Jorge
Carvalho do Nascimento
Em
2023 publiquei o livro Memórias do Jornalismo e da Coluna Social. Fiz um estudo
sobre o jornalismo em Sergipe, enfatizando particularmente o gênero coluna
social e buscando fazer um inventário dos colunistas sociais mais relevantes da
história de Sergipe.
Posso
afirmar que em toda a história do jornalismo no estado de Sergipe a jornalista
Thais Bezerra foi o nome mais importante dentre todos os profissionais da
comunicação que se dedicaram ao gênero coluna social. Thais morreu no final da
noite de primeiro de abril de 2024.
A
jornalista nasceu em 1960, no dia nove de maio. Hoje homenageio a sua memória. Fomos
contemporâneos de jornalismo na Gazeta de Sergipe e eu sempre acompanhei a sua
trajetória de sucesso. Sempre vi em Thais Bezerra uma espécie de Esfinge a
gritar “Decifra-me ou Devoro-te”.
Foi
o grito da Esfinge que me estimulou a realizar a pesquisa sobre o tema coluna
social. Para fazê-lo tive necessidade de me libertar de muitas das posições
preconcebidas acerca do gênero que eu esgrimira no início da minha carreira de
jornalista.
Como
afirmei, tive a possibilidade de me lançar ao estudo que deu origem ao livro
Memórias do Jornalismo e da Coluna Social, instigado pela força que possuía na
mídia do estado de Sergipe a jornalista Thais Bezerra. Reafirmo que, indiscutivelmente, ela foi o
nome de maior importância, em toda a história de Sergipe, dessa prática
especializada do jornalismo que é a coluna social.
Afinal,
desde o ano de 1978, ela foi referência no jornalismo impresso e de televisão
em Sergipe. Em 2023, sete meses antes da sua morte, Thais completou 45 anos de
prática ininterrupta do jornalismo. Ao deixar a vida, seu nome continuava associado
a credibilidade que conquistou como jornalista.
Ao
iniciar os levantamentos para escrever o meu livro, imaginei ser capaz de
compor um quadro memorialístico apenas a partir de um depoimento da própria
Thais Bezerra. Foi a isto que eu me propus quando, em 2005, fiz a minha
primeira entrevista com ela. Foram duas sessões gravadas em áudio seguidas por
conversas periódicas durante 17 anos, até 2022, quando coloquei o ponto final
no texto do livro.
A
riqueza de informações que Thais me revelou ao abrir o mundo das suas memórias
mostrou que eu estava equivocado metodologicamente. A minha proposta inicial
sofreu ali a sua primeira transformação. Decidi ampliar o meu objeto de estudo,
compreendendo que somente contextualizaria o trabalho de Thais Bezerra se eu
fosse capaz de compor um quadro mais amplo que desse conta do colunismo social
em Sergipe.
A
partir da primeira entrevista que fiz com ela, ampliei a lista dos meus
entrevistados. Ao nome de Thais Bezerra, que me instigava, acresci mais 40
pessoas. Foram ouvidos mais 38
jornalistas, predominantemente, mas não necessariamente, colunistas sociais.
São
raros os jornalistas da coluna social em Sergipe que tiveram competência
gerencial para transformar o seu trabalho em uma fonte de renda que os remunerasse
com dignidade. Também nisto, a situação de Thais Bezerra foi muito especial.
Ela
tinha consciência de ser uma grife que gerava lucros ao Jornal da Cidade. Em
entrevista que me concedeu no dia 20 de setembro de 2020, o jornalista e também
colunista social Luiz Daniel Baronto fez uma boa análise sobre o tema: “O
periódico é muito mais vendido no domingo que nos outros dias, por causa do
caderno Thais Bezerra”.
A
própria Thais, quando a entrevistei no dia cinco de setembro de 2005, me
confessou: “O jornal me ensinou a área comercial e a publicitária, a
publicidade. Eu aprendi a vender espaços publicitários de jornal. Eu acho que
eu me sobressaí na profissão porque aprendi a fazer publicidade. Sempre
escrevi, mas aprendi o funcionamento da área de publicidade. Eu aprendi muito
em Porto Alegre a trabalhar com isto, quando trabalhei na agência de propaganda
Promox, e acho que tudo me ajudou muito”.
Nos
primeiros meses da coluna GENTE JOVEM e no suplemente dominical Gazetinha,
passou a vender espaços publicitários do jornal, num período em que ainda era
estudante de Química na Universidade Federal de Sergipe.
“No
Jornal da Cidade eu aperfeiçoei a minha forma de fazer jornalismo e aprendi a
ganhar dinheiro como jornalista”. Segundo ela, foi no Jornal da Cidade que
entendeu que os rendimentos que teria como jornalista e publicitária lhe
permitiriam sobreviver com dignidade.
