Jorge
Carvalho do Nascimento
A
primeira preocupação que tinham autores como Samuel de Oliveira e Liberato Bitencourt
era a de “satisfazer as exigências da didática moderna” (OLIVEIRA e
BITTENCOURT, 1897: I). Para tanto, partiram do pressuposto de que o
conhecimento da Matemática, como de resto das demais ciências, requer o seu
estudo em quatro partes: teórica, prática, filosófica e histórica.
Com base
em tal pressuposto, fizeram uma crítica rigorosa dos livros de Matemática em
circulação no Brasil, dizendo que neles “a parte prática vem confundida com a
teórica, trazendo estas noções filosóficas e históricas, tudo sem distinção”
(OLIVEIRA e BITTENCOURT, 1897: II).
Sob o
espírito dessa crítica, apontaram erros cometidos, inclusive, por adeptos
ortodoxos da doutrina Positivista, “esses senhores (...) absolutamente despidos
de senso crítico” (OLIVEIRA e BITTENCOURT, 1897: V), não obstante serem também
os dois autores filiados ao Positivismo. Contudo, afirmaram que aqueles aos
quais classificaram de positivistas ortodoxos procuram na prática reagir contra
semelhantes prejuízos, limitando a parte teórica ao estritamente necessário, e
fazendo realçar bem a parte filosófica.
Mas ainda
assim afirmam que os ortodoxos erram crassamente na colocação desta última,
pois fazem-na preceder a todas as outras, dando por esta forma péssima
interpretação ao que escreveu Augusto Comte (OLIVEIRA e BITTENCOURT, 1897:
III).
As
críticas que os dois autores dirigiram a outros estudiosos causaram
estranhamento em muitos deles. Licínio Cardoso, catedrático de Mecânica da
Escola Politécnica do Rio de Janeiro e lente de Sociologia da Escola Militar,
também no Rio, não obstante haver elogiado muito o trabalho, foi contundente ao
divergir:
“Não
posso, todavia, falar sem restrições do vosso trabalho: penso que há aí algumas
lacunas oriundas certamente da falta de prática no ensino, e de vossa pouca
idade. Considerações e definições que não me parecem aceitáveis são frequentes;
neste caso estão: os conceitos sobre grandeza à pág. 9; sobre número, pág. 10;
sobre grandezas contínuas e descontínuas, pág. 11; a nota à pág. 12; noção de
número concreto, pág. 16; definição de numeração, pág. 17; princípios da
numeração, pág. 19 e 23 etc. estas lacunas correspondem: uma, a defeito de
definição – outras a espécie de arrogância, com a qual arguis de erro noções
geralmente aceitas” (OLIVEIRA e BITTENCOURT, 1897: XI).
O
trabalho de Samuel de Oliveira e Liberato Bittencourt apresenta na parte que os
autores chamaram de teórica as diversas teorias que eles selecionaram para o
estudo, mencionando a importância e a utilidade de cada uma delas. Combateram
noções que consideraram equivocadas e criticaram de modo contundente a chamada
“teoria dos restos”.
Sabe-se,
com efeito, que cada princípio de divisibilidade dá lugar a uma consequência
imediata e que é relativa a determinação do resto da divisão de um número
inteiro qualquer pelo divisor de que se trata. Pois bem: os compendiadores em
sua totalidade formam com essas consequências a famosa teoria dos restos,
apresentando assim ao mundo científico o fato grotesco de uma nova teoria
composta pura e exclusivamente de conseqüências deduzidas dos princípios de
outra teoria!... (OLIVEIRA e BITTENCOURT, 1897: IV).
Após a
exposição das operações sobre os números inteiros no sistema de numeração
universal, os autores as generalizaram para uma base qualquer e fizeram logo
extensão ao caso das frações ordinárias e decimais.
A parte do livro a qual chamaram de prática ficou restrita, no dizer dos
autores, àquilo que era necessário para o esclarecimento da parte doutrinária
da ciência, como também para a solução dos problemas ensejados por esta em suas
numerosas aplicações.
Quanto a
chamada parte filosófica, foram feitas apreciações de compreensão simples,
mesmo para aqueles cujos conhecimentos estão limitados ao domínio aritmético.
Por último, o livro apresenta uma breve História da Aritmética, em poucas
páginas.
Os
autores esclarecem que no processo de elaboração da Matemática Elementar
fizeram a opção de desconsiderar a Síntese Subjetiva de Comte:
“Por maior que seja a admiração que temos por Augusto Comte, por maiores que
sejam as homenagens que rendemos à brilhante orientação que o poderoso gênio do
grande filósofo imprimiu aos estudos matemáticos, não podemos deixar de
reconhecer que uma aritmética confeccionada de acordo com as vistas expostas na
Synthèse Siubjective só pode prestar serviços a quem já possua conhecimentos
regulares sobre a ciência, que não aqueles que apenas começam a entreter
relações com as questões numéricas” (OLIVEIRA e BITTENCOURT, 1897: V).
Apanham
como mau exemplo o trabalho de Pierre Laffitte, Cálculo Aritmético, que
consideram um grande fiasco. Dizem que o livro de Laffitte como obra didática é
um grande desastre e um menosprezo à Metodologia, responsabilizando a Síntese
Subjetiva por tais problemas.
Em
Sergipe, no início do século XX os estudos de Matemática tiveram uma importante
liderança, depois que o professor Abdias Bezerra assumiu, em 1911, as cadeiras
conjuntas de Aritmética e Álgebra do Atheneu Sergipense. Em 1915, ainda na
mesma instituição, esse professor era responsável pelo ensino de Geometria e
Trigonometria.
Wagner
Valente (1999) afirma que no período de 1730 a 1930 o Brasil viveu sob a
Matemática escolar clássica ou tradicional. Segundo Ângela Miorim (1995) a
década de 30 do século XX no Brasil foi marcada pela reforma Francisco Campos e
os seus pressupostos escolanovistas, enquanto na década de 60 se conheceu o
movimento em defesa da chamada Matemática Moderna.
Na década de 30 do século XX o Brasil conheceu as suas primeiras faculdades de
Filosofia, Ciências e Letras destinadas a formar professores para o ensino
secundário. A partir de 1939 ocorreu a consagração do conceito Licenciatura,
tal como entendido até os dias atuais (TANURI, 1983).

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