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A ORGIA DO DOUTOR COSTA


  

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

Em dois anos de trabalho no Night Club Sônia voltou a ter uma vida na qual não mais tinha dificuldades para se alimentar e até havia matriculado seu filho Eleutério, agora com cinco anos de idade, no Jardim de Infância da Paróquia de Nossa Senhora de Lourdes, frequentada por boas famílias da capital paraibana.

Mesmo nos tempos de dificuldade, Sônia não deixou de sonhar com a boa educação escolar que deveria oferecer ao seu filho, na esperança de abrir para ele perspectivas de vida melhor e mais saudável que a sua. Transformá-lo em um homem letrado e de boas condições econômicas era o seu projeto de mãe.

Desde que chegou ao Night Club Sônia cultivou amizades com homens de negócio, políticos, intelectuais e toda a horda de figurões que costumava frequentar aquele bordel. Em sua concorrida cama, Sônia permitiu que deitassem machos endinheirados como o provecto general Etelvino, autoconsiderado herói da Guerra de Canudos.

Antecedendo o general, o primeiro a deitar com ela no Night Club foi o coronel Belmont, o músico dono do lupanar, que encantara Sônia pela potência do seu saxofone e pelo fôlego que ele demonstrava possuir no uso do potente instrumento. As habilidades de Sônia também seduziram o militar que fez grande esforço para renunciar ao seu relacionamento com a sertaneja, posto que ela era uma importante fonte de receita para o seu negócio.

Os homens se sucederam naqueles muitos meses. Tinha noite que Sônia chegava a fazer quatro programas. Sua fama corria longe e o preço que ela cobrava para tirar a roupa e deitar com um homem era cada vez mais caro. Sônia era o maior sucesso entre as mulheres que frequentavam o Night Club.

Quando o Doutor Costa esteve com Sônia pela primeira vez, ela já tinha mais de dois anos no Night Club. O conhecido cirurgião paraibano, era um homem esbelto, perfumado, sempre notado em seus ternos de cor cinza escuro ou azul, cortados em algodão ou tweed. As calças estreitas e curtas na altura do tornozelo, as camisas sempre engomadas, confeccionadas em tecidos com estampa listrada compunham o figurino do médico. A gravata tinha nó fino.

O cirurgião enlouqueceu com o trato que recebeu na primeira vez em que se entregou às orgias da alcova de Sônia. Nunca uma mulher havia se atirado sobre ele com tamanha volúpia, com tanta sofreguidão. Escandaloso, o esculápio urrava tanto de prazer que houve necessidade da intervenção dos seguranças do cabaré para que o casal se fizesse menos ruidoso.

Antes de se retirar, com os primeiros raios de sol driblando as frestas da janela, o Doutor Costa disse a ela que nunca havia conhecido uma mulher que o fizesse tão feliz. Pediu que o esperasse naquela noite e não aceitasse convite nem qualquer proposta de nenhum outro homem. Ele iria lá para ter a companhia dela. Na saída meteu a mão no bolso do paletó, contou as cédulas e fez a Sônia um pagamento tão generoso que ela lembrou imediatamente da bonança de Orozimbo.

Foram quase dois meses de exclusividade nos programas sexuais com o Doutor Costa. Outros clientes que Sônia possuía, ela dava um jeito de encontrar com eles pela manhã, na hora do almoço ou no início da tarde. As noites e as madrugadas pertenciam aos programas do cirurgião. A receita de Sônia crescera muito.

O médico a convidou para ir com ele a um Congresso de Cirurgiões na cidade do Recife. Iriam de trem.

- Quanto você ganha em um mês aqui no Night Club? Pago três meses da sua receita a você para ter a sua companhia no Congresso. Além de pagar, vou fazer um enxoval de madame pra você. Quero apresentar você lá no Congresso como minha noiva, mas a gente não vai se casar. É somente pra justificar você como minha acompanhante – disse-lhe o jovem médico.

Sônia deixou Eleutério aos cuidados da sua amiga Ermelinda. Dinheiro não era mais problema. Ela voltou a ter poder aquisitivo para comprar tudo que desejasse. Viajaram de trem. Ficaram hospedados em uma suíte do luxuoso e recém-inaugurado Grande Hotel, no Cais do Abacaxi ou Cais de Santa Rita.

Nas lojas do elegante comércio da região do Cais de Santa Rita, Costa permitiu que Sônia renovasse o seu enxoval, sem restrições e sem limites. E numa cabeleireira, ela resolveu cortar o cabelo a La Garçonne, moda em Paris, no Rio de Janeiro e em Recife. Sônia chamou a atenção nos salões do Congresso de Cirurgia, sempre de braço dado com o Doutor Costa.

Foram três semanas de vida suntuosa, desfrutando do luxuoso ambiente dos bons restaurantes, como O Leite, onde no almoço, nos finais de tarde e à noite se reuniam homens de negócio, políticos, intelectuais e os casais das mais abastadas famílias pernambucanas para fazer refeições com pratos sofisticados e tomar um bom vinho.

No papel que representava, Sônia vivia feliz, apresentada em todos os ambientes que frequentou na cidade do Recife como noiva do importante médico cirurgião Doutor Costa. Ele estava também muito contente com a sua acompanhante e começou a conversar com ela sobre a possibilidade de se transferir para a Casa de Hosana, o mais sofisticado puteiro de João Pessoa. Costa era amigo da cafetina e combinou que depois de uma semana da volta deles a João Pessoa iriam conversar com a conhecida rufiã.

Os compromissos profissionais de Costa o impediram de encontrar com Sônia durante quatro dias consecutivos. Foram muitas as cirurgias que teve que atender após o seu retorno ao Hospital onde atuava. Finalmente, foi ao Night Club e reencontrou Sônia no quinto dia. Triste, cabisbaixa, ela confessou:

- Não sei o que está acontecendo. Tem mais de uma semana que minhas regras estão atrasadas. O boi não desce.


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