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O GOLPE DA BARRIGA


  

 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

- Mulher não entende que o que homem menos gosta é de se sentir pressionado. Elas fazem tudo errado. Ela não é burra. Só pode ser maldade. Eu estava apaixonado por ela de verdade. Será que ela não entendeu que eu estava apaixonado por ela? Ou ela acha que algum homem gasta com uma mulher tudo que eu até agora gastei com ela se não tiver paixão no meio? Meu amigo Mário, ela quis me fazer de idiota e vai se dar mal. Hoje, eu e ela vamos acertar as nossas contas – desabafou o Dr. Costa. O seu desabafo foi feito em meio a mágoa que tomou conta do seu coração, depois que Sônia lhe falou da gravidez.

Ao tomar conhecimento, na noite anterior, do atraso na menstruação, o médico se retirou da mesa em que estava tomando um conhaque com Sônia. Saiu absolutamente mudo, sequer se despediu. Ficou chocado com a notícia dada pela sertaneja. Eles haviam acabado de chegar de três semanas de passeios na cidade do Recife como um golpe que ela desfechara com o objetivo de prendê-lo pela paternidade.

Naquela noite o Dr. Costa voltou ao Night Club e foi com Sônia ao quarto dela.

- Eu não vou aceitar seu comportamento desonesto comigo. Você não fez papel de mulher decente comigo. Eu cheguei aqui, me aproximei de você e fiz de você o meu par. Nunca mais procurei nenhuma outra mulher em minha vida. Minha conversa era com você, minha parceira na cama era você. Eu aprendi a gostar de você e depois me apaixonei. Você deveria ter entendido isto. Nenhum homem dá tanto dinheiro, nenhum homem dá tanto presente se não estiver apaixonado. Eu me apaixonei por você. Eu vesti você nas melhores lojas de João Pessoa, eu enchi você de dinheiro e de joias, eu levei você pros melhores médicos, cuidei da sua saúde e da sua beleza. E você vem me dar o golpe da barriga? Não funcionou. Eu vim aqui hoje dizer a você que me esqueça – disse o Dr. Costa com a sua voz mansa habitual.

- Eu não dei golpe da barriga em você. Eu nunca quis pegar essa barriga. Aconteceu por acaso. Eu sei que isso atrapalha a minha vida. Eu já tenho um filho e agora vou ter dois. Não acredito que você vai me abandonar com uma criança no bucho. Você é o pai da criança – afirmou Sônia.

- Eu já conheço esse tipo de rapariga oportunista e aproveitadora como você é. Se queria ter um filho, antes você tinha obrigação de combinar comigo. Eu sou médico e a gente ia decidir se ia ter ou não. Mas, eu só fiquei sabendo depois que você ficou embuchada. Logo na hora que eu tava feliz com a nossa viagem de três semanas ao Recife. Eu tinha dito a você que havia falado com Hosana e que você ia pra casa dela. Mas, eu já tinha mudado de ideia e já tinha dito a ela que você ia morar comigo, na minha casa. Não pensei que você fosse tão falsa. Essa criança na sua barriga é problema seu. Eu não vou a nenhum cartório depois que ela nascer pra botar meu nome como pai. Só vim aqui lhe dizer adeus – levantou-se sem que Sônia tivesse tempo de dizer uma única palavra, bateu a porta do quarto e saiu pisando forte com os saltos dos seus sapatos sobre o piso de madeira do Night Club.

Mais uma tragédia se abateu sobre a vida de Sônia. Quando a notícia da gravidez se espalhou pelo Night Club, ela foi chamada pelo Coronel Belmont que tratou do assunto com objetividade.

- Aqui não tem espaço pra mulher de barriga. Gosto muito de você, você sabe disto, mas aqui não é casa de caridade. Aqui é um cabaré, uma casa de negócio. Homem nenhum vem aqui pra ver mulher parir, vem pra foder. E nesse estado, ninguém quer pagar pra ir pra cama com uma gestante. Portanto, a partir de hoje, você está dispensada – sentenciou.

Ficou desempregada no segundo mês de gestação. Cessou a fonte de renda e foram sete longos meses sem receita, até parir, gastando novamente todas as economias que juntara em mais de dois anos trabalhando no Night Club. Outra vez a poupança foi se esvaindo, o seu dinheiro sumiu e as joias novamente foram vendidas.

Diferente do primeiro parto, Ermelinda levou Sônia à maternidade. Carmen nasceu na Santa Casa de Misericórdia da Paraíba. Era uma menina de pele clara, esguia e de traços finos, muito parecidos com o do Dr. Costa. Mas, com este, Sônia já não tinha mais qualquer contato.

A vida prosseguiu e era necessário viabilizar o sustento de Eleutério, já com seis anos de idade, e de Carmen, no seu primeiro ano de vida. Novamente os gastos com enxoval e alimentação que consumiram algumas joias que Sônia havia guardado para momentos difíceis que a vida impusesse.

Ela sabia que iria ficar um bom tempo vivendo em dificuldade e com o encargo de criar dois filhos. Outra vez começou a fazer um exame de consciência sobre os desatinos da sua vida desde que caíra na prostituição ainda no Bazar de Dona Clarice. Saudosa, não sabia nada sobre sua mãe, Valentina, e sua irmã Ana. E quanto aos seus irmãos homens, muito pior. O que acontecera a eles com o fim das secas que assolaram o Cariri?

Faltavam quatro meses para Carmen completar o seu primeiro ano de vida. A menina colocou um caroço de feijão no nariz e Sônia foi procurar um médico na Santa Casa, para resolver o problema nasal da menina. Na calçada, antes do acesso ao interior da casa de saúde, um susto:

Willison, o que você está fazendo aqui? – exclamou.

Era o irmão mais velho de Sônia.

- Você está viva? Que bom. Ninguém em São José das Pombas sabe de você. A gente procurou você na morte de mamãe e de Ana – esclareceu Willison.

Ana, a irmã mais velha de Sônia estava se afogando no tanque do sítio da família. Dona Valentina entrou na água para tentar salvar a filha. O abraço de afogado levou as duas de uma só vez.


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