Jorge
Carvalho do Nascimento
Viver
é viajar. E na viagem que é a vida, o mais rico dos percursos, o mais atraente e
mais importante dos roteiros é aquele que cada pessoa faz em sua própria
trajetória existencial. Esta foi a lição que me ficou depois de haver
revisitado o romance E ELES RETORNARAM SEM GLÓRIA, do médico e escritor Zeza
Vasconcelos.
Estou
convencido que na primeira vez que li o trabalho, em julho de 2024, não fui
capaz de captar a sensibilidade, a leveza e a beleza da tessitura literária
presente na narração da viagem descrita por Zeza que agora, nesta segunda
leitura, me envolveu por completo.
O
romance foi publicado no primeiro semestre daquele ano. Li e coloquei no
esquecimento de algum escaninho recôndito das minhas prateleiras de livros. Em
um dos dias desta última semana, a do Natal de 2025, acordei e deu vontade de
passar os olhos outra vez no livro do meu amigo querido.
Apesar
da leitura que fiz quando a obra entrou em circulação, agora, a cada página na
qual pousei os olhos era como se fosse um texto novo que eu nunca havia
visitado antes. A narrativa me encantou, sentei na proa do veleiro e naveguei
ao redor do mundo com o Capitão Scott e a sua Glória.
Não
me deixei levar pelas mãos do narrador, um jornalista que recebeu do seu editor
a missão de descobrir o que aconteceu com a menina Glória, uma aprendiz de
praticagem, filha de um prático da fictícia cidade portuária de Santa
Felicidade.
A
bússola que me conduziu por alguns oceanos e múltiplos portos ao redor do mundo
foi a mesma do casal Scott e Glória, desde que o capitão Scott ofereceu a João,
o pai da moça, a oportunidade de ensinar a esta os segredos da navegação
marítima, extremamente úteis para aprofundá-la no ofício de prática que ela
pretendia seguir.
Acompanhei
o primeiro contato da jovem com o capitão no passadiço do navio, acompanhando o
pai que faria a praticagem para atracação com segurança no porto de Santa
Felicidade. A travessia do canal instável que ligava a foz do rio ao mar era
sempre tensa e muito perigosa.
Em
Santa Felicidade todos tinham certeza do sucesso que faria Glória na praticagem.
A menina era filha, neta, bisneta, trineta, tetraneta de práticos que
aprenderam o ofício sempre com a geração antecedente. Pela primeira vez, o
sucessor seria uma mulher, bonita, letrada, com corpo de sereia e exímia nadadora
dotada de ofuscante beleza.
Tais
qualidades, associadas a ternura no comportamento, a suavidade da voz pausada,
o mistério e magia natural da moça encantaram o capitão Scott que começou a
desembarcar e andar pelas ruas de Santa Felicidade na companhia de Glória,
sempre que ali atracava.
Acompanhei
com vivo interesse o aumento da frequência das atracações do navio do Capitão
Scott no porto de Santa Felicidade e a intensificação do bem querer entre o
navegante e a aprendiz de praticagem.
Glória
era uma moça idolatrada por todos em seu município, pela sua inteligência, pela
sua beleza, pela sua capacidade de aprender coisas novas, pelo seu desempenho
como nadadora. Uma daquelas pessoas que existem nas pequenas comunidades, das
quais todos se orgulham.
Por
isto, quando Glória sumiu da cidade chamou a atenção de todos e fez com que o
poder político local criasse uma Comissão Multidisciplinar para Pesquisa de
Glória. Era necessário descobrir o que aconteceu e que rumo tomou a jovem
mulher.
Sem
que ninguém se desse conta, Glória havia embarcado em meio a escuridão de uma
noite, no veleiro branco com o qual o Capitão Scott chegara discretamente a
Santa Felicidade. Foi a sua mãe que a conduziu, em uma canoa, até o veleiro
europeu, enquanto a cidade dormia.
Entender que rumo tomou Glória, para quais lugares havia navegado, explicar os porquês da decisão da moça é a trama do romance escrito por Zeza Vasconcelos que, com sutileza mostra efetivamente a eternidade do amor.

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