Jorge
Carvalho do Nascimento
A
morte do professor e economista Everaldo Aragão Prado ocorrida no último dia 20
de setembro de 2025 me fez recordar um artigo que publiquei em 2005 sob o
título “Misérias e Grandezas da Política Educacional Sob a Ditadura Militar”.
Este
ano de 2025 marca os 50 anos da posse de Everaldo como secretário da educação e
cultura do estado de Sergipe, durante o governo José Rollemberg Leite. Em 1975,
o Brasil tinha como presidente da República o general Ernesto Geisel, o quarto
general-ditador a assumir a chefia do poder executivo no país depois do golpe
militar de 1964.
Os
governadores dos estados eram uma espécie de delegados do presidente da República,
escolhidos pessoalmente por ele e submetidos ao colégio eleitoral especial
formado em cada estado pelos deputados estaduais. Foi a Assembleia Legislativa sergipana
que, no dia 3 de outubro de 1974, elegeu José Rollemberg Leite para o cargo de
governador e Antônio Ribeiro Soutello como vice-governador.
Apenas
12 votantes compareceram e elegeram os dois por unanimidade. José Rollemberg
Leite era engenheiro e professor, líder político tradicional que algumas vezes,
antes da ditadura, se submetera ao veredito popular. Em 1946 se elegeu
governador de Sergipe pela coligação PSD-PR, numa eleição disputadíssima na
qual derrotou o advogado Luiz Garcia, líder da UDN.
José
Rollemberg Leite, como governador, investiu muito no desenvolvimento do estado,
impressionando os sergipanos pelo seu acervo de realizações. Nomeou o professor
Acrísio Cruz como diretor do Departamento de Educação, cargo que atualmente
corresponde ao de secretário de estado da educação.
Acrísio
Cruz era um entusiasta do movimento da Escola Nova, liderado nacionalmente por
intelectuais da educação como Anísio Teixeira, Fernando de Azevedo, Paschoal
Lemme e tantos outros. Em Sergipe, a partir da posição que ocupou no governo
José Rollemberg Leite, Acrísio operou importantes reformas na escola pública
estadual sergipana. O que mais chamou a atenção foram os pesados investimentos
que resultaram na implantação de uma rede de escolas rurais em todo o estado.
O
sucesso do governo José Rollemberg Leite no período 1947-1951 fez com que ele
elegesse o seu sucessor, Arnaldo Rollemberg Garcez. Alguns anos depois, ainda
sob os ecos da sua passagem pela chefia do poder executivo, José Rollemberg
Leite exerceu o mandato de senador da república.
Ao
retornar ao governo estadual 28 anos depois, em 1975, José Rollemberg Leite
novamente buscou investir em obras de infraestruturas e também fortaleceu
políticas sociais relevantes, a exemplo da política educacional. Para a pasta
da educação nomeou o economista e professor Everaldo Aragão Prado.
Como
José Leite, Everaldo, não obstante o seu perfil de técnico, era conservador e apoiava
a ditadura militar, mas foi visto como uma oportunidade para modernizar a
política educacional do estado de Sergipe. Sucedeu um outro importante
intelectual da educação que ocupou o mesmo cargo antes dele, o médico e professor
João Cardoso do Nascimento Junior, que antes da secretaria da educação fora
reitor da Universidade Federal de Sergipe.
Todo
esse contexto me fez recordar, como afirmei inicialmente, o artigo que
publiquei em 2005. Naquele texto invoquei as reflexões do historiador Daniel
Aarão Reis que fez um importante alerta chamando a atenção acerca do quanto é
difícil para a sociedade brasileira recordar o período da última ditadura
militar vivida pelo país.
Segundo
Aarão, “os brasileiros não devem se autoflagelar por isto, nem se imaginar como
particularmente desmemoriados como se costuma dizer” (REIS, 2004, 49). Afinal,
“nas batalhas da memória, o jogo nunca está definitivamente disputado, as
areias são sempre movediças e os pontos considerados ganhos podem ser
subitamente perdidos” (Idem, 30).
Vale
a pena lembrar que a bibliografia sobre uma outra ditadura vivida pelos
brasileiros, a do período 1930-1945 é farta o suficiente e pródiga em análises
que apontam a crueldade e o ambiente de terror implementado pelos detentores do
poder estatal, mas também reconhece as contradições de uma política social que
incluiu retrocessos e avanços, com visíveis aperfeiçoamentos na vida da
população do Brasil.
Contudo,
em relação ao período da ditadura militar iniciada em 1964, certamente ainda
não vivemos o suficiente e, por enquanto, temos sido capazes, apenas, de
apontar as suas mazelas sem termos conseguido produzir análises consistentes e
equilibradas a respeito da sua política educacional.
Certamente, este
não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. A sociedade francesa, “mais de [80
anos] depois, ainda tem dificuldade de se colocar frente à frente com a
ocupação nazista e com a reduzidíssima resistência que ofereceu ao invasor e à
ocupação. O mesmo se poderia dizer, entre muitos e muitos exemplos, dos alemães
em relação a Hitler e ao nazismo, ou dos russos quando pensam na ditadura de
Stalin” (Ibidem, 49).
Todavia, há
indícios reveladores de que, cada vez mais os brasileiros sentem haver chegado
a hora de ajustar o descompasso entre memória e história no que concerne ao
período de 1964 a 1984. Nunca, em nenhum outro momento, esse debate foi tão
intenso no Brasil quanto no período que ora vivemos, decorridos já 61 anos do
início do golpe militar do dia 31 de março de 1964.
Tem sido muito
elevado o número de reportagens, documentários, filmes, dossiês e livros
publicados, seminários e encontros. Passamos o ano de 2024 discutindo a memória
produzida pelo filme “Ainda Estou Aqui”. Neste ano de 2025, o contexto do
ambiente da ditadura militar volta à tona com o filme “O Agente Secreto”. Todo evento
em torno de temas que envolvem a ditadura inaugurada em 1964, reúne um número significativo de pessoas,
curiosas e buscando descobrir o passado recente do país.
Em algumas
situações, dentre os que estão se debruçando sobre este passado, há partícipes
ativos dele. Depoentes e produtores de uma dada memória que busca persuadir a
todos quanto a justeza da sua versão e desqualificar a visão do oponente.
Rememorar os 50 anos do segundo governo José Rollemberg Leite e da posse de Everaldo Aragão Prado na secretaria da educação pode nos ajudar a compreender esse fenômeno em Sergipe. Todavia, este é um assunto que deve ser tratado a partir de evidências e estas pretendo apresentar nos próximos textos que publicarei sobre o tema.

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