Jorge
Carvalho do Nascimento
Embora
seja objeto de muitos estudos como prelado católico, professor, filósofo, escritor,
intelectual e gestor da educação, a obra de Luciano José Cabral Duarte como
jornalista não ganhou a mesma repercussão que possuem os demais campos nos
quais ele atuou.
É
verdade que existem algumas monografias, dissertações de mestrado, teses de
doutoramento, artigos científicos e livros que dão conta do seu trabalho como
repórter, articulista, editorialista, gestor de veículos de comunicação e
também correspondente internacional.
Contudo,
quando comparamos esse campo com os outros que citamos acima, percebemos que,
até agora, o jornalista é a fase menos conhecida da vida do polígrafo imortal
que ocupou a cadeira 16 da Academia Sergipana de Letras, na qual foi sucedido
pelo médico e escritor Antônio Carlos Sobral Sousa.
O
fato mais notório da sua exitosa carreira de jornalista foi a condição de
correspondente internacional da revista O Cruzeiro, que ocupou em Roma durante
o período de realização do Concílio Vaticano II, entre os anos de 1962 e 1965.
O
então padre Luciano foi, naquela oportunidade, um jornalista que gozava de
privilégios por aliar duas credenciais: a de padre conciliar e a de jornalista
correspondente. Como padre conciliar ele não tinha direito a voto nas sessões
deliberativas do Concílio, mas possuía o chamado “ingresso de aula”.
Era
o ingresso de aula que permitia sua presença em todas as sessões na Basílica de
São Pedro, com trânsito livre entre bispos e cardeais. Deste modo, o padre
Luciano Duarte adquiria informações reservadas que os demais jornalistas não
conseguiam.
Ele
fora ao Concílio Vaticano II na condição de assessor do bispo de Aracaju, Dom
José Vicente Távora. Além disto, Luciano Duarte era já, à época, considerado um
dos clérigos com melhor formação intelectual no Brasil. Para tanto, contava
muito o seu doutorado em Filosofia pela Universidade Católica de Louvain, na
Bélgica, e os estudos que fizera na Universidade Sorbonne, em Paris.
Fluente
em português, inglês, francês, espanhol, latim e italiano, além de especialista
no pensamento de Aristóteles e São Tomás de Aquino, Luciano Duarte
imediatamente se transformou em um assessor muito importante e de confiança de
todos os bispos nas reuniões das comissões técnicas e na redação de documentos
conciliares.
A
contratação de Luciano Duarte como correspondente da O Cruzeiro envolveu
diretamente a participação do jornalista Accioly Neto, o diretor de redação;
Jean Manzon, fotógrafo e documentarista do periódico; Assis Chateubriand,
proprietário dos Diários Associados (grupo empresarial ao qual a revista
pertencia); e Dom José Vicente Távora, bispo de Aracaju, e grande incentivador
para que o convite fosse aceito.
Luciano
Duarte era bem remunerado por cada matéria que enviava ao editor e isto lhe
permitiu viver em condições mais confortáveis em Roma durante o período de
realização do Concílio. Com a sua contratação, a revista buscou se distanciar
da cobertura jornalística trivial e presa apernas a fatos como faziam os
correspondentes laicos.
O
próprio Luciano Duarte explicitava em seus textos aquilo que diferenciava o seu
trabalho da atividade dos demais correspondentes: “Eu não escrevia apenas como
um padre, mas como alguém que via a história sendo feita e precisava conta-la
ao Brasil”.
É
importante lembrar que na década de 60 do século XX, a revista O Cruzeiro era o
mais importante semanário do Brasil. Na revista, o padre Luciano traduzia a
complexidade dos debates teológicos e das propostas de reforma litúrgica que
eram incognoscíveis para o leitor comum. E também analisava em profundidade o
que estava acontecendo.
Na
revista O Cruzeiro ele manteve a coluna “Vaticano II”, onde, distintamente dos
tratados filosóficos e teológicos que costumava escrever acerca do pensamento
de Aristóteles, Luciano Duarte assumia a crônica como estilo da escrita.
As
suas crônicas davam conta do ambiente na cidade sagrada, da influência exercida
pelos clérigos mais importantes e do impacto que poderia causar no catolicismo
algumas mudanças tidas como polêmicas, a exemplo da celebração de missas no
vernáculo de cada comunidade católica.
Repercutiram
muito no Brasil os relatos que o jornalista Luciano Duarte fez a respeito das tensões
entre cardeais e bispos em torno de ideias dos chamados progressistas e dos
conservadores, grupo com o qual Luciano Duarte demonstrava maior simpatia.
A
respeito de tal questão, o padre jornalista começou a lançar luzes sobre as
posições defendidas por bispos e cardeais brasileiros em face de decisões que,
segundo a sua ótica, seriam cruciais diante da realidade social e religiosa do
Brasil.
Lembremo-nos
que nos anos 60 do século XX, a circulação de informações, a difusão das
notícias, não dispunham dos meios facilitadores que estão disponíveis no século
XXI. Os artigos de Luciano Duarte eram, sob tal contexto, as fontes de
informação de maior importância para o esclarecimento dos católicos
brasileiros.
As
crônicas do jornalista correspondente em Roma serviam não apenas para informar,
mas modelavam as posições da opinião pública acerca do aggiornamento que
o Papa João XXIII havia proposto e que os bispos e cardeais discutiam para
aprovar ou não.
