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O MAIS FRANCÊS DOS ABRASILEIRADOS – BERNARD CHARLOT

                                                      Bernard Charlot


 

Jorge Carvalho do Nascimento

 

 

Em 1983 eu era aluno do Mestrado em Educação no Programa Educação: História, Política e Sociedade da Pontifícia Universidade Católica – PUC de São Paulo. Fiz a minha primeira matrícula como mestrando no segundo semestre de 1982 e estava deslumbrado com as descobertas que vinha operando.

Na PUC, à época, existia um vigoroso e saudável embate teórico entre duas importantes correntes do pensamento educacional brasileiro, ambas comprometidas com o combate ao pensamento pedagógico tecnocrático que dominara a Pedagogia brasileira durante a ditadura militar, naquele período vivendo os seus extertores.

Além do Programa no qual eu havia feito matrícula, também era muito forte o Mestrado em Educação: Supervisão e Currículo. As duas principais lideranças daquele programa eram Moacyr Gadotti e Paulo Freire, ambos recém chegados do exílio ao qual a ditadura militar do Brasil os submetera.

No Programa do qual eu era aluno a pesquisa educacional era liderada por intelectuais emergentes em afirmação que dominariam o cenário do pensamento educacional brasileiro nas duas últimas décadas do século XX e nas duas primeiras do século XXI.

Faço aqui referência ao pensamento que se afirmou sob o rótulo de Pedagogia Histórico-Crítica, induzida pelas ideias que o professor Dermeval Saviani trouxera para o Brasil após os estudos que fizera na Itália, incorporando as ideias pedagógicas de Antonio Gramsci e trazendo em tal contexto as teses sobre a educação e a escola defendidas por pedagogos como George Snyders.

As teses assumidas pelo programa de Supervisão e Currículo guardavam muita pertinência e se assumiam como herdeiras da crítica pedagógica francesa liderada por nomes como Pierre Bourdieu e Jean Claude Passeron, dentre outros.

A essa tradição crítica francesa, o pensamento de Dermeval Saviani qualificava como Pedagogia Crítico-Reprodutivista. Nas suas teses, Saviani fazia a defesa do que denominava Pedagogia Crítico-Social dos Conteúdos. O fato é que ambas as tendências possuíam a matriz crítica e divergiam apenas quanto ao modo como a escola deveria conduzir o processo.

Em meio a esse embate, muitas vezes, os jovens mestrandos ficavam um tanto confusos por não possuírem ainda as utensilagens mentais capazes de distinguir as filigranas filosóficas que estabeleciam os limites pertinentes a cada uma das tendencias.

Toda literatura que nos caía às mãos contribuía de algum modo para desembaçar a nossa confusão mental. Vivíamos ávidos à procura de tudo que nos parecesse útil. Uma tarde, saindo do campus da PUC, na rua Monte Alegre, me deparei com uma feira de livros na calçada do edifício da reitoria.

Ao manusear os títulos em comercialização, tive a minha atenção sensibilizada por um livro em especial: A MISTIFICAÇÃO PEDAGÓGICA. Bernard Charlot tinha o nome impresso na capa como autor do trabalho.

Conhecia vários pedagogos franceses, mas aquele Charlot nunca havia frequentado a minha bibliografia. Adquiri o livro. No mesmo dia, em casa, iniciei a leitura. O texto me agradou, mas havia um senão: identifiquei ali a Pedagogia Crítico-Reprodutivista da qual eu estava convencido que divergia.

Concluí o mestrado, voltei a viver na cidade de Aracaju. Saí da capital do estado de Sergipe por um breve período no qual trabalhei na Universidade Estadual de Maringá, Paraná, e depois para fazer um curso de especialização no México e um outro na Universidade de Havana, em Cuba.

Retornando outra vez a Aracaju, ingressei no quadro docente do Departamento de História da Universidade Federal de Sergipe. Algum tempo depois me afastei da instituição para o doutorado em Educação na PUC de São Paulo e para cumprir bolsa-sanduiche do Doutorado, atuando como pesquisador na Johan Wolfgang Göethe Universität, Frankfurt am Main, na República Federal da Alemanha.

Outra vez de volta a Aracaju, descobri que havia um festejado pedagogo francês, aposentado da Universidade de Paris, trabalhando no Departamento de Educação da minha Universidade Federal de Sergipe, a poucos metros do meu Departamento de História.

Maior era a coincidência: ele morava em um edifício vizinho ao meu, no bairro Jardins. Descobri o seu telefone e com toda a objetividade liguei e fui atendido. Fiz a minha apresentação e disse-lhe que havia comprado em 1983, em São Paulo, o seu livro e que gostaria de receber um autógrafo.

Naquela mesma noite fui a sua casa e tomamos duas garrafas de vinho. Saí de lá com o autógrafo no meu exemplar de A MISTIFICAÇÃO PEDAGÓGICA. Não entendi bem se ele manifestava a alegria da aculturação em face dos anos que vivia no Brasil ou se continuava portador da ranzinzice francesa. O fato é que ao longo do convívio e da amizade que se iniciou na ocasião, sempre alternei o meu olhar. Em um momento o considerava ranzinza e em outro um amigo leve e muito doce.

Viramos parceiros frequentes de troca de ideias e trabalhamos juntos em alguns projetos como professores e pesquisadores que éramos do Mestrado e do Doutorado em Educação da Universidade Federal de Sergipe. Em outra oportunidade, também juntos, fomos fundadores da Academia Sergipana de Educação.

Na última década nos vimos menos. Eu mudei do bairro jardins para morar numa casa em um condomínio fechado de uma das praias de Aracaju.  Isto nos afastou fisicamente e os nossos encontros ficaram mais raros. Contudo, a minha admiração por ele continuou crescendo e ele também sempre manifestando afeto por mim quando nos encontrávamos.

Ontem recebi uma notícia muito triste. O professor Bernard Charlot deixou a vida durante uma cirurgia cardíaca realizada no Hospital São Lucas, em Aracaju. As comorbidades associadas com a sua idade não permitiram que o seu coração suportasse as agruras cirúrgicas.

Perco um amigo. Fica a memória, ficam as saudades de um grande intelectual da educação e do bom amigo que foi Bernard Charlot, o mais brasileiro dos franceses que eu conheci. Ou, talvez, o mais francês dos abrasileirados.

 

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