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O TRIÂNGULO


  

 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

Sônia acordou feliz. Um largo sorriso no rosto e o brilho na pele viçosa não lhe permitiam negar que sua tarde-noite lhe fizera bem. Foi ao banheiro e demorou muito, sempre cantarolando Palpite Infeliz, a sua canção preferida, samba de Cartola gravado em disco de cera de carnaúba por Francisco Alves. O gramofone e os seus primeiros discos foram presentes de Orozimbo.

Saiu do banheiro e demorou-se no quarto se vestindo, arrumando os cabelos, cuidando da beleza do rosto e se perfumando. Irradiava alegria e felicidades quando se sentou à mesa para o café da manhã, quase às nove horas. Convidou Dadá para que a acompanhasse na refeição.

A preta, mulher experiente, já havia entendido tudo que acontecera. Sentira o cheiro forte de uma animada sessão de sexo que dominava todo o quarto. As marcas do vigoroso encontro, deixadas nos lençóis, não negavam o que ocorrera naquela alcova. As flores, além do broche de ouro esquecidos sobre a cômoda, davam pistas de que o autor da façanha fora alguém endinheirado.

Sônia não conseguiu esconder nada da amiga e serviçal que se tornara sua confidente. Contou-lhe desde o princípio como fora a chegada do Desembargador Elífio à sua casa. Falou da irresistível e envolvente conversa do magistrado, carregada de sedução, que lhe fizera cair nas malhas do conquistador.

Dadá foi muito compreensiva nos comentários que fez sobre o assunto:

- Você é nova... Cheia de fogo. Orozimbo não serve mais pro desejo de uma mulher como você. Você precisa de homem que deixa mulher contente. E, também precisa de dinheiro, de muito dinheiro, pra sustentar a vida de luxo que você gosta. Sua vida custa muito caro. Pense no que pode acontecer se você pode dispensar o dinheiro de Orozimbo. Ele arrancou o seu cabaço e é apaixonado por você. Pense bem no que anda fazendo – orientou Dadá.

- Eu preciso, sim, de dinheiro, Dadá. De muito dinheiro. Tenho medo de ficar pobre novamente. De voltar a viver na mesma miséria que eu vivia até Orozimbo aparecer. Prefiro a morte a não ter novamente o que comer, a não ter uma casa pra viver, a não ter a roupa que eu quero, Gosto de dormir numa cama boa, numa cama quente, num colchão macio. Gosto de coberta confortável, de cama bem forrada, de viver bem e de ter dinheiro pra pagar tudo que a minha vida precisa – explicou Sônia. E prosseguiu:

- Sou mulher nova e gosto de homem fogoso na minha cama. Gosto de homem que tem o que eu gosto bem grosso, bem grande e bem quente e que sabe trabalhar na hora da brincadeira. Homem que gosta do trabalho da minha língua e da minha boca sugando tudo até ele perder o juízo, a coisa que eu mais gosto de fazer pra agradar um homem quando eu gosto dele. Principalmente quando eu entro no cio. – Assim concluiu a conversa.

Depois de se enroscar com Sônia, o Desembargador ficou apaixonado. Não pensava em outra coisa. Procurava Sônia duas vezes por semana. Sempre chegava à tarde, por volta das três horas e quando saía era cerca de oito horas da noite. A cada encontro, um novo presente para a mulher que o conquistara.

Sônia estava gostando muito da sua nova realidade. Estava convencida, pela vida que tivera, que os homens só a queriam na cama. Nunca iria encontrar um que desejasse se casar com ela e criar uma família. Queria ser reconhecida socialmente, ser uma madame e ser recebida pelas famílias ditas de bem.

Tinha consciência que tais sonhos estavam muito distantes do seu horizonte. Somente via um caminho que era o de tirar do bolso dos homens tudo que fosse capaz de conseguir. Pretendia acumular tudo que lhe permitisse se manter distante da pobreza original para a qual não pretendia retornar nunca mais.

A sua determinação a tornava cada dia mais objetiva. Foi direta na sua conversa com o Desembargador:

- Cada vez que você deitar comigo não precisa mais trazer nenhum presente. Basta deixar na minha mão um envelope com o mesmo que ganha em um mês o maquinista da estrada de ferro – exigiu.

Elífio achou um exagero o que Sônia propusera.

- Aceito pagar um terço do valor que você quer a cada encontro – retrucou.

Sônia calculou os dois encontros semanais e percebeu que em três semanas teria o equivalente a dois salários de maquinista. A última semana de cada mês, reservada a Orozimbo representava para Sônia a renda equivalente a um salário de maquinista. Sua renda saltaria de um para três salários de maquinista a cada mês.

A manutenção do período de visitas de Orozimbo foi pactuada com o magistrado e Sônia, de há muito desumanizada, passou à condição de objeto compartilhado pelo mascate e pelo julgador.

A sertaneja havia já abandonado a Igreja e mandara uma carta ao Padre Galo, no dia seguinte ao jantar oferecido pelo sacerdote, pedindo desligamento do seu trabalho como secretária da Casa Paroquial. Calculou que o negócio de se acostar com os homens por dinheiro seria bem mais lucrativo. Contudo, havia um problema: será que Orozimbo iria admitir tal situação se descobrisse a existência do triângulo amoroso envolvendo o Desembargador?


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