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A COLAÇÃO DE GRAU



 

As traquinagens de Carla criaram muitos problemas para Sônia durante os três anos nos quais a moça frequentou a Maison do Internato do Colégio das Damas da Instrução Cristã. A sua mãe era frequentemente convocada pelas irmãs para ouvir queixas e tentar colocar freios na estudante inquieta.

Ela liderava o grupo das moças mais assanhadas que sempre tentavam escapar da vigilância das freiras da Congregação das Damas da Instrução Cristã. Sempre em busca de rapazes para namorar ou dando vazão ao fervilhar dos hormônios de diferentes formas.

No internato, exclusivamente feminino, era comum que Carla descobrisse recantos onde ela e as suas amigas mais próximas se livrassem da blusa do uniforme, da chemise e do sutiã e em prática de top less se reunissem para fazer coletivamente a leitura dos livros considerados proibidos pelas normas da instituição escolar. Isto era o mínimo. Carla adorava exibir suas vastas tetas, principalmente diante das colegas de peitos pequenos.

Sem falar de situações nas quais ela foi flagrada por alguma das freiras enquanto se masturbava no banheiro ou no dormitório usando como estímulo uma das velas mais grossas que havia subtraído da sacristia da capela da Maison. Carla e o seu grupo se viciara no uso daquele instrumento de prazer atípico.

Nada disto, porém, impediu que Carla concluísse o terceiro ano do curso científico com muito brilho, sendo escolhida oradora da turma na festa de colação de grau. Mamãe Sônia estava orgulhosa, na primeira fila do auditório, afagando e homenageando a sua cria.

Por tais razões, não surpreendeu ninguém, no mês de fevereiro de 1959, a divulgação da lista dos candidatos aprovados para a Faculdade de Medicina da Universidade do Recife. Carla figurava na segunda colocação dentre os 20 selecionados, dos quais apenas seis eram do sexo feminino.

No curso de Medicina, a cada ano, se destacou como a aluna mais aplicada e angariou a admiração de colegas e professores. A sua dedicação aos estudos, todavia, não diminuiu em nada o seu entusiasmo pelos homens e pela fornicação. Namorou e levou para a sua cama colegas estudantes e também professores, pouco importando se casados ou solteiros, se mais jovens ou mais velhos que ela.

Cada estágio que fez, cada lugar onde começou a trabalhar ainda na condição de estudante serviu para disseminar a sua reputação de boa médica. No último ano do curso, estava definida: colou grau em dezembro de 1965 já matriculada na Residência Médica em Cirurgia, no Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo – USP.

No dia 8 de dezembro de 1965, Sônia estava sentada na primeira fila da ala de cadeiras reservadas aos familiares dos formandos, no pomposo Teatro de Santa Isabel. Ao seu lado, as suas filhas. Sônia fez questão de levar as meninas para assistir a colação de grau da irmã.

Carla foi a oradora da turma. Pela primeira vez uma mulher ocupava aquela posição. Começou sua oração homenageando Sônia e falando do sacrifício e da dignidade da sua mãe para se transformar em empresária de sucesso no Estado da Paraíba, tendo nascido em uma família humilde no sertão paraibano. Enalteceu os esforços de Sônia para educar as filhas e criar as condições a fim de que ela, Carla, se graduasse em Medicina.

Homenageou as cinco colegas que receberam o diploma de médicas naquela oportunidade, juntamente com ela, ao lado de 15 novos médicos do sexo masculino. Reconheceu e agradeceu o trabalho dos esculápios que eram mestres naquela prestigiada escola.

- Enfatizo a nobreza e a responsabilidade da nossa nova missão no momento em que passamos a tomar assento como pares daqueles que nos formaram para o exercício de uma ciência que é também arte, a arte de minorar o sofrimento dos nossos pacientes. Tudo isto num país que deve muito em melhores condições sociais à sua população que vive padecendo com verminoses, desnutrição, doenças contagiosas como a tuberculose. O médico e a médica não necessitam apenas saber que a desnutrição existe. É importante perguntar: por que a desnutrição existe?

Por último, Carla predicou sobre os desafios que os novos médicos iriam enfrentar. O seu discurso foi muito aplaudido, certamente por misturar a celebração pessoal e dos seus colegas com a responsabilidade social do médico e a humanidade da profissão.

Concluída a solenidade de coleção de grau, todos se dirigiram ao Baile de Gala dos formandos no requintado Caxangá Golf & Country Club, o mais exclusivo e elitista do Recife, onde a única prática esportiva admitida era o golfe, esporte sempre associado aos hábitos da alta elite econômica.

Sônia e sua família estavam, finalmente, vivendo sem reservas o status que a matriarca buscou de todas as formas, tendo passado por momentos extremamente humilhantes, sem falar nos riscos da sua longa estrada na prostituição que já estava no passado. Os espaços do Caxangá Golf eram amplos e requintados, afastados do centro urbano, e somente frequentado por famílias de muito alto poder aquisitivo.


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