“Eu
vendo espaços publicitários porque o jornal vive de vender espaço, vender
publicidade. Eu não vendo notas, eu não vendo notícias, eu não vendo
entrevistas. Eu posso fazer uma entrevista de interesse público de um médico
que é dono de uma clínica. É notícia porque é do interesse coletivo.
Nada
me impede de vender espaços de propaganda para divulgação da clínica.
Propaganda. Eu não cobro por entrevistas. Mas, quando uma empresa quer fazer
propaganda, eu vendo o espaço publicitário adequado. Quem cobra por espaço
publicitário é o jornal, como empresa que é.
Eu
sou publicitária e ganho comissão sobre a venda de espaços de publicidade. Eu
sou bem clara. Eu tenho credibilidade, eu sou transparente. Eu sou empregada do
Jornal da Cidade. Se alguém chega para mim e diz que quer comprar a capa do
jornal para colocar a sua foto, eu respondo: o jornal não vende a capa. Sugiro
então um outro espaço publicitário que pode ser adquirido. O jornal tem uma
tabela de preços de espaço, a pessoa olha a tabela e paga ao jornal pelo espaço
publicitário. Se a pessoa for a notícia mais relevante do dia, como notícia,
pode até aparecer na capa”.
Thais Bezerra iniciou suas atividades
como colunista social em 28 de agosto de 1978, no jornal Gazeta de Sergipe.
Havia começado a trabalhar aos 17 anos de idade, em Porto Alegre, na agência de
publicidade Promox. Foi o jornalista Ivan Valença, então editor do periódico
sergipano, o responsável pela publicação da página GENTE JOVEM, que a partir
dali passaria a circular sempre aos domingos. Uma nota que o jornal publicou na
primeira página, naquele dia, fez uma brevíssima apresentação da então
desconhecida Thais: “Gente jovem é a página que estreamos hoje sob a
responsabilidade de Thais Bezerra, ela própria um brotinho lindo que passa a
colaborar com a GAZETA. Na página 6”.
Esta nota mudou a História da coluna
social em Sergipe. Mesmo com a chegada de Thais Bezerra, Leilinha Leite
(pseudônimo de Ivan Valença) continuou a publicar diariamente a coluna GENTE,
por entender que o GENTE JOVEM se destinava a um público específico. O sucesso
de GENTE JOVEM foi tamanho que a coluna se transformou no suplemento semanal
Gazetinha.
Desde a sua primeira coluna, Thais
mostrou que faria um tipo de jornalismo social voltado para as novas gerações
que estavam saindo da adolescência. Este era o seu público-alvo na estreia.
Perceptível pelo tom dos textos que publicou naquela sua primeira edição.
“É tempo de muita onda... Está
acontecendo em Salvador esse fim de semana, o I Campeonato Norte-Nordeste de
Surf. As feras da cidade estão por lá. Participando Huguinho, Jorge, Beto,
Ricardo, Ednei, Agostinho e outros”. A própria Thais era surfista e praticante
de outros esportes náuticos, gosto que ela herdou do pai e era, com ele,
frequentadora do Iate Clube de Aracaju.
A
GAZETINHA perdeu Thais Bezerra no dia 12 de abril de 1981, quando ela publicou
a coluna GENTE JOVEM pela última vez. Não houve no jornal qualquer registro de
que ela estava se afastando do periódico. Muito menos na coluna de Thais foi
publicada qualquer nota de despedida assinada por ela.
O
sucesso editorial e comercial da coluna GENTE JOVEM, uma espécie de carro chefe
do caderno GAZETINHA levou o Jornal da Cidade a convidar Thais Bezerra a
assinar um caderno semanal de 16 páginas tendo por título o seu próprio nome. A
proposta editorial e financeira do Jornal da Cidade lhe era bem mais vantajosa
profissionalmente que as condições de trabalho que tivera até então na Gazeta
de Sergipe. A estreia aconteceu no mês de julho de 1981. O caderno continuou a
ser publicado todas as semanas até a sua morte em 2023.
No
caso da mídia do Estado de Sergipe, o olhar da maior parte dos jornalistas
reconhece o nome de Thaís Bezerra como o mais importante do gênero na história
do jornalismo impresso. Paulo Roberto Dantas Brandão, um dos meus
entrevistados, foi diretor da Gazeta de Sergipe, o primeiro jornal no qual
Thais trabalhou e entende que “Thaís inovou um bocado. Gostei muito de uma
primeira fase dela com a coluna Gente Jovem”.
Foram mais de 45 anos ininterruptos de jornalismo como colunista social de sucesso.

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