Jorge
Carvalho do Nascimento
O
encontro com Willison entristeceu Sônia por haver tomado ciência da morte da
sua mãe, Valentina, e da sua irmã, Ana. Mas, lhe fez bem retomar o contato com
a sua família, com as suas origens. E também, foi bom saber que depois de 1934,
com o fim da seca, cada um dos seus irmãos tomou um rumo diferente do outro.
Aquele
foi um dia longo. Os médicos livraram Carmen do caroço de feijão que a menina
havia colocado no nariz e Sônia convidou o irmão para ir até a sua casa e
conhecer o seu primogênito, Eleutério. Nasceu uma imediata empatia entre tio e
sobrinho. Com a chegada de Ermelinda, Sônia deixou as crianças sob os cuidados
da amiga e aceitou o convite do seu irmão para um passeio pela cidade.
Sentaram-se
em uma mesa do luxuoso Hotel Globo, onde Willison estava hospedado. Beberam
limonada e depois comeram alguns petiscos com algumas doses de conhaque.
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Quando saí do “campo de concentração”, em 1934, tinha juntado um dinheirinho.
Segui a orientação do Tenente Rivaldo, que conheci na seca. Ele me disse que em
Manaus era lugar bom pra ganhar dinheiro no comércio da borracha. No Amazonas tava
correndo muito dinheiro. Saí de casa pra cidade de Natal. Trabalhei um tempo lá
como ajudante de pedreiro e segui adiante em direção de Fortaleza. Fiquei de
garçon num hotel quase um ano, até pegar um navio pra Manaus. Quando eu cheguei,
arrumei emprego para tirar o leite da borracha do pau no meio da floresta.
Tinha que sair da cidade, num gostei da ideia, mas num tinha outro jeito. Minha
sorte foi ter ido na missa da Igreja de Nossa Senhora de Nazaré, na Praça
Orlando Lopes. Depois da missa tinha a sopa do seringueiro, na casa paroquial.
Eu fui e lá eu conheci o Frei Fernando, um alemão que tinha acabado de chegar
na cidade – contou Willison.
Sônia
tremeu de medo. Não sabia o que o Frei Fernando poderia ter contado ou
conversado com o seu irmão. Disfarçou e não permitiu que Willison soubesse que
ela conhecia o Frei Fernando. Mas, demonstrou total interesse na história que ele
estava lhe contando. Queria saber tudo.
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A história desse Frei Fernando é muito triste. Ele tinha uma paróquia em
Cabedelo, mas as beatas da Igreja e um juiz que não gostava dele fizeram uma
intriga muito grande. Disseram que ele vivia namorando uma moça que trabalhava
na Igreja, uma perdida que dormia com ele. Tudo mentira, mas a força do juiz e
um outro padre safado que foi pra Cabedelo emprenharam os ouvidos do arcebispo
e ele terminou expulsando o Frei Fernando da Paraíba e mandando ele pro
Amazonas – explicou Willison.
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E como você sabe de tudo isto – perguntou Sônia.
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O Frei Fernando ficou conversando comigo. Eu contei minha história pra ele e
disse da minha tristeza porque a necessidade fez você, minha irmã, virar puta e
sair do Bazar de Dona Clarice acompanhando um mascate que apareceu por lá e
nunca mais a família teve notícia. Eu disse a ele que não queria ir pro meio da
mata. Tinha medo de pegar uma doença dessas de mosquito ou de ser atacado por
algum bicho grande tipo onça ou sucuri ou algum jacaré. O Frei Fernando
perguntou se eu sabia ler e escrever e se queria fazer uma prova. Mandou que eu
escrevesse uma carta. Ele foi falando e eu fui escrevendo. No fim, ele leu e
disse: “você tá empregado. Vai ficar comigo aqui na paróquia, fazendo carta” -
explicou Willison.
Sônia
entendeu a discrição, a elegância e a generosidade do Frei Fernando. O frade
conhecia a história dela e compreendeu que ela era a irmã puta sobre a qual o
seu irmão falava. Por isto resolvera empregá-lo e evitar que ele fosse correr o
risco dos perigos da floresta.
Quando
Willison chegou a Manaus estava com 24 anos de idade, havia avançado no
letramento e era muito interessado na leitura, apesar das condições adversas
sob as quais fora criado. Escrevia bem e dominava corretamente as regras
gramaticais, além de possuir ótima caligrafia.
Willison
ganhou um bom dinheiro em Manaus como missivista, atendendo os seringueiros que
migraram de Estados como Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Alagoas, Pernambuco,
Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Piauí e Maranhão. Escreveu muitas cartas
para os familiares e amigos dos que foram tentar a vida naquele período dourado
da economia amazônica.
No
final de 1937 vários seringueiros estavam chegando a Manaus, voltando da
floresta, acometidos pela malária e vários habitantes da capital do Amazonas
começaram a contrair a doença. Temendo a enfermidade, o irmão de Sônia resolveu
regressar para a sua Paraíba de origem e montou um comércio em Campina Grande,
onde estava ganhando dinheiro e prosperando.
Durante
o período em que conviveu com o Frei Fernando, este lhe ensinou a dirigir
automóveis e Willison tirou sua carta de chofer profissional. Ao chegar em
Campina Grande, Willison arrumou um trabalho para dirigir um caminhão de
entrega de madeira pertencente a uma serraria local.
Na
maior cidade da região da Borborema, Willison casou-se com Fernanda Barbosa,
filha de uma família que vivia de comprar e vender algodão. Trabalhou na
estrada de ferro, como gerente da venda de passagens, colocação conseguida pela
influência que o seu sogro exercia na política local. Finalmente abriu um
grande armazém de secos e molhados que o fez um homem abastado.

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