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A POLÍTICA EDUCACIONAL E O DIÁLOGO SUL-SUL

                                                 Geovana Lunardi


 

 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

Passei alguns anos sem participar da Reunião da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação - ANPED. Havia participado do evento pela última vez em 2019, na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Depois da pandemia Covid-19 não fui a nenhuma outra reunião da entidade. Voltei ao encontro neste ano de 2025, no campus da Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa.

É conhecido por todos os profissionais que se dedicam a pesquisar Educação no Brasil o conjunto de dificuldades vividas durante os quatro anos (2019-2022) nos quais o capitão Jair Bolsonaro exerceu a Presidência da República. Foi um tempo de política errática, com trapalhadas de gestores despreparados e evidências de coisas pouco republicanas apuradas pelas autoridades policiais e pelo Ministério Público, marcando da pior maneira os ministros que tiveram assento na principal cadeira do Ministério da Educação.

Em quatro anos foram cinco ministros da Educação – mais de um por ano: Ricardo Velezes Rodriguez, Abraham Weintraub, Carlos Alberto Decotelli (sequer chegou a tomar posse por inverdades publicadas em seu currículo Lattes), Milton Ribeiro e Victor Godoy Veiga.

Ninguém esqueceu as trapalhadas praticadas pelo ministro Milton Ribeiro, envolvendo um gabinete paralelo dentro do MEC destinado a intermediação da liberação de verbas do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação – FNDE para prefeituras. Ricardo Velez tentou obrigar as escolas a gravarem vídeo com os alunos cantando o Hino Nacional Brasileiro e ao final bradando o slogan de campanha de Bolsonaro – “Brasil Acima de Tudo, Deus Acima de Todos”. Dentre as muitas maluquices do ministro Abraham Weintraub, uma causou muito ruído – a fala na qual ele chamou os reitores das universidades federais de imbecis. E poderíamos continuar aqui desfilando os muitos problemas que trouxeram prejuízos graves para a Educação brasileira.

Foi um período no qual as entidades docentes, estudantis e associações de pesquisadores foram obrigadas a dispender muita energia em defesa da escola pública de educação básica e de ensino superior no Brasil. Da mesma maneira, as associações que reúnem pesquisadores de Educação tiveram que lutar contra a paralisação da pesquisa e dos programas de bolsas que viabilizam a atividade de pesquisadores universitários brasileiros no país e no exterior.

A principal entidade de pesquisa em Educação no Brasil, a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Educação – Anped, tinha como presidente naqueles anos turbulentos a Profa. Dra. Geovana Mendonça Lunardi Mendes, que liderou a instituição durante dois períodos, de 2019 a 2021 e de 2021 a 2023, demonstrando muita energia, competência e habilidade política.

Geovana é professora titular na Universidade do Estado de Santa Catarina – UDESC, lotada na Faculdade de Educação e Ciências Humanas – FAED. Como pesquisadora tem uma história dedicada a Educação inclusiva e a defesa da educação pública como direito de todos.

Durante os quatro anos nos quais presidiu a Anped, Geovana fez da defesa da Educação pública, laica, gratuita de qualidade e do Sistema Nacional de Pós-Graduação uma bandeira da maior importância nas atividades da Associação. Sob a sua liderança, a Anped foi ator ativo no debate público da política educacional brasileira, aí incluída a defesa da ciência.

A necessidade de continuar atuando durante a pandemia levou Geovana a expandir as atividades digitais da Associação, realizando reuniões, eventos e debates virtuais e incorporando cada vez uma maior quantidade de pesquisadores. O fortalecimento da representação brasileira em organismos internacionais e a solidificação da presença da Anped na World Education Research Association - WERA são certamente as marcas mais fortes da presidência de Geovana.

Participar novamente neste ano de 2025 foi uma grata surpresa que me permitiu conhecer o modelo de gestão liderado pela presidente Miriam Fabia Alves, da Universidade Federal de Goiás, que não apenas manteve os fundamentos da gestão da sua antecessora como aprofundou principalmente a internacionalização das atividades institucionais, estimulando os pesquisadores para que estes alarguem os horizontes da pesquisa educacional brasileira. Tudo isto tendo também como pano de fundo a luta para recuperar as perdas que a pesquisa educacional sofreu no Ministério da Educação entre 2019 e 2022.

O fato de a Anped haver promovido a sua 42ª reunião, em João Pessoa, concomitantemente ao WERA Focal Meeting 2025 criou importantes estímulos ao intercâmbio internacional, mostrando a pesquisa educacional brasileira para o mundo, principalmente aos países membros do BRICS. Agora, exercendo a função de vice-presidente da WERA, Geovana Lunardi contribuiu para dar voz aos pesquisadores do chamado Sul Global.

Esse tipo de iniciativa é muito importante por garantir que nações como o Brasil sejam ouvidas nas discussões mundiais deste campo. Daí a importância da apresentação, durante o encontro, realizado em João Pessoa, do Relatório Transformação da Educação Básica nos países BRICS: Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Quem participou do encontro teve a oportunidade de conhecer estudos comparativos a respeito da Educação nos países do bloco, apontando convergências e dissonâncias muito importantes. O trabalho da professora Geovana Lunardi vem dando visibilidade aos problemas e soluções da política educacional nos países BRICS. Mal estamos iniciando tal discussão, focados na perspectiva Sul-Sul. O caminho é longo e temos muito a aprender na jornada.

 

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