Jorge Carvalho do Nascimento
Tentar
entender a trajetória do conhecimento matemático em Sergipe é,
fundamentalmente, buscar um rastreamento do que se poderia chamar de Matemática
escolar. Pelo menos três instituições escolares marcaram a segunda metade do
século XIX e a primeira metade do século XX na Província e no Estado: o Liceu
Sergipense; o Atheneu Sergipense e a Escola Normal.
O
primeiro foi implantado em 1862 pelo médico Guilherme Pereira Rabelo,
Inspetor-Geral da Instrução, num sistema de cooperação entre o poder público e
a iniciativa privada. O presidente da Província, Joaquim Jacinto de Mendonça,
assumiu a responsabilidade de pagar o aluguel das casas nas quais seriam
ministradas as aulas, além do pessoal administrativo necessário ao
funcionamento da instituição, enquanto um grupo de professores assumiu o
compromisso de ensinar gratuitamente.
O
currículo da primeira escola secundária organizada em Aracaju por iniciativa do
poder público se assemelhava ao do Colégio Pedro II, sob inspiração da Reforma
Couto Ferraz, de 1854. Dentre as disciplinas previstas estavam incluídas a Aritmética,
Álgebra, Geometria e Trigonometria, Partidas Dobradas e Aritmética Comercial,
conforme ensina a historiadora Maria Thétis Nunes em seu livro HISTÓRIA DA
EDUCAÇÃO EM SERGIPE.
O Liceu
funcionou apenas durante dois anos. Após a sua extinção, continuaram existindo
aulas isoladas de Geometria em Estância e Laranjeiras.
No Atheneu Sergipense e na Escola Normal, desde a década de 70 dos anos 800
foram formados os sergipanos que buscaram seguir carreira nas escolas de
Medicina, Direito, Engenharia, academias militares e outras agências de ensino
superior e pesquisa do Império e da República.
No curso
de Humanidades do Atheneu os estudantes aprendiam, dentre outras disciplinas,
Aritmética, Álgebra e Geometria. Os alunos que optavam pela Escola Normal
tinham a oportunidade de aprender Aritmética e Geometria. O professor Tito
Augusto de Souto Andrade integrou a primeira Congregação do Atheneu como lente
da cadeira de Geometria.
A partir
de primeiro de julho de 1873 foi adotado em todo o país o Sistema Métrico
Decimal, alterando radicalmente as formas de pesar e medir habitualmente
utilizadas no Brasil. Como nas demais Províncias, o governo de Sergipe
regulamentou a obrigatoriedade dos exames a respeito do conhecimento do novo
Sistema, que deveriam ser prestados pelos professores primários.
Para este
fim, foram abertas muitas aulas particulares enquanto a Tipografia do Jornal do
Aracaju publicou o Compêndio Elementar do Sistema Métrico Decimal, compilado
pelo capitão de Infantaria Manuel da Silva Rosa Junior. O livro era destinado
às escolas públicas da Província.
Herculano
Marcos Inglês de Souza, presidente da Província de Sergipe nos anos de 1881 e
1882, promoveu uma reforma do ensino secundário em julho do último ano do seu
período administrativo. Naquela reforma, o Atheneu foi transformado em Liceu
Secundário de Sergipe e os conteúdos de Matemática ocuparam três anos do
currículo dos estudos secundários, sendo previstas as seguintes disciplinas:
Aritmética, Geometria e Álgebra.
Segundo o
pesquisador Wagner Rodrigues Valente, a história da formação do professor de
Matemática brasileiro deve ser buscada nas escolas militares que foram
importantes no Brasil ao longo do século XIX. Disciplinas como Artilharia e
Fortificações lançaram mão da Matemática, buscando com o conhecimento desta
suprir necessidades relativas a práticas de guerra.
Foi tal Matemática,
de início ligada diretamente à prática, desenvolvida pedagogicamente nas
escolas técnico-militares, organizada, dividida e didatizada para diferentes
classes, que passaram para os colégios e preparatórios do século XIX. Com as
transformações das escolas militares, criaram-se as escolas politécnicas para
formação dos engenheiros. Foram predominantemente militares e engenheiros, os
professores de Matemática de tais escolas, até inícios do século XX, conforme demonstrado
pelo pesquisador Wagner Valente.
As
discussões acerca da Matemática ocuparam significativo espaço na imprensa de
Sergipe no final do século XIX. Em 1888, um artigo publicado no jornal O
Republicano, em Laranjeiras, acendeu a polêmica em torno do problema dos
estudos nesse campo.
O texto
“Introdução a uma crítica sobre o estudo da Matemática Elementar no Brasil”
tinha como autor o ainda estudante e depois engenheiro civil e militar Samuel
Augusto de Oliveira. O mesmo artigo foi republicado dois anos depois na Revista
da Sociedade Tobias e Ozório, no Rio de Janeiro, no mês de outubro.
Laranjeirense,
o engenheiro Samuel de Oliveira nasceu no dia 12 de outubro de 1868 e fez uma
carreira de sucesso no Exército, chegando ao posto de coronel em 1918.
Articulado politicamente, integrou a Casa Militar durante o governo do
presidente Afonso Pena.
O mesmo Samuel
voltou a polemizar em torno da Matemática um ano após a publicação do seu
primeiro artigo, quando no mesmo O Republicano, edição de 29 de fevereiro de
1889, fez circular o artigo “Algumas palavras sobre o estudo de Matemática no
Brasil”, dedicado “Ao meu primeiro mestre e verdadeiro amigo Professor Baltazar
Góes”.
Samuel de
Oliveira se tornou um importante autor de livros da área a partir de 1892,
quando publicou, no Rio de Janeiro, em parceira com Manuel Liberato
Bittencourt, a sua Geometria Algébrica. O livro foi produzido sob o influxo do
plano da Síntese Subjetiva, nos termos pensados por Augusto Comte.
O sucesso
editorial fez com que o trabalho ganhasse uma nova edição em 1896, em dois
volumes, sob o título de Lições de Geometria Algébrica. Todavia, o seu livro de
maior sucesso foi Matemática Elementar: Tratado de Aritmética, outra vez em
parceria com Manuel Liberato Bittencourt.
Ali, ele
retomou as teses dos dois artigos publicados em 1888 e 1889 no periódico
laranjeirense. Destinado ao curso secundário, porém adotado também no ensino
superior, o livro recebeu a chancela de Cunha & Irmão Editores, no ano de
1897. Os autores dedicaram o trabalho aos professores Felisberto de Menezes e
Manoel Peixoto Cursino do Amarante, ambos da Escola Militar, dos quais foram
alunos.

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