Jorge Carvalho do Nascimento
Em 1998 eu estava dedicado a um
projeto de pesquisa que investigava a história do ensino superior de Química no
estado de Sergipe. A partir da minha condição de professor do Departamento de
História da Universidade Federal de Sergipe obtive um financiamento do Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq para a execução do
estudo.
Estabeleci como lócus inicial
do meu trabalho os arquivos do Instituto de Tecnologia e Pesquisa do Estado de
Sergipe – ITPS, então completando 75 anos de funcionamento ininterrupto desde a
sua fundação em julho de 1923. Chamou a minha atenção o fato de o Instituto ter
sido criado pelo engenheiro Archimedes Pereira Guimarães, nascido em Campinas, professor
da Escola Politécnica da Bahia, que em 1984 morava em Belo Horizonte e morreu
assassinado a tiros de revólver por uma filha, num momento em que ela estava
acometida por um surto em face da esquizofrenia, doença da qual era acometida.
Do mesmo modo, descobri que o
professor Archimedes Pereira Guimarães era amigo pessoal do intelectual
escolanovista baiano Anísio Teixeira, com quem fez algumas parcerias de
trabalho. Em algumas ocasiões nas quais Anísio exercera o cargo de diretor da
instrução pública daquele estado, Archimedes foi o seu principal assessor e
substituto.
Entendi a necessidade de guardar
Archimedes como objeto de uma futura investigação, a ser desenvolvida tão logo
concluísse os estudos que vinha fazendo acerca da história do ensino superior
de Química no estado de Sergipe.
Concluída a minha pesquisa, passei a
me dedicar a Archimedes Pereira Guimarães. Estávamos em 2002 e fui aos arquivos
buscar os vestígios memorialísticos que tivesse possibilidade de localizar.
Reuni inicialmente os documentos existentes em arquivos do estado de Sergipe,
onde vivo.
Acreditava que a pesquisa seria
desenvolvida com muita tranquilidade e que não haveria problema para executar
aquilo que é a tarefa primordial da pesquisa em história, a chamada operação
historiográfica. Archimedes me pregou algumas peças.
Depois de alguns meses de
levantamento no Arquivo Público do Estado de Sergipe, nos arquivos do Instituto
de Tecnologia e Pesquisas de Sergipe, no Instituto Histórico e Geográfico de
Sergipe e nos jornais sergipanos que circularam entre os anos de 1922 e 1924,
percebi a necessidade de ir aos arquivos baianos.
A distância Aracaju-Salvador é de 300
quilômetros. Durante um ano, ao menos uma vez por mês eu dirigia entre a minha
cidade e a capital do estado da Bahia, em busca de Archimedes. Consultei os
arquivos do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, o arquivo público baiano,
os arquivos da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia e a
Associação Cultural Brasil-Estados Unidos – ACBEU.
Percebi que ainda havia muito por
fazer. Contratei dois alunos do curso de História da Universidade Federal da
Bahia que levantaram os jornais baianos publicados entre os anos de 1920 e 1984
informações sobre o professor Archimedes. Os estudantes vasculharam também os
registros existentes na Biblioteca Virtual Anísio Teixeira. Descobri que
aposentado da UFBA, Archimedes foi viver com a sua família em Belo Horizonte,
cidade natal da sua mulher, onde viviam outros familiares dela.
Depois de quase dois anos e meio
pesquisando na Bahia, fui investigar em Belo Horizonte. À época encontrei vivas
duas filhas do professor Archimedes. Eloísa, a homicida, vivia em um
apartamento em um bairro popular da capital mineira. Mudou para aquele endereço
depois de cumprir por mais de 20 anos uma medida de segurança, internada no
manicômio judiciário mineiro. Tentei visita-la, mas ela não aceitou me receber
para falar daquelas lembranças, o que é perfeitamente compreensível.
Fui recebido por Iolanda, ademais de
Eloísa a única filha de Archimedes ainda viva. Corria o ano de 2008. Ela foi
extremamente gentil. Durante os 15 dias nos quais fiquei na capital mineira,
ela me deu muitas informações sobre o professor e sua família. Permitiu que eu
reproduzisse alguns retratos do seu pai e fotocopiasse cerca de 10 livros com
trabalho de e sobre Archimedes. Com Iolanda, visitei a sepultura do professor
Archimedes no Cemitério do Bonfim.
Passei alguns dias trabalhando no
arquivo do Poder Judiciário, no arquivo público do estado, no Instituto
Histórico e Geográfico de Minas Gerais e nos arquivos da Sociedade Pestalozzi.
Iolanda revelou que o seu pai se fez grande amigo da professora Helena Antipoff
e trabalhou como voluntário naquela instituição.
Como na Bahia, contratei dois
estudantes de História que se dedicaram durante seis meses ao levantamento dos
registros a respeito do professor Archimedes existentes nos jornais diários que
circularam em Belo Horizonte nas décadas de 70 e 80 do século XX.
Se a ausência de fontes dificulta a
operação historiográfica, descobri na prática, que o seu excesso nos cria
dificuldades de seleção, fazendo com que sejamos uma espécie de Dorival Caymmi
da pesquisa histórica. Desde o ano de 2013, quando encerrei o levantamento,
tenho em minha residência mais de 2000 páginas de documentos sobre o professor
Archimedes Pereira Guimarães.
Em passos de tartaruga estou produzindo
uma biografia do meu objeto de estudo. Não sei quando concluirei o trabalho. Nos
últimos 13 anos, a cada 12 meses tenho dedicado cerca de 90 dias a Archimedes e
no restante do ano tenho trabalhado em outras atividades. Publiquei vários
artigos em revistas científicas e em anais de eventos.
Dediquei uma boa parte do meu tempo a
transformar o meu estudo em texto de ficção. Desloquei os espaços geográficos e
a partir dos personagens reais criei uma novela, JULHO, com figuras e nomes que
são fruto da minha imaginação. Espero, em breve, honrar meu compromisso e
colocar em circulação o meu estudo biográfico a respeito do professor
Archimedes.

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