Sentaram-se,
comeram mamão com mel de abelhas, uma boa macaxeira com carne de sol, beiju de
tapioca, pão com manteiga e café com leite. Antes das sete e 40 encerraram a
refeição. O padre iria para a Igreja rezar a missa das oito e ofereceu a Sônia
uma carona em sua charrete.
À
mesa, o padre pedira desculpas a sua amiga pelo banho de mar que protagonizaram
na Praia do Almagre. O sacerdote confessou que tivera um comportamento absolutamente
inadequado para um ministro da Igreja Católica. Considerava haver se afastado do
seu compromisso com o voto de castidade e estava, por isto, se penitenciando em
orações.
Antes
que Sônia fizesse qualquer comentário, o Frei Fernando afirmou que adorava os
passeios com ela pelas praias e que pretendia continuar mantendo as visitas
matinais ao mar tendo a sertaneja como companhia. Prometeu que seria o mais
respeitoso possível. Sônia agradeceu e confessou que ficava muito feliz com a
decisão tomada pelo sacerdote. Era muito visível que ambos estavam tomados por
uma ardente paixão.
Chegaram
à Igreja. Sônia, como de costume, tomou assento no primeiro banco. Também, como
era habitual, os mexericos das “matildes” tomaram conta do templo sob a forma
de sussurros até a chegada do Frei Fernando ao altar. Somente a genuflexão do
celebrante foi capaz de silenciar as vozes das fofoqueiras.
Os
dois amigos voltaram a visitar praias. Em Camboinha ficaram encantados com as
lagoas salobras que marcavam a paisagem do balneário. Seguiram mantendo o
respeito. O rito era conversas intermitentes e contemplação da paisagem. Nada
de banhos de mar, nada que pudesse lançá-los a tentações, como se os dois,
sozinhos em uma praia deserta, já não fosse em si o próprio pecado que as
mexeriqueiras buscavam.
A
larga faixa de areia dourada e fofa da Praia de Miramar era um convite a bons e
longos passeios. As caminhadas possibilitavam as conversas em um ambiente de
tranquilidade, distante dos olhares e dos ouvidos curiosos das beatas. Mas, nem
por isto eles escapavam com a reputação incólume aos mexericos.
Um
dos passeios dos amigos pela Praia de Miramar foi visto pelo desembargador
Elífio Campos que cultivava o hábito de pescar com sua rede e mais dois amigos
naquele balneário. O magistrado conservador tomou o trem na manhã seguinte e
foi bater às portas do Palácio Episcopal em João Pessoa, onde foi recebido pelo
arcebispo Dom Moisés Sizenando Coelho.
O
relato foi circunstanciado. O governador da Arquidiocese tomou conhecimento da
pouca vergonha do Frei Fernando e do incômodo das famílias de bem que não
suportavam mais tamanho desrespeito. O Dr. Elífio informou que em Cabedelo não
permitia mais que suas filhas comparecessem à missa e muito menos tomassem
comunhão com aquele frade devasso.
O
arcebispo ouviu, anotou e pediu ao desembargador que fosse discreto e nada
comentasse em Cabedelo. Três dias depois chegou à Paróquia do Sagrado Coração
de Jesus o Padre Barbosa Galo, um dos auxiliares do Arcebispo de João Pessoa. Ao
Frei Fernando, o Padre Galo entregou uma carta manuscrita com a caligrafia do
próprio Arcebispo.
A
autoridade clerical relatava o que chegou ao seu conhecimento, sem informar o
nome do delator. Ordenou que o Frei Fernando ficasse temporariamente afastado
do serviço religioso na sua Paróquia e se apresentasse naquele mesmo dia no
Palácio Episcopal, em João Pessoa, onde passaria a ocupar os aposentos do Padre
Galo.
Este
último passou a responder temporariamente pela Igreja do Sagrado Coração de
Jesus, em Cabedelo, e ocupou a Casa Paroquial que antes servira de moradia ao
Frei Fernando. Sua missão seria apurar o equivocado comportamento ético do
frade alemão. Se comprovado, o arcebispo iria decidir o que deveria ser feito.
O
Frei Fernando mal teve tempo de arrumar sua mala e embarcar no trem do meio-dia
com destino a João Pessoa. Pediu ao chofer do carro de aluguel que o levou à
Estação Ferroviária que parasse na porta da casa de Sônia. Bateu palmas e
ninguém respondeu até que uma vizinha informou que ela estava ausente.
O
frei Fernando embarcou com o coração apertado. Sabia que a sua situação não era
confortável. Sônia, que fora à missa logo cedo e de lá ao mercado chegou em sua
casa perto do meio-dia. Arrumou suas compras e decidiu almoçar com o Frei
Fernando que tinha por hábito fazer sua refeição entre as 12:30 horas e uma da
tarde.
Antes
que chegasse à Casa Paroquial, encontrou-se com Henrique, o caboclo. Coube a
ele informá-la dos últimos acontecimentos. Sônia entrou em choro convulsivo,
deu meia volta e retornou para a sua casa. Aos prantos, deitou-se. Sabia que
estava metida em uma enrascada que poderia trazer muitos prejuízos a sua vida.
Àquela altura a novidade havia corrido por Cabedelo como um rastilho de
pólvora.
O
Padre Galo, um homem pardo, com cabelos pretos e bem cuidados, com pouco mais
de um metro e sessenta, era nascido em Niterói, no Rio de Janeiro, de onde
saíra para internar-se em um seminário católico no interior de São Paulo.
Ordenado Padre, fora mandado para João Pessoa.
Era
um Padre secular e fizera uma grande amizade com Dom Moisés e passou a assessorá-lo
nos serviços administrativos da Arquidiocese. Ainda não havia chegado aos 30
anos de idade e gostava de andar bem trajado e sempre muito elegante. Batinas
limpas e bem engomadas, sapatos pretos sempre lustrando, dentes brancos, quase
um teclado de piano.
Fora
a Cabedelo como investigador, designado por Dom Moisés, e a sua presença colocou
a paróquia de pernas pro ar.
*Jornalista, doutor em Educação, professor aposentado da Universidade Federal de Sergipe. Membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação.

Precisamos saber como agiu o Padre Galo com a bela Sônia!
ResponderExcluir