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SAMARONE, A CULTURA DE ITABAIANA E O PANTEÃO DOS CRONISTAS


 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

Somente ontem sexta-feira, sete de novembro de 2025, recebi o autógrafo de Antônio Samarone de Santana no livro UMA HISTÓRIA CULTURAL DO POVO ITABAIANENSE, de sua autoria. O trabalho começou a circular durante a última Bienal do Livro de Itabaiana, no período de 23 a 26 de outubro.

Não compareci a Bienal por haver assumido anteriormente um compromisso acadêmico na Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa, durante o mesmo período. Naquela feira de livros, Samarone fez uma sessão de autógrafos colocando em circulação o seu novo trabalho.

Acompanho a atividade intelectual de Samarone desde a década de 80 do século XX, quando juntos, eu, ele, Luciano Correia e alguns outros, almoçávamos no centro de Aracaju, em uma churrascaria popular da rua Santo Amaro (não lembro mais o nome da firma) ou no restaurante Simpatia, também popular, na rua Laranjeiras.

Estimo o nosso convívio comum (o meu, o dele e o de Luciano Correia) em mais de 40 anos. O dele com Luciano Correia, ambos itabaianenses, já é imemorial. Eles são dois velhinhos. Nesses anos todos nunca deixei de acompanhar a produção intelectual de Samarone.

Médico sanitarista, professor de saúde pública na Universidade Federal de Sergipe, Auditor Fiscal do Ministério do Trabalho, gestor público, líder político de esquerda, vereador em Aracaju, eram as marcas do perfil de Samarone à época.

A maior parte da sua atividade intelectual gravitava em torno dos temas médicos e dos debates sobre saúde pública. AS FEBRES DO ARACAJU, o seu primeiro livro, a sua dissertação de Mestrado em Sociologia, teve ampla repercussão e o colocou na condição de importante historiador da saúde pública sergipana.

Mas, a curiosidade, a sagacidade e a inteligência de Samarone nunca conheceram limites. Ele sempre foi um grande contador de histórias. Sabia narrar com muito molho e muita graça, acrescentado àquilo que foi efetivamente vivido elementos narrativos fermentados pela sua fértil imaginação.

Suas narrações eram sempre orais. Num dado momento ele começou a escrever e a publicar os seus textos em jornais e depois foi se entusiasmando e ocupando os canais da internet. Eu o acompanhei e fui seu leitor durante todo o tempo.

Confesso que escrever não era uma das melhores habilidades que ele possuía. Mas, homem inteligente e dedicado em tudo o que faz, aos poucos se aperfeiçoou, refinou a sua escrita e foi ocupando os assentos da primeira mesa dos cronistas da vida sergipana, ao lado de gente como Murilo Melins, dos seus conterrâneos itabaianenses Wladimir de Souza Carvalho, Alberto Carvalho e Luciano Correia, do padre José Lima Santana e de tantos outros contemporâneos que se dedicam a escrever crônicas. Figurativamente, o médico foi vencido pelo literato.

Quando recebi o autógrafo de Samarone no dia de ontem, imediatamente disparei a pergunta: quantos textos estão aí? Ele respondeu com a sua habitual singeleza: “não sei. Simplesmente, reuni todos os textos que já publiquei sobre Itabaiana”.

Ao chegar em casa, me dediquei a manusear o livro e a contar beneditinamente crônica a crônica. São 318 crônicas em 607 páginas. Samarone fez um livraço pela quantidade de páginas, pela qualidade dos textos e pelo formato, 16X23 centímetros. Publicado pela Criação Editora, com design de Adilma Menezes, o trabalho foi impresso em papel apergaminhado 75gXm2 e tem capa em cartão supremo.

Gostei muito da Apresentação assinada por Luciano Oliveira, um itabaianense que se estabeleceu em Recife e fez carreira na Universidade Federal de Pernambuco. Doutor em Sociologia, é agora professor aposentado da prestigiosa e tradicional Faculdade de Direito da UFPE, Mas, para os seus contemporâneos de Itabaiana continua a ser Luciano Cibalena, filho de Oliveirinha, o dono da farmácia.

Ao examinar as crônicas publicadas, fiz uma constatação que me deixou muito feliz – conhecia todas elas em face do meu hábito de ler diariamente os textos que Samarone publica. Ali, ele trata de formiga a elefante. Fala dos tipos populares de Itabaiana, da atividade econômica do município, das tradições e das invenções, da história da formação da Vila de Itabaiana, da religiosidade, da saúde do povo, da paixão dos seus conterrâneos pelo futebol, dos caminhoneiros, das escolas e da Educação escolar, das mulheres, dos serviços públicos, dos hábitos alimentares.

Todos os textos me agradam. Se tivesse que escolher o da minha preferência, eu apontaria uma espécie de crônica autobiográfica na qual o nosso autor fala da fé local. Não por acaso colocou seu próprio nome como título. ANTÔNIO SAMARONE está na página 308.

“Nasci numa Itabaiana (1954) dominada pelo ultramontanismo, fazendo justiça a sua condição geográfica. Os triunfos do Iluminismo e da secularização ainda não tinham chegado. A vida cultural era dominada pela Santa Madre Igreja”.

A narrativa é rica. Ler Samarone vale a pena.        

 

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