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PENTE FINO


  

 

Jorge Carvalho do Nascimento*

 

 

A missa das oito da manhã do sábado foi muito concorrida. Estavam na Igreja o desembargador Elífio e sua esposa Raquel, acompanhados das filhas Marta, Juliana, Camila e Maria José. A preta Alba, cozinheira da Casa Paroquial, a principal disseminadora dos pecados do Frei Fernando, também estava no templo, contrita, usando véu.

A chegada do Padre Galo a Cabedelo mexera com toda a comunidade católica que já não mais tolerava o pároco e os seus passeios à beira mar ao lado de Sônia. Definitivamente, o franciscano alemão havia angariado a antipatia das fofoqueiras de plantão e elas se encarregaram de contaminar as autodenominadas famílias de bem.

Toda a comunidade católica queria conhecer o seu novo sacerdote. Aos 29 anos de idade, o Padre Galo era muito jovem, vaidoso, cabelos pretos cheios de brilhantina. Subiu ao altar, rezou a missa e sem citar o nome de ninguém dedicou o seu primeiro sermão a comentar as virtudes de Santa Mônica e a vida errante do seu filho, Santo Agostinho, até que este encontrou-se com a própria fé e se transformou em um bom cristão cheio de virtudes.

Talvez fosse este um sermão de fundo autobiográfico, mas disto ninguém precisava tomar conhecimento. Até ingressar no Seminário Arquidiocesano São José, do Rio de Janeiro, o Padre Galo dera muito trabalho à sua mãe, Dona Clara, e ao Seu pai, o médico Dr. Ávila Ferreira.

Aos 18 anos fora mandado ao Seminário São José, numa tentativa que faziam seu pais tementes de que o filho se entregasse a uma vida boêmia de vícios que poderia descambar na marginalidade. Afinal, aquele Seminário Arquidiocesano tinha o privilégio de ser a mais antiga casa de formação de sacerdotes do Brasil, com mais de 200 anos de funcionamento.

O Seminário funcionava na Fazenda das Arcas, um enclave em meio a um pedaço exuberante da Mata Atlântica. Galo chegou a Fazenda das Arcas em 1928, o mesmo ano no qual Dom Sebastião Leme entregara a gestão do espaço aos padres do Seminário Arquidiocesano São José.

Dom Leme entendia que ingressar naquela clausura seria ter um encontro com Deus. Foi isto que ele disse ao Dr. Ávila e a Dona Clara. O Seminário consertaria o menino Galo que andava entregue a farras desregradas e era o terror das famílias do bairro de Botafogo, onde a família morava na cidade do Rio de Janeiro.

Muitas mães e muitos pais proibiam suas filhas de cumprimentar e permanecer no mesmo ambiente em que estivesse o jovem Galo, à época conhecido pelo apelido de Pente Fino. A presença de Galo em uma festa era mais do que suficiente para que os casais de bem que estivessem acompanhados de suas filhas se retirassem do local.

Pente Fino ganhara a alcunha pela capacidade que tinha de seduzir as mocinhas que estavam na puberdade e se encantavam com os bailes e os primeiros namoros. Namorava sempre quatro, cinco, seis ao mesmo tempo e sempre conseguia driblar a vigilâncias dos pais das meninas.

Seminarista, surpreendeu. Conseguiu se ajustar ao regime da clausura e trocou todos os vícios e a concupiscência da carne pelas orações, pelo trabalho produtivo na agricultura e no trato dos animas da Fazenda das Arcas e pelos estudos de Filosofia e Teologia, aos quais se aplicava como nenhum outro Seminarista.

O Seminário Arquidiocesano São José fez de Pente Fino um outro homem. Foi sempre o melhor aluno da sua turma. Um ano depois da sua internação na Fazenda das Arcas, Galo recebeu a sua primeira batina. Em menos de 30 meses foi a vez de receber as ordens menores. No início do seu quarto ano como seminarista estava no subdiaconato e poucos meses depois fez-se diácono. No final do ano foi ordenado sacerdote.

A pedido dos seus pais e com a sua anuência não quis ficar no Rio de Janeiro. Quis evitar a tentação do reencontro com os velhos amigos dos tempos da vida boêmia. Juntos foram conversar com Dom Sebastião Leme que fez uma carta ao Arcebispo de João Pessoa, Dom Moisés Coelho, seu amigo desde que foram colegas no Seminário durante a formação sacerdotal.

Aos 22 anos de idade, o Padre Galo apresentou-se a Dom Moisés. Este ficou impressionado com a boa formação do jovem sacerdote, com a sua boa educação e os bons modos do moço refinado. Estava precisando de um secretário particular e convidou o Padre a fazer com ele uma experiência.

Padre Galo ficou morando no Palácio Episcopal e tudo deu tão certo que ele nunca assumira antes a direção de nenhuma paróquia na Arquidiocese de João Pessoa. Agora, sete anos depois, estava em Cabedelo, à frente da Igreja do Sagrado Coração de Jesus. Fora como uma espécie de interventor designado pelo Arcebispo para repor o feito à ordem.

No mesmo sábado começaria a ouvir depoimentos sobre os padrões éticos de comportamento do Frei Fernando e os ruídos causados pela presença de Sônia na Paróquia do Sagrado Coração de Jesus. Era necessário apurar se o Frei Fernando, em algum momento chegou a pecar contra a castidade. O Pente Fino era agora o auditor da honra do bom cristão.

 

 

*Jornalista, doutor em Educação, professor aposentado da Universidade Federal de Sergipe. É membro da Academia Sergipana de Letras e presidente da Academia Sergipana de Educação.

Comentários

  1. Sensacional! Quero saber como o ex "pente fino" consumou sua missão...

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