Foi
lendo os artigos do padre Luciano que muitos católicos, protestantes e
agnósticos brasileiros se atualizaram quanto a teses que a Igreja Católico
vinha defendendo desde o início do século XX e reafirmou na década de 60 da
mesma centúria.
Os
textos do padre e jornalista sergipano ajudaram a formar a consciência de parte
da opinião pública do Brasil que via o comunismo como uma ameaça em pleno
período da chamada guerra fria. Para o padre Luciano Duarte, o comunismo punha
em risco a liberdade religiosa e as novas posturas assumidas pela Igreja
Católica.
Para
muitos estudiosos, a série de textos publicadas pelo padre Luciano Duarte na
revista O Cruzeiro é um importante ponto de inflexão na história do jornalismo
religioso no Brasil. A sua produção como correspondente permitiu a publicação
de alguns livros.
Certamente,
Estrada de Emaús, que ele colocou em circulação no ano de 1971, é um dos mais
importantes dessa bibliografia. Do mesmo modo, Concílio Vaticano II: Os Novos
Caminhos da Cristandade, organizado pela sua irmã, Carmen Dolores Duarte, e
publicado em 1999 é também marcante, principalmente por reunir num mesmo volume
todas as crônicas que Luciano Duarte enviou de Roma para a revista O Cruzeiro
durante o evento.
O
ponto de partida foi a crônica “Concílio à Vista”, que circulou em 12 de maio
de 1962. O texto buscou preparar o público leitor para as atividades do conclave,
esclarecendo didaticamente a história dos concílios ecumênicos, lançando luzes
sobre os trabalhos do Concílio de Trento e do Concílio Vaticano I.
É
crucial o artigo “A Nova Prece da Igreja”, dedicado a discussão de uma das
questões que causou maior polêmica durante o Concílio Vaticano II: a mudança do
idioma da liturgia da missa que deixava de ser celebrada em Latim e adotava o
vernáculo de cada estado nacional onde era rezada.
O
padre Luciano Duarte tomou posição favorável a nova liturgia e esclareceu não
ser aquela a primeira vez que a Igreja Católica adotava esse tipo de
modificação. Revelou que inicialmente o idioma da liturgia católica era o Grego,
mas houve a transição para o Latim.
Considerou
que a alteração vernacular serviria para aproximar mais os fiéis dos sentidos
da celebração católica. Afirmava que muitos fiéis eram capazes de repetir em
Latim o texto dos atos litúrgicos sem que fizessem a menor ideia do significado
das coisas que diziam.
Devoto
de Maria, o padre Luciano Duarte dedicou uma das reportagens que escreveu para
a revista O Cruzeiro ao debate teológico a respeito da devoção mariana. O ponto
central da sua discussão foi reafirmar o dogma de Maria como Mãe de Deus.
Foram
muitos os artigos dedicados a discussão do ecumenismo nos quais o diálogo era
visto como o ponto de equilíbrio que permitia a defesa da identidade católica.
O tema era inovador e seu ponto culminante foi a publicação do decreto Unitatis
Redintegratio.
A
mais importante dentre as crônicas dedicadas a tal tema foi “Concílio Ecumênico”.
O padre Luciano explicou aos leitores do Brasil que a união entre as igrejas se
subordinava a um planejamento sólido. Buscou na história os fundamentos da sua
posição e citou o Lord Halifax, afirmando a importância da aproximação entre o
anglicanismo e o catolicismo.
Luciano
Duarte reagia aos que consideravam o ecumenismo como uma desistência, um
enfraquecimento da fé católica. Assumia o ecumenismo como um esforço de diálogo
entre irmãos que caminhavam separados e necessitavam dialogar em face das novas
questões postas pela modernidade. Uma unidade visível entre os cristãos em
tempos de guerra fria.
O
padre Luciano defendia iniciativas como a Semana da Unidade, um período no qual
as diferentes Igrejas cristãs, as muitas denominações religiosas se encontrariam
em orações conjuntas a estudar temas comuns. Afirmava que este era um ponto
importante também para entender a necessidade das mudanças litúrgicas que
possibilitavam as celebrações católicas com o uso da língua pátria.
As
posições políticas mais conservadoras do padre Luciano Duarte são reafirmadas
no livro Hungria 1963. Naquele ano, durante um período de intervalo das sessões
do Concílio, ele viajou para a terra dos húngaros. Como correspondente, enviou
vários relatos dessa viagem, abordando questões a respeito da vida sob o regime
comunista. O conjunto de textos foi reunido posteriormente sob o título de
Hungria 1963 e publicado em 2008.
A
grandiosidade do trabalho de Luciano Duarte como jornalista não se esgota na
condição de correspondente da revista O Cruzeiro durante o Concílio Vaticano
II. Ainda há muito a estudar quanto a sua atividade como jornalista conciliar.
Contudo,
é necessário que nos debrucemos sobre aquilo que o jornalista Luciano Duarte
fez no jornal A Cruzada, em Aracaju. Do mesmo modo, a sua atividade no Jornal
do Brasil, do Rio de Janeiro; O Estado de São Paulo; o Diário de Notícias, do
Rio de Janeiro; a Gazeta de Sergipe e o Jornal da Cidade, em Aracaju. Tudo isto
sem esquecer a sua atividade da Rádio Cultura de Sergipe.
O arcebispo Dom Luciano José Cabral Duarte continua a nos desafiar.

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